Quem atravessa a Rua Cruz de Pedra, lá é tudo feio: automóveis atravancados como metal pedregoso ao sol; casas de um raquitismo desmaiado, outras reformuladas sem generosidade. Mas quem desemboca no Campo das Hortas, onde encima a Sé, o Sol abre para um jardim parcamente florido, e a atmosfera, então saturada de construções arruinadas, dá para a uma catarse de ar fresco, onde não muito longe eu vislumbro o Arco da Porta Nova. Restaurantes pululam ali como nunca antes; nota-se o aroma das refeições vespertinas entre fogalhas e frenesi. Uns passos em diante transponho o Arco. Fervilha deste lado saúde e mercantilismo. Todavia, nesse dia estaquei. Nesse dia, combinei almoçar com o meu pai. O meu pai trabalhava na Biblioteca Municipal num gabinete para ele. Após décadas nos pavilhões de marcenaria, foi convidado para servir no Arquivo Distrital. Trabalhou no Arquivo uma década. O seu trabalho consistia em averiguar o estado material da casa e seu Aprovisionamento. Simplesmente deixou de praticar Marcenaria propriamente dita nos pavilhões em Gualtar. Lembro-me perfeitamente dos pavilhões aquando da infância. Bem, acordou para ingressar do Largo do Paço. Para mim, era algo pouco promissor. Eu adorava os pavilhões. Fora lá que eu pintei a minha pasteleira cor de laranja... ou como eu, no mesmo ano em que ingressei em Aveiro, desci a lameira ali próximo na bicicleta cheio de uma grande alegria. No entanto, estava perto de casa, no Centro Histórico de Braga. Parece que estou em casa enfastiado, sem ânimo para ir ao Largo do Paço: «Merda!» Além disso, o meu pai estava numa fase muito contraditória. Sentia-se frustrado. Estava assim a modos que autoritário. Saí, portanto, e «...Fervilha deste lado saúde e mercantilismo. Todavia, nesse dia estaquei». No vidro de uma montra, vi o meu próprio reflexo. Era doentio, anti-natural. Eu estava enfezado, como que moribundo. Sei que voltei para casa. Não fui como combinado.
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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