sábado, 28 de fevereiro de 2026

O Pénis Húngaro

O senhor Vasconcelos vinha junto ao mar, oferecendo o rosto ao sol vespertino quando algo o chamou à atenção. «Olha!… – exclamou – É um pénis húngaro! Esta é boa; um pénis húngaro que dá à costa...» De facto, o pénis, por sinal húngaro, rebolava nas ondas. «Hahah, é mesmo! É um pénis húngaro – não contendo a hilaridade. - Vou mostrar à mulherzinha»
- Conceição, olha o que eu encontrei na praia.
- O que é isso? – disse a mulher colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha – É rosadinho; o que é? 
- É um pénis húngaro, mulher.
- Não brinques com coisas sérias; não quero isso dentro da minha casa. 
- Olha… – exclamou, não percebendo as intenções da mulher. – É apenas um pénis húngaro. Onde raio queres que eu vá pôr? 
- Bem, não queiras brincar com coisas sérias. Despacha-te; leva-o daqui para fora. 
O senhor Vasconcelos não se conteve: «Nunca me ri tanto. É apenas um pénis húngaro; que pode ele prejudicar?» 
- Vai, não quero que brinques com coisas sérias. 
O senhor Vasconcelos enfiou o pénis húngaro no bolso e fechou a porta atrás de si - que a mulher engolisse um sapo vivo, ora essa: este caso tem a sua piada e não há nada que possa um senhor Vasconcelos de se divertir à custa de um pénis húngaro. «André, vê: é um pénis húngaro! – bradou ao ver o vizinho no postigo da cozinha de onde cuspia pevides de uvas bem fartas. 
- Pá, vai dar uma volta ao bilhar grande. 
- Não tens sentido de humor nenhum! Eu pergunto-me como terá um pénis húngaro dado à costa; e ainda sou contemplado pelo teu desprezo? Tem a sua piada: um gajo vai para dar um passeio e encontra um pénis húngaro a rebolar nas ondas do mar. Está bem, não é um caso importante, é só um pénis húngaro que deu à costa! 
- Homem, não me atazanes a cabeça. Leva o teu pénis húngaro para a quinta dos infernos. – e sumiu no postigo da janela. «Hahah, este gajo diverte-me. Mas vejamos, onde posso deixá-lo?» O senhor Vasconcelos tacteou com um dedo a glande rosadinha e perguntou a si mesmo se o pénis húngaro teria cócegas. «Anda, dá um ar da tua graça» Nem pensar, o pénis húngaro é do carácter impassível; nem sim nem assado. «Olha, vou colocá-lo no marco do correio; pode ser que ele volte de onde veio»
- Hey, que pensa que está a fazer? – bradou um polícia vindo no seu encalço assoprando num apito. 
- Boa tarde, senhor agente. Trata-se de um pénis húngaro. Deu à costa mas eu quero desfazer-me dele, uma vez que a mulherzinha assim mo pediu. 
- Você disse “pénis húngaro”? 
- Exactamente. Vinha pela praia quando ele rebolou sob os meus pés. 
- E acha que vai colocá-lo no marco do correio nas minhas barbas? Era o que mais faltava! Você vai é de choldra; acompanhe-me. 
- Então e o pénis húngaro, senhor agente? 
- É uma prova, caro senhor. Prova de quem anda a infringir a lei. Lá porque se trata de um verdadeiro pénis húngaro, não tem direito de o expor à vista de todo o mundo. 
- Você é parvo? Não acha extraordinário que o pénis húngaro tenha dado à costa? E porque me arrasta como a uma criança... Olhe que eu chamo a Cândida Pinto. 
- O senhor terá de me acompanhar – disse o senhor agente sem mais nada acrescentar, manietando um senhor Vasconcelos divertido. 
Nessa noite, o senhor Vasconcelos esteve cárcere numa cela resguardada por duas sentinelas. Ninguém quis dar ouvidos ao senhor Vasconcelos. «Nunca me ri tanto – e por mais que se contivesse, o homem estava como que pregado ao jocoso hilariante do momento. 
– Estes tipos são realmente muito parvos!
 Mas fosse um pénis húngaro porque sim ou porque não, a verdade é que o senhor Vasconcelos esteve preso uma noite e um dia e uma névoa se abateu sobre estes acontecimentos.

Tanta gente mariana

Domingo de Páscoa tórrido, daqueles domingos bem quentes que estalam na psique. Estávamos em Viana do Castelo diante de uma mesa com convidados, entre os quais homens e mulheres que eu não fazia ideia quem eram, senão familiares de alguém que tem por afinidade a minha avó materna. Lembro-me que essa sala estava algo iluminada devido à luz que passava através das janelas, ainda que airosa e confortável - e longe, muito mais longe, a canícula. Ali cirandam crianças e pequenas mulheres do campo com rosto macerado. Pormenor algo curioso: é o jardim que pulula de flores mesmo abaixo dessa sala, bastando descer um lanço de escadas, para logo tudo se cobrir de um aroma intenso debaixo daquele mesmo sol. Às tantas eu descia para aquela fortaleza de jardim para evitar aquelas pessoas desconhecidas em redor da mesa dos acepipes. A casa em si era uma espécie de construção em baluarte. O jardim apenas um prolongamento. E aquela sala, apenas mais um compartimento feito a partir de alumínio barato onde as pessoas podia queimar o tempo. Lembro-me que, já naquela idade, eu pensava para mim o quanto era peregrina a ideia de nos juntar aquelas pessoas; o quanto para mim era já um tormento e especial embaraço permanecer ali. Pois eu não desejava estar ali. Pior só mesmo aquele dia de Carnaval em que eu supliquei à minha mãe para sair.

Guerra Jocoso

Olha o Guerra Jocoso... Lembrei-me porque o Bruno dos Santos fugiu após ter visto o homem do caderno preto esfarelado ao largo do Aveiro Digital: «Eu nem quero imaginar o que ele escreve no caderno!» 
- Que exagero!
Já o Guerra Jocoso, era meu colega de História da Arte. Ele com um arquivo com a antologia de Fernando Pessoa em formato A4 debaixo do braço. Uma altura estava a calcular pelos dedos rimas a escrever num caderno.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Love

Mister Albuquerque walks pleasant in the woods. The trees, the opalescent sun through the branches. Suddenly a flying creature flips before his eyes. A turtledove. Feather plume fall onto his hands. A golden one. «Admirable animals, our friends». It happens mister Albuquerque hears a laughter. «Dove?» - wonders.
- No. Love. My name is Love. That golden feather is mine. 
A smile. Mister Albuquerque was pleased. So, you're Love. Ok, I won't question - in his heart he knew turtledove was a wonderful creature.

Bliss

I dreamed of angel gals. They were moving a vehicle. I was sort of bragging because it seemed very strange. They told me not to bother because it was sort of important to them. Meanwhile, the vehicle was kind of damaged. They were very kind and sweet. I was told not to touch them. But it seems they weren't so worried after all. I even touch one of those girls. I was delighted.

Jacklino

Mister Jacklino sees a inflatable Santa Claus in the distance. He's at the marina to spend some time. However, mr. Jacklino steps into this shaped-pipe time machine into Renascence. When he arrives, Mr. Jacklino understands he's at Saint Mark's Square. He sees Michelangelo in the distance. As soon as he reaches Michelangelo, he embraces him. Says Michelangelo: «Take things very easily»

Simon

Mr. Colibri takes a glass of Porto in the terrace. Mr. Colibri sees a shooting star across the vast sky. His family is inside. «I'll make a wish. I can't tell them.» Next he appears on the road to the Calvary. A man is compelled to help a convicted carrying a wooden cross. «This is Simon - says Colibri with his feet stucked in the mud - never saw this coming.»

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Bangó

Mr. Bangó was stretched in a reflective way. A fly lays in the orbit of his eye. Mr. Bangó was surprised. «Such a ridge» - says the fly. Mr. Bangó wants to protest, to become a hand at least to drive the intruder away. It looks like Morgue is written just not far from him.

Spacemen 3

It's Christmas. Mister Higgins is by himself. He's dancing to a very fine tune. Not such thing as symphony. It was Spacemen 3. What a pleasant evening. He was actually flying. «This is my concern» - said mister Higgins. Then the music began to project him through the walls. He was very amused. The music was over. The apparatus. «God, you pleased me». The conductor was overwhelmed; he pulled him up.

Colibri

Mister Colibri spends the night in the forest. «What's so terrible about the forest. People are lame». For an instance he saw Jesus. «Precious - said Colibri, walking that way - I wonder.» Somehow he saw the Devil. «Who in the hell are you?» 
- Colibri. 
- Stay away from us...

Archbishops

At the Vatican, a group of archbishops steps into this pitch in order to play ball. However, a cloud seems to blacken that part of the field. God, within the cloud, rejoices. The archbishops rejoice themselves aswell; they even seem to reprehend God up there. Then the sun begins to rose; God rejoice as sun, smiling in beatitude. «It's me checking the email on my phone». Pope, at the terrace, sees God and the men bellow. «Look, it's Pope. Hi, Pope. God just nailed it»
Yes, it is God. 

English

Mr. Augustus transfers an undeclared amount of money into this offshore account. He laughed. Only few men across the country can afford to enter that mansion where he will spend the night. These lucky men even have a card in which is written the word FIDELIO. It seems there's a intruder who knew about the password. Mr. Augustus laughs. «The pianist must go; eventually they will make sure he vanishes. That sucker doesn't even realize there is no password to the house.» As soon as Mr. Augustus transfers the amount of money into that offshore account, the door handle seems to move in the dark. «Who's in there?» says Augustus in that direction. - What are you scared of?

Excerto

A sorte de António e Pedro haveria de mudar. Talvez que eles pudessem pôr cobro a uma vida de obscurantismo, como que entregues a si mesmos, impregnados na vida da lavoura nos arrabaldes deprimidos da cidade onde nenhum homem regrado antes colocara lá os pés. O seu quotidiano a lavrar a terra com charrua, onde o crivo malhava entre os bichos mais improváveis e outros que se desembrulhavam diante dos seus olhos cansados, desde há muito que lhes ocupava o espírito sequioso de uma vida nova. Às tantas açudavam o boi à charrua raquítica pela manhã a eito, com os pés pejados pela maviosa substância da lama soçobrante das poças. Pelo entardecer encharcavam toda a vasta plantação de couve com o jacto misericordioso de água. Às tantas a sua dilecção pelos bólides dava azo para assistir aos grandes e veneráveis campeonatos de Rally. Ali estava um modelo de carroçaria guisando o mato. «Tu bates mal! - gritava António para o condutor na faxina da manobra, lançando-se na emboscada depois do carro derrapar pela brema. - Tu bates mal!...»

Arruda

Tive um sonho de contornos tenebrosos. Sonhei que o Miguel Arruda estava melindrado devido à publicação de um livro; que inclusive me pediu auxílio com algum fragor. Estava atormentado; tanto que procurou mostrar que ele estava a morrer, para regozijo de uma jovem mulher. 
Estávamos portanto à mesa. Um homem à sua frente, de perfil para mim - cabalista, na melhor das hipóteses - disse com temperamento para esquecer a literatura. Enquanto isso eu desviava o olhar à medida que na sua mão aflorava um trecho que me visava, segundo pude compreender. Sobre um transsexual cujo nome, Fredie, me fez tremer. Pensei ser um atendado à minha integridade. Limitei-me portanto ao silêncio, sempre de cara virada para o evitar os seus olhos frívolos.
- Esqueça a literatura - dizia o homem temperamental. - Para ser honesto, o livro é mau. Canhestro. Talvez seja possível evitar a morte do personagem por AVC. Isso implicaria reformular o texto. 
Miguel Arruda sorriu de beatitude, um pouco tomado de ternura devido àquele fascínio pelos livros: Talvez se eu reformular de forma ao personagem perder as pernas. 
- Estamos conversados.
Ficamos à mesa. 
Por fim, Miguel Arruda - já num modo desesperançado - dirigiu-se a mim. Parafraseou de uma forma desconexa. Lamentou e até quis crer que estava a morrer naquele instante. Eu acreditei. De facto, ele estava a morrer. Estava por de mais débil, e até tartamudeou algo que fez a mulher sentada à nossa mesa rir de incredulidade. Os seus amigos, numa mesa mais próxima, abalaram sorrindo, tentanto passar despercebidos após se inteirarem da situação do livro, que leram. Uns figurinos, na melhor das hipóteses. Eu sentia que ele estava a ser perverso apenas. Foi no entanto que ele me mostrou o peito manchado por duas poças de sangue estagnadas e lúgubres, portanto: os seus pulmões. A barriga cheia, numa espécie de bolsa de água, arrepiante em que se descobriam os poros. Tu estás mesmo mal, homem.
- Sim, é verdade. Por isso, me despeço - disse de forma teatral, continuando ainda mais frívolo: Padeço...

domingo, 22 de fevereiro de 2026

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Van Grogue

Nessa noite comprei o bilhete inter-cidades para voltar para casa. Que infortúnio. Às tantas ouço a campainha. Era João e o Bruno com os olhos postos em mim. Entraram porta dentro e refastelaram-se no sofá. Nisto, Bruno, fosse por mera bufonaria, retira da minha bolsa o meu caderno e recita o seguinte com alguma surpresa no semblante: 

Vi À Porta da Eternidade de Julian Schnabel há uns tempos. A interpretação Willem Dafoe é primorosa. Todavia, Schnabel, artista completo que é, não se debruçou sobre o tormento de Vincent. Talvez que esteja a salvaguardar a memória dele. Ou talvez que Schnabel não seja humilde o suficiente para fazer compreender o tormento de Vincent. Porque - diga-se - é preciso uma bela dose de coragem para lancetar uma orelha. Vincent não é apenas paisagens com ciprestes. É todo um mundo interior. Sadness will last forever: parece que estou a imaginar o sofrimento aquando dessas noites de verdadeiro horror. 

Os meus amigos não podiam conter. 
- Onde foste desencantar isto? 
 - Ehehe, não importa. Estava certamente a divagar. 
- Estou a rir  - disse Bruno - porque o meu professor diz que o Van Gogh não lancetou a orelha. Que era muito provavelmente um mito. A sujeição.
Curiosamente, esse seu professor também leccionava em Design. Foi o próprio que me abordou depois de eu desenhar o Gogol eclodir de um ovo kinder. A Cláudia até estava a peneirar com as amigas. Pelos vistos, esse professor estava comovido numa aula, pelo que o Bruno acorreu após sair da sala para amparar o ombro num gesto de benevolência.
Este meu colega de Novas Tecnologias da Informação estava sempre tentado em contar estórias. Uma altura, após entrar em sua casa, fomos desenhar para o sótão. Estava ali estava a fazer uns retratos. Vira-se ele, um pouco mais divertido e com alguma parcimónia: «Lembrei-me do meu vizinho. Uma altura, estávamos em casa dele quando denotamos que estava a tactear as pulgas do sofá para as mordiscar. Juro, que doido. Outra vez, depois de uma brincadeira lá em casa, urinou contra a parede do corredor. Nós estávamos espantados!» - pelo que Bruno ria sem conter. Mal ele sabia do Coelho lá do bairro: «Olha passa os dedos na concavidade do escalpe. Mercê da ousadia, eu sorria:
- Tu tens mesmo um buraco na cabeça...
Entretanto, Bruno contou-me sobre um filho da terra que perdeu a perna após se aventurar na linha férrea. Diz que ouviu as vizinhas numa soleira para sua própria apreensão. «Elas não continham de tanto rir da desgraça do próprio filho.» Curiosamente, vi esse vizinho do Bruno no hall de entrada a perscrutar quem atravessa a estrada neste sentido: «Bruno, acho que o teu vizinho te quer dar um recado, pelo que bramiu naquele sentido. Eu estava a ver o vizinho numa muletas. Mal o Bruno sabia que um homem se suicidou na linha férrea em Braga. Nós até quisemos ir ver o decapitado pelo aterro. O aterro era muito próximo da casa do Fernando. Lembro-me perfeitamente de entrar com o Jota em casa do Fernando pelas antemanhã, ainda noite cerrada, depois de atravessar o aterro sob jorros de chuva, estando ele a aquecer leite num bico de gás. Depois disso, acorria ao quarto da avó para lhe administrar insulina. Eu ria-me porque havia um poio de plástico no móvel da sala de estar. 

Isto passou-se. Já no comboio para Braga vi a paisagem suceder. Era deprimente.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os Anjos

Bolas, sonhei com anjos. Umas raparigas muito bonitas. Sonhei que estavam a mover um veículo. Eu estava de algum modo contente, apesar da situação a tocar o estranho. Disseram-me para não as aborrecer até porque era algo importante para elas. O veículo estava danificado. Eram anjos muito delicados. Fui advertido para não as tocar. Porém, não estavam de todo preocupadas. Eu ainda toquei em uma dessas raparigas, afinal, anjos. Eu estava embevecido.

A Polícia

Em casa do senhor Rubistein fora preparada uma festa para as crianças. No pequeno jardim interior bramia a placidez do sol. A mesa com o tema; a vitualha própria para os diabretes; e, sob a forma de um anho, que estendia a sombra sobre todas as cabeças de pequenos cristos, uma pinhata. «Meninos - principiou a senhora Rubistein numa voz melíflua -, agora vamos tentar quebrar a pinhata. A população de meninos urrou, mas havia quem se deslumbrasse sob aquele sol hialino. O senhor Rubistein sorriu. Neste somenos a porta de entrada é sacudida de forma evasiva. O senhor Rubistein acorreu imediatamente, deparando-se com dois oficiais. «Que significa isto? - perguntou o mais alto ao deparar-se com a situação. «Bem - respondeu o senhor Rubistein sem se perturbar -, eu convidei todos os meninos do bairro para uma festa. «Que espécie de festa - retorquiu o outro oficial. «Nada de especial, apenas uma festa para entreter os mais novos. Os oficiais irromperam pelo jardim; parecia que uma sombra havia assolado por momentos o jardim. As crianças buliram numa interrogação. «Passa-se alguma coisa - perguntou o senhor Rubistein. «Deduzo que sim - disse o oficial bramindo um olhar que atingiu o senhor Rubistein no âmago. «Deduz? - procurou perceber num receio. - Sabe, é apenas um jogo. «Também posso jogar? - retorquiu o mais baixo dos oficiais. «Sim, claro - reagiu o senhor Rubistein -, claro. «Eu tenho bastante curiosidade - disse o mais alto -, também posso assestar na pinhata? «Eheheh - sorriu o senhor Rubistein. Neste somenos, os dois oficiais principiaram num jogo divertido em redor da pinhata. Que solenidade, não se continham de tão ébrios no jogo. As crianças estalaram a rir; também elas estavam inebriadas devido ao fascínio da pinhata.

Hulk

Há dias entrei numa casa de alcoóis. Só depois é que reparei que ao meu lado direito estava um gajo alto com a beber cálices de bebidas espirituosas. Discorria aluadamente. Estava em amena cavaqueira com o empregado de balcão. «Você sabe porque a namorada do Hulk se divorciou dele? Porque estava com necessidade de um homem mais maduro.» O empregado riu: «Porque era do Sporting? «Exacto - disse ele sem intenções de defraudar o péssimo mau humor do seu interlocutor.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Ceia


Estávamos na cozinha sombria e pejada de penumbra de uma casa térrea. Dois amigos ceavam à luz de uma vela que sobrepujava as paredes com sombras alongadas. Tratava-se de uma casa bem junto ao solo, em que se destaca uma janela chanfrada na fachada, na rua Cruz de Pedra, onde os automóveis se sobrepõe, atravancados, como esteiras de metal pedregoso. Uma casa deveras peculiar, recamada de cal, que ainda hoje provoca no vosso narrador uma espécie de náusea. A rua, toda ela, é um conjunto feio de construções velhas e raquíticas, ruínas e prédios avulsos de dois e três andares remodelados. Quem passa por esta rua, há-de vislumbrar a dita casa a um primeiro alcance, pois que se situa entre as suas vizinhas mais altas como uma pequena anã. 
Os dois amigos ceavam. 
Conhecia-os de deambular para aquelas bandas, em modo andrajoso, pálidos de doenças venéreas, com cabelo sujo e eriçado. Às tantas, o mais velho estirou a mão ao meu pai quando passávamos em revista os jornais na vitrina sob a Arcada na tentativa de cravar um cigarro. «Desculpe, não tenho» - Pois que o mais provável era o vício estar entranhado nas suas cabeças raquíticas de combustão e escalpes talhados às três pancadas. Passámos ao largo e dirigimo-nos ao Ferreira Capa para assentar as ideias e tomar um café, na Rua dos Capelistas, sobretudo para sair da atribulação entre choques de hálitos empastados e deslumbres de narizes virulentos.
Voltemos à Rua Cruz de Pedra. 
É noite. Os dois amigos ceavam, portanto. Batatas assadas no forno; manjar propício para afagar um estômago doente. A cozinha, além da luz parca, estava abatida por uma franja de fumo que soçobrava do forno ainda quente.
- Estas batatinhas estão boas, não estão? - disse o mais velho, Augusto. 
-  Sim, estão crestadinhas - respondeu Licínio.
Olha, consegues passar a mão pela vela? - perguntou Augusto. 
- Não - respondeu Licínio - ainda queimo a mãozinha. 
- Preferes as batatinhas, não é? Estão boas, não estão? - correspondeu Augusto alegremente com um brilho nos olhos. Após a ceia, Augusto recostou-se nas costas da cadeira. «Vou fumar um cigarro, irmão. Tens fósforos? 
- Não. 
- Então apaga a vela, vamos dormir; fumamos amanhã.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O Arquivo

Quem atravessa a Rua Cruz de Pedra, lá é tudo feio: automóveis atravancados como metal pedregoso ao sol; casas de um raquitismo desmaiado, outras reformuladas sem generosidade. Mas quem desemboca no Campo das Hortas, onde encima a Sé, o Sol abre para um jardim parcamente florido, e a atmosfera, então saturada de construções arruinadas, dá para a uma catarse de ar fresco, onde não muito longe eu vislumbro o Arco da Porta Nova. Restaurantes pululam ali como nunca antes; nota-se o aroma das refeições vespertinas entre fogalhas e frenesi. Uns passos em diante transponho o Arco. Fervilha deste lado saúde e mercantilismo. Todavia, nesse dia estaquei. Nesse dia, combinei almoçar com o meu pai. O meu pai trabalhava na Biblioteca Municipal num gabinete para ele. Após décadas nos pavilhões de marcenaria, foi convidado para servir no Arquivo Distrital. Trabalhou no Arquivo uma década. O seu trabalho consistia em averiguar o estado material da casa e seu Aprovisionamento. Simplesmente deixou de praticar Marcenaria propriamente dita nos pavilhões em Gualtar. Lembro-me perfeitamente dos pavilhões aquando da infância. Bem, acordou para ingressar do Largo do Paço. Para mim, era algo pouco promissor. Eu adorava os pavilhões. Fora lá que eu pintei a minha pasteleira cor de laranja... ou como eu, no mesmo ano em que ingressei em Aveiro, desci a lameira ali próximo na bicicleta cheio de uma grande alegria. No entanto, estava perto de casa, no Centro Histórico de Braga. Parece que estou em casa enfastiado, sem ânimo para ir ao Largo do Paço: «Merda!» Além disso, o meu pai estava numa fase muito contraditória. Sentia-se frustrado. Estava assim a modos que autoritário. Saí, portanto, e «...Fervilha deste lado saúde e mercantilismo. Todavia, nesse dia estaquei». No vidro de uma montra, vi o meu próprio reflexo. Era doentio, anti-natural. Eu estava enfezado, como que moribundo. Sei que voltei para casa. Não fui como combinado.

Putin vai afiar o dente

O senhor Valenciano avançou dez passos à sua frente. O senhor Ortigão, os mesmos dez passos. Ao virar com a pistola em riste, o senhor Valenciano disparou uma vez e Ortigão caiu por terra. Ainda ouviu a bala do senhor Ortigão passar de relâmpago junto ao ouvido. O senhor Valenciano virou as costas e, com isto, abalou entre as veredas vicinais onde o duelo teve evento. 

O senhor Valenciano achava-se à mesa da saudosa Brasileira em Braga quando munido de uma certa magnanimidade, aproximou-se de um senhor na mesa em frente. Acontece que este senhor possuía junto de si o matutino. Ao ver o senhor Valenciano aproximar-se, sorriu.
- O senhor por ventura permite que eu veja a página dos defuntos? - disse com alguma mesura o senhor Valenciano. 
- O Putin até vai afiar o dente... 
O senhor Valenciano parou os olhos nos olhos daquele senhor.
- Desculpe - procurou perceber o senhor Valenciano.
- O Putin até vai afiar o dente...- e com isto o homem dava saltos na cadeira sacudido pelo riso. 
Ao sair d'A Brasileira, o senhor Valenciano olhou para trás. Ao olhar naquele sentido, onde vislumbrou o homem acometido de riso, Valenciano bateu com a cabeça num sinal de trânsito junto ao passeio. 
No outro dia, com a cabeça ligada, Valenciano procurou o homem dos seus pesadelos. Ali estava o homem no mesmo lugar da sala, dando largas a um contentamento junto de conhecidos do senhor Valenciano. No vão da porta, Valenciano estacou. O homem olhou no seu sentido. O seu rosto aberto, contemplou-o. «O Putin até vai afiar o dente» - disse roufenho sem se conter naquele mesmo instante. 
- Você - disse Valenciano -, seu traste. Temos assuntos sérios para ajustar. Vocês: ouviram o que eu disse. Este senhor e eu temos contas para ajustar. Apadrinham o nosso duelo? 
- Com certeza, Valenciano. Mas primeiro tem calma. Vai a minha casa... 

 «Valenciano» - gritaram os homens no mato.
 «O Putin até vai afiar o dente» - despontou o vento entre as ramagens da floresta. 
- É melhor voltar. Arrefeceu...

O Perú de Mefistófeles

O senhor Mação vinha pela vereda vicinal sob a sombra frugal dos plátanos quando viu a octagenária Libânia estugando muito o passo. Trazia um grande saco de juta pela mão. Apesar da desenvoltura da octagenária Libánia, o senhor Mação não pôde deixar de intervir: «Libânia - exclamou ao longe -, estás mais apressada que um carapau de corrida. Pareces uma bailarina a executar um entrechat. «É verdade, estou com pressa - respondeu. - Tenho um assunto a tratar com o merceeiro. «Qual assunto? «Este assunto - asseverou a velha indicando o saco pesado. Algo saracoteava no saco de juta da octagenária Libânia. «É um peru - atirou a velha -; um peru de mefistófeles! «Que se passa com o animal? «Sabes o quão adoro gatos, não sabes? Pois bem, o bicho atira-se à gataria de tal forma que o próprio andor cai de queixo; é um autêntico demónio. «Não tens onde prender o bicho? «Sim, é claro que tenho onde prender o bicho. A minha armação é toda executada em madeira boa; mas acontece que o peru repenica os arames cheio de uma raiva irreprimível; assim: «Shuck! Shuck! Shuck! «Puxa, ele consegue escapar? - pergunta um senhor Mação deslumbrado. «É como eu te digo: ele é o peru do mefistófeles. Depois amola os gatos. Lá em casa é uma gritaria. Olha! - espantou-se muito a velha octagenária neste somenos - Conseguiu fugir pelo saco!»

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Coitado

"Coitado é coito dado. É por isso que sois todos uns coitadinhos"

O Cúmulo da felicidade

O senhor Mocho vinha pela alameda num anoitecer. A alameda, bem frequentada, em que perfilados se destacavam os edifícios novecentistas, estava tomada por um caudal de sons e atmosfera prazerosa e familiar. Tratava-se de um desse ricos bairros onde a noite está a braços com o humano prazer. O senhor Mocho distinguiu pelas janelas as famílias em solenes reuniões, ora uns cabelos alvos de uma rapariga assomar na noite alva - um mundo inebriante e prazeroso que apenas é possível vislumbrar nesta zona da cidade. Subiu ao seu edifício sem compreender o silêncio rutilante. Quando subiu pelas escadas, um pouco absorto neste silêncio, ficou diante de um homem de meia idade que compunha a fralda da camisa e sorria malévolo, como que levado pelo entusiasmo. Lá em cima o senhor Mocho ouviu o som indistinto a folia. Descobriu não sem um fragor da voz que as portas do seu apartamento estavam abertas de par em par, assomando dali uma luz intensa e obcecante. O senhor Mocho viu um eterno e dilacerante festim de carne. Se fosse possível descrever o imenso aparato e os corpos sôfregos, entre os quais o da sua mulher... O senhor Mocho desceu as escadas abalado. Precipitou-se escadas abaixo como que levado por um turbilhão. Que seria dele? Alvo do mais abjecto opróbrio? Seria trucidado. Correu ao rio... Quis deitar-se ao rio. Mas esperem... Que espécie de pensamento ao cúmulo da felicidade parece antever o senhor Mocho? Preocupar-se? Porquê? Não, iria jurar que ele estava consumido pela ideia ridícula de se expor depois dessa nova circunstância. Não, ele foi tomado de felicidade.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A Dicotomia

Que filme é esse para esquecer

Ontem à noite saí para beber uma imperial - eu estava literalmente crispado, atolado de frustrações; estava desejoso de emborcar uns copos para atear um fósforo à minha ansiedade. Saí pois por volta das onze da noite e entrei numa garagem onde pulula a raia serôdia e os salafrários mais ébrios, gente sem o mínimo de civilidade a correr nas veias - mas nem por isso deixei de entrar e pedir o meu copo. Nisto, vem na minha direcção um rapaz novo acompanhado por uma senhora de idade de braços descarnados, por certo a mãe retrógrada e pega, cujo filho prematuro ainda não aprendeu - senão pelas pancadas sucessivas na cabeça - os revezes subliminares e tortuosos... Havia entre eles uma franca antipatia, e no meio disto tudo uma dicotomia perversa entre duas gerações. Lembrei-me da minha mãe, que eu amo. Pelos vistos entraram num automóvel; o rapaz fez tenção de ligar o auto-rádio e aquilo estalou à nossa volta numa torrente de ruído e percussões de música tecno. Nesse mesmo instante a mãe retrógrada e pega assumiu um ar desgovernado, numa reprimenda sem precedente. A música cessou no mesmo instante. Eu sei, rapaz, desejarias uma liberdade mais consentânea; mas porque não protestas, homem? Por que és um bicho-de-contas com dois dedos de testa e só guardas para ti o que conviria mutuamente. Tens medo da tua mãe? Tens medo de abordar assuntos que ela não compreenderia sem o teu enérgico assentimento? Entrei na garagem. «Imperialzinha, não? - anuiu o empregado do balcão.

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Judas


Epá, não é Judas de Iscariotes, é Judas Tadeu, primo de Cristo


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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Maradona

Maradona pregou no acelerador um pouco mais para aproveitar a recta numa estrada do interior. Que deleite; a brisa tépida após um dia de sol abrasador... O Mercedes último modelo sulcava a estrada num ronronar apaziguador. Ao redor, um silêncio entre um pinhal denso. No porta-luvas, encontrou um disco para orientar o seu pensamento disperso: «Já cá faltava Some Surprises». Maradona estarreceu aos primeiros acordes que se repercutiram no interior do Mercedes como dois olhos palpitantes. Até ousou executar num esgar aquele drone da guitarra em determinado momento da faixa, acrescentado: «Foda-se! Brilhante! É isso mesmo - acomodando-se ao volante - quando, de forma completamente imprevista, vislumbrou um indivíduo com o polegar em riste. «Quer boleia, meu amigo? «Não, estava na esperança que o meu amigo me acompanhasse para uma noite de excessos. «Foda-se, por quem me toma?»
- Estás a ouvir Some Suprises? É calminho...
- Não estou a gostar da tua conversa.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Sweet Jane

Das tempestades e outras incursões.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Trauma

Sonhei que as pessoas entravam subitamente em pânico; que os automóveis chocavam entre si no trânsito após tomar vida. Sonhei que o pânico geral se deveu à descoberta de uma máquina do tempo. Quis experimentar, e aterrei em casa do Bruno dos Santos em Setembro de 2002. Era uma sucessão inverosímil de eventos, em que todos se perpetuavam ao evitar a morte. Quando fiquei diante do Bruno, este interpelou-me sem grande entusiasmo, como se já adivinhasse a minha real pretensão. Estava esquelético ao abarcá-lo nos braços. «Pareces Cristo, homem» Estava ele em casa da minha tia Arlete, e parecia conviver com a minha família, conquanto a magreza. O seu aposento era no quarto do meu primo Fernando. Ao deparar-me com ele, interpelou «Hei» pouco conciliador. Parecia dizer que perdi a esperança... e a vergonha na cara. 
Estava aos saltos em cima da cadeira. 
 - Eu acho que não é assim, Bruno.

 

Tycho Brahe

Tycho Brahe foi convidado para um jantar entre amigos. Entre eles, mulheres elegantes e voluptuosas de rosto nacarado e seios protuberantes; homens garbosos de uma magistral voz e eloquência; cientistas, poetas e outras eminências. Enfim, a nata da sociedade dinamarquesa. Tycho Brahe tratou de preparar a sua melhor toilette. Colocou o nariz com toda a delicadeza possível - pois iria certamente causar algum espanto pelo facto de ser oiro de verdade, e não apenas qualquer metal revestido que daria essa percepção -, e apesar de tímido como um caracol, foi anunciado. Pelos vistos, houve uma leve crispação nervosa para rir a bandeiras despregadas, mas em tudo se abateu um silêncio. Tycho Brahe sentiu apenas um leve aperto no âmago, tal a sua timidez diante dos comensais. Após a refeição, os mordomos serviram a sobremesa. Tycho Brahe estava já um pouco empanturrado devido a uma marinada à base de cabrito e cebolinho, quando alguém o interpelou. «Senhor Tycho Brahe - assim lhe dirigiu um senhor com um colete preto resplandecente e negro de azeviche contrapondo com o laço branco: - É capaz de nos explicar em que consiste a sua teoria da gravitação dos astros?»
- Quer me parecer - disse Tycho Brahe um pouco atordoado - que os planetas giram em volta do sol...
Nada mais acrescentou. A sua alma estava partida em dois. Desde logo aqueles olhares cravados nele; os sorrisos imperfeitos das senhoras de rosto nacarado.
- Certo. Disse que os planetas giram em volta do sol e disse muito bem. Mas, não há algo mais sobre a sua teoria que nos queira enunciar?
- Pois bem, meu amigo. O sol gira em torno da terra - e antes que Tycho Brahe fosse mais longe, ouviu-se no mesmo instante uma enorme gargalhada. Tycho Brahe, ofegante, sentiu como que o espírito entorpecido.
- Você sente-se bem? - exclamou alguém.
- Passa-se algo no reino da Dinamarca.
Neste somenos, o seu nariz cedeu. Sentiu que algo ou alguma coisa havia cedido para o desfalecido Tycho Brahe se agarrar ao nariz. As gargalhadas sucediam. E para surpresa de todos, que riram ao ponto de espirrar e soltar uma tosse descabelada, o nariz caiu. E tendo caído por cima da vieneta, mais os homens e mulheres se não continham.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Jason





Starblood

Hoje os pardais discutiam entre si assuntos sobre a vida doméstica. Sorri; que assunto impreterível seria esse para se debaterem tão desenfreadamente? No calor da discussão sobrou um par de namorados que ainda se reprimia. Depois o meu pensamento voltou ao passado, àquela noite reverberativa de verão, quando assistimos ao fenómeno de um meteoro atravessando o céu. Estávamos nos degraus de uma escadaria diante do pórtico lateral no Rossio da Sé. Conversávamos alegremente. «Sabes - dizia eu simpaticamente - pelos vistos Alicante, aquando da chuva, é uma genuína cidade-fantasma «Onde é Alicante? «A 200 quilómetros a sul de Valência - respondi - quando, neste somenos, reparo que a atenção nos olhos do meu amigo se prendem subitamente com algo directamente atrás de mim. «O que é aquilo? - perguntou. Virei-me exactamente para onde os seus olhos se crispavam de espanto, e num receio brando de verão, vi diante dos meus olhos, percorrendo vagarosamente a esfera celeste, um astro enorme e lindo. Foram escassos segundos apenas, o suficiente para nos arrebatar de quimera. Lá em baixo, junto ao bar, um pequeno círculo de amigos olhava insolitamente o céu. O astro desaparecia caprichoso por detrás das torres sineiras da Catedral. No outro dia, um directo para a televisão; e o exclusivo da imagem gravada em vídeo. Chamei-lhe Starblood.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Love



Esquisito

 Sou esquisito.



Candy

 



Sweet Jane

 


A Escrivaninha

O gajo já me vinha achincalhando pelo facto de twittar na web. Ainda assim eu amparei a minha escrivaninha, tentando desapegar-me da ideia que tinha do corrécio. É que eu levo a minha escrivaninha para todo o lado à falta de um dispositivo móvel. É uma escrivaninha que o meu avó, homem especializado na venda de mobiliário inteligente, me ofereceu por altura do meu 10.º aniversário. Também a escrivaninha tem umas pernas que me acompanham para todo o lado; ambos procuramos dirigir a nossa atenção para uma poça que nos atravessa no caminho. Mesmo para entrar num snack-bar ou restaurante, a minha escrivaninha tem um carácter sucinto quando me solicita que transponha o limiar da porta. Somos unha e carne, eu e a minha escrivaninha. Às tantas ela abre uma pequena gaveta lateral onde eu deposito poemas e escritos raros, bastando para isso que eu accione com uma pancadinha num ponto estratégico. Foi sobre esta lúdica escrivaninha que a minha mãe escreveu os seus recatados poemas. «Filho, fazes o favor de transcrever estes escritos para o meu blogue do Windows Live Spaces?»
- Claro - e sem mais delongas, apetrechava-me de asas.
O seu blogue do Windows Live Spaces poria qualquer blogger digno desse nome a chorar esmolas. Não faltava o mosaico com vídeos incorporados de cantatas e óperas com uma coreografia fulgurante; as peripécias da vida dela enquanto jovem na casa do campo, etc. A escrivaninha assistia-me em todo o processo. De quando em vez, estirava uma pequena língua por meio de um mecanismo de pequenas roldanas com uma palavra ecuménica.
Eu adoro aquela escrivaninha.
A minha escrivaninha já me tem alertado para o facto de não haver passadeiras naquele local estratégico da avenida; que, na opinião dela, a ponte pedonal é um monstro de inutilidade pública e que portanto seria muito mais asséptico resolver colocar uma passadeira para os peões; como é incómodo de mais para ela levantar a saia rodada, através do intenso tráfico das horas vespertinas, em grandes passadas para alcançar o outro lado do passeio. «Eu rio do gajo que há prometido em eleições autárquicas elevadores para a ponte pedonal - diz.
- Não digas mais nada. Eu já dei uma pancadinha nas costas desse homem quando ele aproveitou para fazer campanha para os lados da Arcada. Imagina a minha situação embaraçosa; como seu eu ali fosse apenas um gato pingado e não houvesse margem de manobra para lhe corresponder com um sorriso e a devida pancadinha...
Mas o gajo já me vinha achincalhando o juízo. Era aquela forma ufana e particular de magoar o íntimo: – «Hahaha, um homem que leva uma escrivaninha como quem leva o cão pela trela é a coisa mais hilariante que já vi.
- Pois fique sabendo o senhor que esta escrivaninha recebeu um prémio Nobel.
- Hahaha, não me diga outra! Descobriu a pólvora, foi?
- Não descobriu a pólvora... É capaz de mostrar na ementa, para que vossa senhoria saiba, qual é o prato mais adequado à minha dieta. Aposto que o seu smartphone não tem essa aplicação.
- Não me faça rir! A sua escrivaninha é um poço de virtudes...
- Na verdade, sim. É tão autónoma como seria provavelmente uma bela rapariga de belas tranças de azeviche e olhos pretos como duas azeitonas. Se por descuido calca o pé a uma donzela aquando dos nossos passeio pela alameda a florir, é capaz de se estirar ao de leve em forma de um perdão.
- Hahaha – achincalha o malvado – não há dúvida que é um poço de virtudes. Mas diga-me, ela usa calças?
- Estamos a entrar no domínio do ridículo, meu amigo - e antes que o acossasse a tristonha malvadez, puxei de um cordel exclusivo no centro do qual diz: Provérbio. - Pois bem, «Vá para a pata que o pôs». E saímos, eu e a escrivaninha, como dois peixes na água, dignificados pela novena...

A pedido de várias famílias

Eis um clássico que inspirou a minha juventude. Uma iniciação à vida de melómano, como diria ENO em relação ao primeiro trabalho deles. Lembro-me de ouvir uma versão ao vivo de Sister Ray dos Joy Division e querer este álbum. Cada álbum conta uma história: o alinhamento é sempre muito importante.



Não podia deixar de ser, não é? Sou um chato. Mas sem esta preciosidade, hoje estaria a contar tijolos. Comprei este álbum pouco depois do ingresso em Aveiro. O meu disco mais que dilecto; o Pet Sounds do século XXI. Ele e a sua melódica.



A primeira vez que ouvi estava no intervalo de uma daquelas aulas atípicas antes das férias, com o vai e vem do pessoal pelos corredores. É sempre importante relembrar a primeira referência musical aquando da minha adolescência.




Deixo-vos com esta obra-prima do rock progressivo alemão dos meados de '70. Teria muito para contar; é uma longa história. Lembro-me quando me deparei com este álbum - estávamos em 2001 - estando eu a folhear o P3 -, na primeira grande reedição. Desde então não me separei dele nem dos restantes. Sim, é possível que seja a minha primeira grande influência. Daí, a minha dilecção por tudo o que seja academia alemã.
Sou chatinho, eu sei. Eis o meu grande fascínio depois do seu primeiro grande álbum. Lembro-me que vi um filme bem engraçado do Nanni Moretti com banda sonora de Before and After Science. Porra, eu estava a ouvir Julie With num filme do Nanni Moretti.
 



O meu primeiro álbum dos Joy Division. Teria 19 anos de idade, pouco antes de aceder em Aveiro. Eu e os outros entramos no Bragashopping apenas no intuito de comprar numa dessas lojas poeirentas do segundo piso. Quem conhece o Bragashopping há-de achar piada.



Haveria de ser, né? Que ousadia... Quando jovem, este foi uma surpreendente descoberta. Era qualquer coisa de muito onírico. Também foi aquando do meu ingresso em Design. Foi numa fase muito bonita da minha vida. Imaginem este álbum quando entrou na minha vida. Eu já havia encontrado todos os álbum synth-pop da minha dilecção. Andava eu enamorado com Substance.





Estava eu com a Joana no Porto quando decidimos passar na fnac de Santa Catarina. História curiosa, esta. Estávamos ali a ver todos aqueles artigos preciosos quando me deparei com este álbum na categoria Rock Progressivo. «Joana, empresta-me dinheiro?»
- Por amor de Deus, Freddy - ela sabia que eu estava apenas a impingir dinheiro ao invés de um mero empréstimo. - Eu não sou a tua mãe. Fomos portanto ouvir no auscultador. «Não sei se gosto». 
- Gosto eu. É incrível e o mais arrojado dos três. Emprestas?





Lembram-se de eu ter referido que ouvir um álbum na íntegra é fundamental? Pois bem, nunca tive a oportunidade de comprar este - continua lá no carrinho de compras da CDGo. Sim, nunca o ouvi de uma assentada para muita pena minha - e no entanto, é a minha banda favorita. Sim, nunca o ouvi no claro-escuro da noite. Mas influenciou-me sobremaneira. 21 de Junho está a caminho.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Euromilhões

Lembram-se daquele casal que deu a cara a uma televisão generalista após terem ganho no Euromilhões? A mulher não sabia como conter. O homem, esse, ria entretido estando num lugar refundido, a salvo da câmara. Mas na primeira entrevista, estavam ocultos. Parece o meu pai quando acorreu em pés de lã: «Malta, vamos ter calma. Vamos fazer pouco barulho, mas acho que ganhamos no Totoloto» O que nós rejubilamos. Era apenas o recibo...



ENO



Recreio dos Comuns

Na aldeia de Serralheiros algo fora do habitual aconteceu num sábado bem pela tardinha. Se o vosso narrador pudesse pintar com cores verdadeiras a peripécia invulgar que teve lugar na estrada de posta junto ao principal pelourinho da aldeia, certamente que esta história que vou contar seguidamente vos faria sorrir. Se fosse possível pintar aqueles homens, ora robustos como o saco da farinha, ora os velhos lavradores munidos de cajados, com uma expressão de estático regozijo, mais uma catrefada de caçadores empedernidos com espingardas a tiracolo; o trigo seco e aparentemente sem vida como serapilheira ao largo da estrada, sem faltar um cão de pelo sebento e encrespado que se esfalfa de um lado ao outro nas suas pernas esquivas derredor do Mestre - como dizia, se o vosso narrador tivesse o cinzel próprio para descrever com arte a peripécia que naquele sábado quente teve evento, certamente que a minha arte seria outra. Mas como o vosso narrador não tem o cinzel nem outro instrumento próprio que dignifique o homem que tem pela arte o seu único prazer, direi que este sábado não era um sábado como outro qualquer. Este sábado era dia de caçar gambozinos. O leitor por ventura está à vontade e tem para isso uma vontade quase inexplicável, como que se munido por uma mola invisível, de rir a bandeiras despregadas, mas também o Mestre compreende que esta situação é deveras hilariante, tanto é que vem três metro à frente dos homens da aldeia com um sorriso rasgado nas ventas que explica efectivamente que os gambozinos não existem e que portanto viemos caçá-los porque na realidade não os vamos encontrar. «Sai do caminho, Estrela - disse o Mestre para uma mulher metida nos anos descendo a ladeira com um vagar. - Ainda espantas algum gambozino, mulher!» O senhor Almocreve também está presente e assopra num apito para nomeadamente cativar os gambozinos. Portanto, está em liberdade de apitar como bem entender, porque nunca na sua vida jamais pôde ver ou ouvir um gambozino. «Vocês carroceiros tem muita lábia - diz Estrela - mas ide, ide espantar os gambozinos» «Poupa-me, Estrela.» Alguns homens deixam-se estar postados com um olhar vago na consciência. A conversa ali varia substancialmente de assunto, «Porque de facto não sabemos quem é o pai da criança» e quejando; e o próprio Mestre, de sua mão grande como uma panela bale que se ataviem pois que é bem provável que o gambozino saia entre as ramagens como um lobo com fome. Os homens riem-se e até param para conversar, alguns apenas para descansar os braços na barriga, que serve ao mesmo tempo de depósito e prateleira. Porém, uma névoa abateu-se sobre o acontecimento, mas saber que espécie de névoa é essa, nem o vosso narrador pode dizer. Digamos que o aspecto da brincadeira teve lugar a outro tema diverso. O Mestre, como se coçasse a ilharga e não houvesse parcimónia para brincadeiras sobre a existência de gambozinos, entrou na casa de pasto Casimiro.

Divergências

Não venhas com tesouras, Facebook. Aqui as divergências são comigo.

Deixo-vos com uma passagem do meu diário que consta a uma Segunda-feira do dia 11 de Novembro de 2013: «Hoje a atmosfera de Braga é bastante boa. Havia uma azáfama salutar; e ainda descobri um alfarrabista numa loja nova e bem frequentada na Rua do Janes. Fui à suposta feira do livro do Largo do Paço, mas afinal tratava-se de uma pequena banca junto aos claustros; e como se a porta para a galeria estivesse aberta, aproveitei para tirar um café na máquina de expressos, e constatar que no Salão Nobre estava presente o Samuel Úria a fazer os preparativos para o concerto à noite (ao qual atendi. Parafraseou; o que é sempre bom.) Braga tem uma atmosfera bastante diferente de outras cidades: não tem a luz ampla de Lisboa, ou profusa como no Porto, mas é estival e parece revestida de um incenso ténue a determinada hora vespertina. Gosto.»

Cinema

Parece o meu primo ao volante após vermos uma perseguição no cinema: «O que tens?»
- É assim que eles fazem

Punk Song

João era o meu predilecto. A sua voz cristalina com pronúncia angolana fazia aquecer o coração. Certa vez, ainda no princípio da nossa amizade, João convidou-nos para um serão em sua casa. Que casa asséptica, meu Deus! Ainda por cima uma parafernália de máquinas para todo o género de idealizações musicais. Pôs portanto a agulha sobre um vinil raro dos AC/DC e sorriu: «Estes gajos têm um background punk sublime.» Sim, o som era simples e cru no seu género. Ouvimos aquelas notas puras de sonoridade punk como quem se reclina depois de um lauto jantar. De maneira que o meu favoritismo por João acabou por se intensificar. De tal forma que era ele quem eu procurava para passar o serão a ouvir Rock & Roll. Jamais uma criatura ouvira semelhante sonoridade na sua vida: as melhores melodias, os melhores solos, os drones mais arrojados; o próprio cheiro da capa do vinil. Eu curtia imenso João. Por vezes mantinha com ele longas conversas sobre arte contemporânea. «Sabes, Bas Jan Ader é o meu favorito. O gajo era uma espécie de obcecado.» André sorria, mostrando uma coroa de dentes imaculados. Depois bebericava de uma chávena de café num jeito muito cómico. Certa noite, aquando de uma estadia lá em casa, João deixou o computador ligado para ouvir uns sons plácidos de psicadelismo dos meados da década de 70. Deixei-me deslizar dos lençóis e deparei-me com uma folha do Office aberta: «Hoje é o Dia do Meu Aniversário» Tratava-se de um poema da sua autoria. Um poema deveras encantador. Depois saí sorrateiramente ainda a manhã começava a despontar. A passarada bulia na mesma guerra de sempre. Certamente que João iria ficar um pouco à toa com a minha ausência. Eu simplesmente desejava estar no meu apartamento nas Barrocas. Quando lá cheguei estendi-me sobre o endredon, estava com a alma em cacos. Mais tarde, bebi uma copada de chocolate quente e pus-me a verificar se a mancha na parede se alastrava. Alastrava? Não, era apenas um truque da luz. Tinha a forma de uma gazela dando um pinote em pleno ar; e no entanto, visto de outra perspectiva, parecia um grande felino com uma garra distendida. Estava literalmente a perder o meu tempo precioso. Os meus trabalhos estavam espalhados pelo chão. Nessa noite comprei o bilhete inter-cidades para voltar para casa. Que infortúnio. Às tantas ouço a campainha. Era João e o Bruno com os olhos postos em mim. Entraram porta dentro e refastelaram-se no sofá. Nisto, Bruno, fosse por mera bufonaria, retira da minha bolsa o meu caderno e recita o seguinte com alguma surpresa no semblante:

Quando o canário do professor Emanuel Rath deixou de cantar naquela manhã aprazível eu soube imediatamente que nada auspiciava de bom. Quando ele subiu pela escada em caracol até ao compartimento do Anjo Azul eu soube imediatamente que ele estava perdido de amores por ela. Fiquei sobretudo pesaroso quando o professor Emanuel Rath pediu a mão de Anjo Azul em casamento e ela riu sobremaneira da sua ingenuidade. Levei as mãos ao peito de comoção quando ele voltou para casa e depreendeu, na sua loucura, que o casamento fora uma terrível encenação.

Eles não se podiam conter.
- Onde foste desencantar isto? 
- Ehehe, não importa. Estava certamente a divagar.
Isto passou-se. Já no comboio vi a paisagem suceder. Era deprimente.


Frédérico

Oh Fred. Tu não podias desver o Jota cabecear para o golo gloríola.

Klaus

O homem mais feio do Youtube


Klaus.jpg

Klinkerhoffen

O sol emergia a carruagem com a sua luz hialina e agreste. Por momentos um raio estalou de encontro as vidraças e as cores dos planos exteriores se descobriram de um verde temível. Ia a caminho do Porto. Estava apenas eu, tentando recriar uns desenhos no caderno, e uns passageiros aparentemente distantes e fechados sobre si, ora velhas septuagenárias com a cabeça tombada. A um canto, um tolo - algum velho alcoólico demente - recostava a cabeça junto à janela, e sorria num enleio medonho. Em Nine, constato que uns militares se preparam para tomar a carruagem nos seus modos devassos. Pouca sorte para o tolo, que no entanto mostrava um sorriso benevolente e sádico. «Quem és tu? - bradou avaro um dos compinchas. - És mesmo tolo! Olha faz a continência. «Ele não faz a continência, tem um parafuso a menos.» Entretanto, o mais velho simulou o coito directamente atrás do tolo, e ria provocadoramente para completa pândega dos compinchas. O velho sorria benevolente e desnastrado. «Faz a continência, maluco!» Então o tolo colocou a mão sobre a cabeça numa postura deveras comovente, mostrando um sorriso negro e mudo. «Hahahah! - sorriram os pândegos - És mesmo maluco, não há dúvida.» O mais velho todavia foi mais consentâneo: «Olha faz a continência comigo - fazendo um piparote com a bota. - Hahahah!» Mas o tolo disse qualquer coisa num rastulhar da voz: «Bate-me na cara - mostrando a face da cara onde batia com a palma da mão. - Bate-me na cara.»

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Inércia

Estou a tentar processar o que ocorreu nestas duas últimas semanas. Estou em crer que nada. Têm sido dias de inércia. Tão pouco fui caminhar. No estado desassossegado em que estou, nem sair de casa... Lembro-me que há um mês fui a uma consulta na psicóloga; da viagem aos antípodas que eu fiz - e da sensação algo atribulada que senti depois de semanas imerso: como se a luz da cidade se abrisse em dois. É extraordinário porque o tempo às vezes não é mais estático. Muito singular. Não estou propriamente a divagar, até porque li sobre esse aspecto particular algures. Entretanto, e porque tinha assuntos a tratar, fui no autocarro para o lado mais longe da cidade. Foram provavelmente duas horas de viagem, entre resolver o que havia para resolver, retomar a viagem e voltar para casa. Foi quando me apercebi que estávamos em hora de regressos, mesmo ao final do dia. Eu sentia surpreso o fervilhar da cidade. Sentia, enfim, uma espécie de gozo. Como num carrossel. Cheguei em casa e foi como se tivesse agigantado, tal a benesse das propriedades da luz. Para me afunilar em casa e no escuro. Desde então nada tenho feito. Uma inércia abate-se sobre mim. Em quinze dias encerrado no meu subterrâneo nada de produtivo teve evento.

REDRUM

Hoje vou contar um episódio que sucedeu aquando da minha frequência em Aveiro. É do mais estranho. Um episódio incrivelmente suicida; eu não sei -- funesto. Certa vez eu e um amigo próximo fomos conviver para os lados da Praça do Peixe. Estávamos no saudoso Clandestino; tudo decorria de forma espontânea... Todavia, correu entre nós, propriamente alheios a tudo, um sentimento amoroso de apego. Foi como se se houvesse provocado uma centelha de amor estonteante. Nessa noite senti uma espécie de grande separação, um declive dos sentidos. Nem eu próprio, transcorridos tantos anos, sei explicar. Nunca antes me havia sucedido tal coisa: eu estava no quarto e sentia - por certo, ainda mais transcendente -, medo. A campainha do intercomunicador tocou. Deixei-me estar deitado sob o edredão; eu estava receoso que o meu amigo fosse irromper pela porta. Eu estava assustado, delirante. Que situação inaudita, verdadeiro mistério. Eu transcendia. Mesmo hoje estou incapaz de compreender este episódio funesto. Entretanto, a campainha soava cada vez mais estridente, como dali fosse irromper um punhal de sangue. Tratava-se da minha ex-namorada a tocar à porta. No outro dia relembrei o episódio; parecia impossível. Onde estaria o meu amigo? Agora, bem compenetrado, distante na manhã plácida, eu recordava aquilo não sem um assombro. É caso para dizer: «REDRUM! REDRUM!»

O Incubus

Olá, malta. Lembrei-me da peripécia da minha mãe. Ehehe, a nossa relação é da mais salutar. Perco-me quando começa a desfiar as suas histórias, qual Vovó Viral. Quantas vezes conta a história do incubus. Estou eu na sala a ver um suspense no meu VCR (oh, eu fazia trinta por uma linha com aquele vídeo), quando ouço um brado abafado: «Frederico» Pelos vistos o stand-by da televisão parecia-lhe um olho. No outro dia contou-me sobre o incubus: «No sonho estava à janela a ver o panorama. Neste somenos, deparo-me com um homem munido de guarda-chuva; às tantas, uma multidão de homens munidos de guarda-chuva. O primeiro homem saltou para o corrimão e empurrou-me para cima da cama. Foi então que eu vi o olho da televisão» Estava aterrorizada devido ao stand-by. Eu teria 18 anos de idade; ainda hoje ela conta essa história não sem um medo. A mim, por exemplo, já me sucedeu estar com amigos em tendas, numa floresta para os arrabaldes de Braga, quando a floresta pareceu falar para mim. Que medonho, malta. De horrores. Era com certeza o vento. Mas acontece que estávamos já em vigília. Eu estava diante de uma qualquer sombra, e aquilo afunilou. No outro dia, cismei com os meus amigos que a floresta falou. Lembro-me que o Pedro, um amigo muito amoroso, não coibiu. Muito Blair Witch, não? E vocês? Têm histórias de melindre para contar? Deixem o vosso testemunho.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Alminhas

Há um lugar que eu recordo não sem desassossego. Trata-se de um caminho ao largo do prédio onde vivi. É uma espécie de caminho rumoroso com uma fonte em pedra escavacada no solo. Para chegar lá, era necessário descer umas escadas íngremes através de um muro alto que ladeava aquela parte do bairro. Ali, apenas vegetação desabrida ao longo desta pequena paisagem com a linha férrea em baixo. Na verdade, eu passava ali para ir para a escola. Lugar estranho e algo estúpido. É só. Pior só mesmo as Alminhas. Ali para os lados do Lugar das Alminhas deve ser uma corrente de ar... - eu nem quero imaginar. É um lugar ermo e misterioso onde a raia miúda vai colocar os sírios num nicho. Tudo muito bonito quando uma pessoa passa lá pela hora vespertina, mas à noite não ponho lá os meus pés. É um breu como no alto mar. Sempre pensei que no Lugar das Alminhas está consumido por almas penadas - que aquilo está assombrado. E no entanto é só um caminho empedrado com casas arruinadas à face da estrada. O Lugar das Alminhas, em declive, é uma ampla encruzilhada. É possível ouvir as máquinas na Estação atracar. É claro que isto nada tem de humorístico, mas deixo a minha esperança na senhora das Candeias.

A Prostituta

Os globos de luz dos candeeiros incidiam numa forte impressão muito devido a um aguaceiro inconstante e vento sinuoso. A prostituta mantinha-se junto a um pequeno toldo abrigada do vendaval. Ampla das ancas e corpo desenxabido e trôpego, a criatura lá mantinha a perna grossa e inestética traçada na parede. Neste somenos, surge um homem proeminente e soturno munido de chapéu de chuva. Na realidade, a abordagem parecia ter sido planeada; ao aproximar-se, retirou o chapéu que estirou junto ao peito: «Boa noite.» A prostituta sorriu: «Que deseja, avozinho? Um par de luvas?»
- Podes tratar-me por avozinho, eu não me importo. De todo. Apenas desejaria que me acompanhasses aos meus aposentos.
- Onde são os teus “aposentos” – escarneceu com um esgar expelindo o fumo do cigarro. – E antes de mais quero um sinal, estás a ver? Um adiantamento.
- Aliás, aqui o tens.
O homem proeminente e soturno estirou uma nota de elevado valor que muito surpreendeu a prostituta. O seu corpo enxuto ainda mais perdeu o vigor. -
 Vem comigo, verás que não te arrependerás. 
Nos aposentos do homem proeminente e soturno reinava a mais asséptica arrumação. Tudo estava ampla e tenuemente refundido por uma luz sacramental; e o perfume do incenso tudo doirava em redor.
- Que belos aposentos, avozinho.
- Estes aposentos não são meus: são do meu primo; ele está em viagem pelo leste da Europa: deixou esta casa a minha responsabilidade. 
- É este senhor? – indicou a prostituta um enorme retrato. Tratava-se de um senhor em tudo semelhante ao homem proeminente e soturno.
- Anda, p*ta – ameaçou o homem proeminente e soturno abruptamente -, mostra as tuas entranhas; quero ver as tuas entranhas!
E de tanto esgaravatar, a carne da prostituta principiou a romper em sangue. O acto fora tão abundante e violento, tão desconcertante, que a carne saltou da entranha e da gordura que gotejava nas suas mãos fervilhantes. Um sangue espesso jorrou em catadupa contra o retrato. Enterrou o focinho na víscera; uivou em ufania escarlate. Sim, ele riu; e quando riu, sentiu que o coração da vítima pulsava; e quando sentiu que o coração da vítima pulsava, o homem proeminente e soturno saltou de alegria (...)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Torpor

Momentos há que sinto o Torpor 
Na imensidão da noite que me estiola:
Onde só atriste os acordes da viola -
Noites que me deixam sem dispor.

Só fumar prejudica-me a lucidez...
É uma constante que me deixa absorto,
Débil e desterrado como um morto
Em noites alumiadas e sem tez.

Logo me deito com o descorforto da alma,
Mal me contendo da sensação malsã.
Todo eu me surto quedo e sem amanhã
Que este poema que escrevo acalma.


Sehnsucht




Lou Reed

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Anxo da Morte

Desde o início que o homenzinho tisnado e severo me provocou enjoo. Era uma espécie de príncipe adornado e mesquinho a quem todos chamam a sua macaquinha. Todavia, tornara-se perverso e frívolo como uma mulher frágil. Era sobretudo aquela obscenidade latente nos olhos endurecidos, na porca luxúria de ensejos abaulados por tudo o que respirasse sensualidade. A minha infância decorreu sem quaisquer privações, muito burguesmente instalado na casa da minha infância. A adolescência veio com o seu estribilho inconsequente para agarrar as saias com bolinhas amarelas das putéfias de olhos tigrados. Entretanto eu consolidei a minha amizade com o homenzinho tisnado e severo; mas sentia um dó crescendo quando este arreganhava os dentes pornográficos. Sentia um dó lastimável e nauseante da sua vilania, daquela vilania que alberga na sua boca preta. O dedo hirto. Depois veio a censura. Tornara-se acérrimo delactor da minha pessoa. Era vê-lo arreganhar os dentes para passar um pente fino pelo meu carácter.

António Pedro

Uma altura o professor pediu para trazer um óleo em tela. Acontece porém que o António Pedro trouxe uma tela muito frugal. Parece que o pai dele era pintor amador, proprietário de uma loja no La Fayette. «Oh António Pedro, vai para o caralho - gritaram em uníssono.

Northern Soul

 Se precisarem de uma mão, estarei aqui.



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Menino

José estugou diante de Maria. Uma ansiedade estonteante compelia-o a encontrar abrigo. Por instantes, vislumbrou um caminho desbravado além de uma moita, que metia para uma espécie de nicho. José atirou para ali desabrido. «Vem, Maria...» Disse ele debaixo do céu cristalino.
- E como achas que posso? - disse Maria. - Estás acometido.
O homem lá malhou entre a vegetação, vingando as ervas. «Desculpa - murmurou entre os dentes feéricos - eu ajudo.» Todavia, parecia-lhe impossível transpôr o baldio com a mulher de alçada, ali respigados. «Ajuda-me, Zeca! - disse Maria desesperançada.
- Ó meus filhos - disse uma voz à boca do nicho com uma tocha em riste. - Que é de vós?
Surgiu um segundo indivíduo de mãos na anca. 
Neste somenos, um outro par de olhos pela luz do archote. Tratava-se de um negro vindo das profundezas. Nada mais - conquanto o sorriso encantador e fogoso. Os três homem trouxeram portanto os dois jovens para o nicho. Maria estava endemoninhada, e sentiu dentro de si um acometimento. «José, está na hora! Está na hora!»
- Forca, menina - desatou Belchior diante do suplício. - Força!
José estava entregue aos bichos. Como se não bastasse, a luz do archote impregnava seu rosto aquilino de uma fealdade expressionista. Estava ali, assomava-lhe a víscera por estranhos e misteriosos meios «Jorre para aquele lado, menino» - disse Belchior.
- Força! Força!
Maria era tomada pela dor aterrorizante entre cada fôlego. 
- Menina, sem demoras. Força - disse Belchior fazendo uma cara rigorosamente feia em todo e qualquer retrato, todo ele verde para qualquer devaneio pictórico. Força! 
A dor assomava exponencial para Maria.
- Olha a cabeça do bebê - disse Belchior com um sorriso cândido nos olhos. Os outros dois, ocupados na faxina da água e do ministério da limpeza, sorriram. Belchior recebeu Jesus nos braços, pendurou o mancebo pelas pernas não fosse um gesto providencial e enrolou-o numa toalha cuidadosamente preparada pelos dois amigos. 
O pranto deu lugar ao sorriso beatifico de Maria. «O meu filho. Filho de Deus»
- Eu também - disse Belchior.

Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Pare...