Tive um sonho de contornos tenebrosos. Sonhei que o Miguel Arruda estava melindrado devido à publicação de um livro; que inclusive me pediu auxílio com algum fragor. Estava atormentado; tanto que procurou mostrar que ele estava a morrer, para regozijo de uma jovem mulher.
Estávamos portanto à mesa. Um homem à sua frente, de perfil para mim - cabalista, na melhor das hipóteses - disse com temperamento para esquecer a literatura. Enquanto isso eu desviava o olhar à medida que na sua mão aflorava um trecho que me visava, segundo pude compreender. Sobre um transsexual cujo nome, Fredie, me fez tremer. Pensei ser um atendado à minha integridade. Limitei-me portanto ao silêncio, sempre de cara virada para o evitar os seus olhos frívolos.
- Esqueça a literatura - dizia o homem temperamental. - Para ser honesto, o livro é mau. Canhestro. Talvez seja possível evitar a morte do personagem por AVC. Isso implicaria reformular o texto.
Miguel Arruda sorriu de beatitude, um pouco tomado de ternura devido àquele fascínio pelos livros: Talvez se eu reformular de forma ao personagem perder as pernas.
- Estamos conversados.
Ficamos à mesa.
Por fim, Miguel Arruda - já num modo desesperançado - dirigiu-se a mim. Parafraseou de uma forma desconexa. Lamentou e até quis crer que estava a morrer naquele instante. Eu acreditei. De facto, ele estava a morrer. Estava por de mais débil, e até tartamudeou algo que fez a mulher sentada à nossa mesa rir de incredulidade. Os seus amigos, numa mesa mais próxima, abalaram sorrindo, tentanto passar despercebidos após se inteirarem da situação do livro, que leram. Uns figurinos, na melhor das hipóteses. Eu sentia que ele estava a ser perverso apenas. Foi no entanto que ele me mostrou o peito manchado por duas poças de sangue estagnadas e lúgubres, portanto: os seus pulmões. A barriga cheia, numa espécie de bolsa de água, arrepiante em que se descobriam os poros. Tu estás mesmo mal, homem.
- Sim, é verdade. Por isso, me despeço - disse de forma teatral, continuando ainda mais frívolo: Padeço...
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