O sol emergia a carruagem com a sua luz hialina e agreste. Por momentos um raio estalou de encontro as vidraças e as cores dos planos exteriores se descobriram de um verde temível. Ia a caminho do Porto. Estava apenas eu, tentando recriar uns desenhos no caderno, e uns passageiros aparentemente distantes e fechados sobre si, ora velhas septuagenárias com a cabeça tombada. A um canto, um tolo - algum velho alcoólico demente - recostava a cabeça junto à janela, e sorria num enleio medonho. Em Nine, constato que uns militares se preparam para tomar a carruagem nos seus modos devassos. Pouca sorte para o tolo, que no entanto mostrava um sorriso benevolente e sádico. «Quem és tu? - bradou avaro um dos compinchas. - És mesmo tolo! Olha faz a continência. «Ele não faz a continência, tem um parafuso a menos.» Entretanto, o mais velho simulou o coito directamente atrás do tolo, e ria provocadoramente para completa pândega dos compinchas. O velho sorria benevolente e desnastrado. «Faz a continência, maluco!» Então o tolo colocou a mão sobre a cabeça numa postura deveras comovente, mostrando um sorriso negro e mudo. «Hahahah! - sorriram os pândegos - És mesmo maluco, não há dúvida.» O mais velho todavia foi mais consentâneo: «Olha faz a continência comigo - fazendo um piparote com a bota. - Hahahah!» Mas o tolo disse qualquer coisa num rastulhar da voz: «Bate-me na cara - mostrando a face da cara onde batia com a palma da mão. - Bate-me na cara.»
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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