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Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2026

Happy

 

A Polícia

Em casa do senhor Rubistein fora preparada uma festa para as crianças. No pequeno jardim interior bramia a placidez do sol. A mesa com o tema; a vitualha própria para os diabretes; e, sob a forma de um anho, que estendia a sombra sobre todas as cabeças de pequenos cristos, uma pinhata. «Meninos - principiou a senhora Rubistein numa voz melíflua -, agora vamos tentar quebrar a pinhata. A população de meninos urrou, mas havia quem se deslumbrasse sob aquele sol hialino. O senhor Rubistein sorriu. Neste somenos a porta de entrada é sacudida de forma evasiva. O senhor Rubistein acorreu imediatamente, deparando-se com dois oficiais. «Que significa isto? - perguntou o mais alto ao deparar-se com a situação. «Bem - respondeu o senhor Rubistein sem se perturbar -, eu convidei todos os meninos do bairro para uma festa. «Que espécie de festa - retorquiu o outro oficial. «Nada de especial, apenas uma festa para entreter os mais novos. Os oficiais irromperam pelo jardim; parecia que uma sombra hav...

A Ceia

Estávamos na cozinha sombria e pejada de penumbra de uma casa térrea. Dois amigos ceavam à luz de uma vela que sobrepujava as paredes com sombras alongadas. Tratava-se de uma casa bem junto ao solo, em que se destaca uma janela chanfrada na fachada, na rua Cruz de Pedra, onde os automóveis se sobrepõe, atravancados, como esteiras de metal pedregoso. Uma casa deveras peculiar, recamada de cal, que ainda hoje provoca no vosso narrador uma espécie de náusea. A rua, toda ela, é um conjunto feio de construções velhas e raquíticas, ruínas e prédios avulsos de dois e três andares remodelados. Quem passa por esta rua, há-de vislumbrar a dita casa a um primeiro alcance, pois que se situa entre as suas vizinhas mais altas como uma pequena anã.  Os dois amigos ceavam.  Conhecia-os de deambular para aquelas bandas, em modo andrajoso, pálidos de doenças venéreas, com cabelo sujo e eriçado. Às tantas, o mais velho estirou a mão ao meu pai quando passávamos em revista os jornais na vitrina s...

O Cúmulo da felicidade

O senhor Mocho vinha pela alameda num anoitecer. A alameda, bem frequentada, em que perfilados se destacavam os edifícios novecentistas, estava tomada por um caudal de sons e atmosfera prazerosa e familiar. Tratava-se de um desse ricos bairros onde a noite está a braços com o humano prazer. O senhor Mocho distinguiu pelas janelas as famílias em solenes reuniões, ora uns cabelos alvos de uma rapariga assomar na noite alva - um mundo inebriante e prazeroso que apenas é possível vislumbrar nesta zona da cidade.  Subiu ao seu edifício sem compreender o silêncio rutilante. Quando subiu pelas escadas, um pouco absorto neste silêncio, ficou diante de um homem de meia idade que compunha a fralda da camisa e sorria malévolo, como que levado pelo entusiasmo. Lá em cima o senhor Mocho ouviu o som indistinto a folia. Descobriu não sem um fragor da voz que as portas do seu apartamento estavam abertas de par em par, assomando dali uma luz intensa e obcecante. O senhor Mocho viu um eterno e dilaceran...

A Dicotomia

Que filme é esse para esquecer Ontem à noite saí para beber uma imperial - eu estava literalmente crispado, atolado de frustrações; estava desejoso de emborcar uns copos para atear um fósforo à minha ansiedade. Saí pois por volta das onze da noite e entrei numa garagem onde pulula a raia serôdia e os salafrários mais ébrios, gente sem o mínimo de civilidade a correr nas veias - mas nem por isso deixei de entrar e pedir o meu copo. Nisto, vem na minha direcção um rapaz novo acompanhado por uma senhora de idade de braços descarnados, por certo a mãe retrógrada e pega, cujo filho prematuro ainda não aprendeu - senão pelas pancadas sucessivas na cabeça - os revezes subliminares e tortuosos... Havia entre eles uma franca antipatia, e no meio disto tudo uma dicotomia perversa entre duas gerações. Lembrei-me da minha mãe, que eu amo. Pelos vistos entraram num automóvel; o rapaz fez tenção de ligar o auto-rádio e aquilo estalou à nossa volta numa torrente de ruído e percussões de música tecno....

Starblood

Hoje os pardais discutiam entre si assuntos sobre a vida doméstica. Sorri; que assunto impreterível seria esse para se debaterem tão desenfreadamente? No calor da discussão sobrou um par de namorados que ainda se reprimia. Depois o meu pensamento voltou ao passado, àquela noite reverberativa de verão, quando assistimos ao fenómeno de um meteoro atravessando o céu. Estávamos nos degraus de uma escadaria diante do pórtico lateral no Rossio da Sé. Conversávamos alegremente. «Sabes - dizia eu simpaticamente - pelos vistos Alicante, aquando da chuva, é uma genuína cidade-fantasma «Onde é Alicante? «A 200 quilómetros a sul de Valência - respondi - quando, neste somenos, reparo que a atenção nos olhos do meu amigo se prendem subitamente com algo directamente atrás de mim. «O que é aquilo? - perguntou. Virei-me exactamente para onde os seus olhos se crispavam de espanto, e num receio brando de verão, vi diante dos meus olhos, percorrendo vagarosamente a esfera celeste, um astro enorme e lindo....

Candy

 

A Escrivaninha

O gajo já me vinha achincalhando pelo facto de twittar na web. Ainda assim eu amparei a minha escrivaninha, tentando desapegar-me da ideia que tinha do corrécio. É que eu levo a minha escrivaninha para todo o lado à falta de um dispositivo móvel. É uma escrivaninha que o meu avó, homem especializado na venda de mobiliário inteligente, me ofereceu por altura do meu 10.º aniversário. Também a escrivaninha tem umas pernas que me acompanham para todo o lado; ambos procuramos dirigir a nossa atenção para uma poça que nos atravessa no caminho. Mesmo para entrar num snack-bar ou restaurante, a minha escrivaninha tem um carácter sucinto quando me solicita que transponha o limiar da porta. Somos unha e carne, eu e a minha escrivaninha. Às tantas ela abre uma pequena gaveta lateral onde eu deposito poemas e escritos raros, bastando para isso que eu accione com uma pancadinha num ponto estratégico. Foi sobre esta lúdica escrivaninha que a minha mãe escreveu os seus recatados poemas. «Filho, f...

Recreio dos Comuns

Na aldeia de Serralheiros algo fora do habitual aconteceu num sábado bem pela tardinha. Se o vosso narrador pudesse pintar com cores verdadeiras a peripécia invulgar que teve lugar na estrada de posta junto ao principal pelourinho da aldeia, certamente que esta história que vou contar seguidamente vos faria sorrir. Se fosse possível pintar aqueles homens, ora robustos como o saco da farinha, ora os velhos lavradores munidos de cajados, com uma expressão de estático regozijo, mais uma catrefada de caçadores empedernidos com espingardas a tiracolo; o trigo seco e aparentemente sem vida como serapilheira ao largo da estrada, sem faltar um cão de pelo sebento e encrespado que se esfalfa de um lado ao outro nas suas pernas esquivas derredor do Mestre - como dizia, se o vosso narrador tivesse o cinzel próprio para descrever com arte a peripécia que naquele sábado quente teve evento, certamente que a minha arte seria outra. Mas como o vosso narrador não tem o cinzel nem outro instrumento próp...

Punk Song

João era o meu predilecto. A sua voz cristalina com pronúncia angolana fazia aquecer o coração. Certa vez, ainda no princípio da nossa amizade, João convidou-nos para um serão em sua casa. Que casa asséptica, meu Deus! Ainda por cima uma parafernália de máquinas para todo o género de idealizações musicais. Pôs portanto a agulha sobre um vinil raro dos AC/DC e sorriu: « Estes gajos têm um background punk sublime. » Sim, o som era simples e cru no seu género. Ouvimos aquelas notas puras de sonoridade punk como quem se reclina depois de um lauto jantar. De maneira que o meu favoritismo por João acabou por se intensificar. De tal forma que era ele quem eu procurava para passar o serão a ouvir Rock & Roll. Jamais uma criatura ouvira semelhante sonoridade na sua vida: as melhores melodias, os melhores solos, os drones mais arrojados; o próprio cheiro da capa do vinil. Eu curtia imenso João. Por vezes mantinha com ele longas conversas sobre arte contemporânea. « Sabes, Bas Jan Ader é o me...

Klaus

O homem mais feio do Youtube

Klinkerhoffen

O sol emergia a carruagem com a sua luz hialina e agreste. Por momentos um raio estalou de encontro as vidraças e as cores dos planos exteriores se descobriram de um verde temível. Ia a caminho do Porto. Estava apenas eu, tentando recriar uns desenhos no caderno, e uns passageiros aparentemente distantes e fechados sobre si, ora velhas septuagenárias com a cabeça tombada. A um canto, um tolo - algum velho alcoólico demente - recostava a cabeça junto à janela, e sorria num enleio medonho. Em Nine, constato que uns militares se preparam para tomar a carruagem nos seus modos devassos. Pouca sorte para o tolo, que no entanto mostrava um sorriso benevolente e sádico. «Quem és tu? - bradou avaro um dos compinchas. - És mesmo tolo! Olha faz a continência. «Ele não faz a continência, tem um parafuso a menos.» Entretanto, o mais velho simulou o coito directamente atrás do tolo, e ria provocadoramente para completa pândega dos compinchas. O velho sorria benevolente e desnastrado. «Faz a continên...

Alminhas

Há um lugar que eu recordo não sem desassossego. Trata-se de um caminho ao largo do prédio onde vivi. É uma espécie de caminho rumoroso com uma fonte em pedra escavacada no solo. Para chegar lá, era necessário descer umas escadas íngremes através de um muro alto que ladeava aquela parte do bairro. Ali, apenas vegetação desabrida ao longo desta pequena paisagem com a linha férrea em baixo. Na verdade, eu passava ali para ir para a escola. Lugar estranho e algo estúpido. É só. Pior só mesmo as Alminhas. Ali para os lados do Lugar das Alminhas deve ser uma corrente de ar... - eu nem quero imaginar. É um lugar ermo e misterioso onde a raia miúda vai colocar os sírios num nicho. Tudo muito bonito quando uma pessoa passa lá pela hora vespertina, mas à noite não ponho lá os meus pés. É um breu como no alto mar. Sempre pensei que no Lugar das Alminhas está consumido por almas penadas - que aquilo está assombrado. E no entanto é só um caminho empedrado com casas arruinadas à face da estrada. O ...

As Estrategas

Esta é uma história verídica que teve evento no meu antigo apartamento. Nessa fase da minha vida eu andava à procura de vencer uma insónia que me assolou a vida durante praticamente um ano. Digamos que foi numa fase mais difícil. Simplesmente não era capaz de dormir àquela hora precisa da noite. Porque eu gosto de dormir - e quando quero dormir, é impreterível para mim que seja antes da meia-noite. É certo que muitas das vezes só achava cama por volta das 6 horas da manhã. Foi numa dessas noites que decidi fumar um cigarro. Lembro-me que lutava dentro de mim por achar sono. Neste somenos, denoto, não sem uma crispada surpresa, três baratas em amena cavaqueira. Não, não é possível. Ali estavam elas num círculo entre si, numa conversa muito consentânea. Pareciam três estrategas. Às tantas reparei que elas estiravam as pequenas patas numa interjeição. Apenas sei que acabei com aquela assombro com o chinelo, que deitei ao lixo. Sim, sei que parece horroroso e emporcalhado, mas pus um fim à...

Realista

 

Bacon

Dia primaveril. Estávamos em Aveiro; eu e o meu amigo resolvemos passar a tarde ao meu apartamento nas Barrocas. «Bem, espero que a senhoria não faça nenhum reparo.» A senhoria era generosa, pois que, pelo preço da estadia de um quarto, me ofereceu ao cuidado todo o apartamento. Não havia portanto aquele reboliço muito próprio dos estudantes sob o mesmo tecto. No caminho para casa, através da paliçada de uma obra, ficamos diante do cartaz da retrospectiva de Francis Bacon em Serralves. «Um cartaz do Francis Bacon! «Tem cuidado - disse o meu amigo. Fiz os possíveis para não rasgar o papel grosso devido à cola incrustada mas, ao cabo de uma faxina meticulosa, enrolei o cartaz e abalamos. Já em casa, coloquei o cartaz na parede da cozinha bem junto à janela por forma que os transeuntes que passassem em baixo o vislumbrassem. O papel estava ainda um pouco grudado de cola, pelo que aderiu facilmente ao azulejo. «Achas que está bem assim? «Sim; porque não? «Bem, desejaria que os transeuntes ...

Virgulino

O senhor Virgulino estava atravessado no divã. Atirou para o cesto das revistas o suplemento de jornal e pôs-se a contemplar uma caveira na mesa redonda. «Que estranhas criaturas somos quando vistas assim» – pensou. Então, munido de lápis e papel, principiou a esboçar o crânio a partir do modelo diante dele. Subitamente, ficou perplexo – alguma coisa o fez paralisar diante da caveira, pelo que se manteve sério e tomado de uma superstição sem par. «É possível que a caveira se manifeste?» Já se tinham passado largos minutos no fascínio da caveira mas nada de qualquer revelação. Os olhos do senhor Virgulino intumesceram. Do assombroso, tornou-se azul férreo. Dava impressão que o senhor Virgulino estava possuído por um espírito infantil - ainda que salutar -: desejoso de tornar visível a manifestação de um objecto inanimado, como quando, diante da Nossa Senhora do Sameiro, em visitas com a família ao monte da Falperra, assim lhe dirigia: «E tu, Senhora do Sameiro, dar-me-ias a atenção nece...

The Plight

Já vi uma obra do grande Joseph Beuys no Centre Pompidou, The Plight. Foi aquando da exposição La Révolution Surréaliste. Andávamos a peneirar nos corredores, quando nos deparamos com uma porta. «Olha uma porta». Lembro-me das paredes estarem revestidas de feltro e no centro da sala um piano encerado. Eu e o meu amigo estávamos absortos porque deparamo-nos inadvertidamente com aquela sala, através do vão da porta que parecia ter sido ali colocada sem finalidade. Tratamos de tirar algumas fotos através da máquina descartável (sim, estávamos em 2001), mas neste somenos surgiu um contínuo que nos repreendeu. Divertido.

Estou a assim a modos que

Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....