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Rascunho

A sorte de António e Pedro haveria de mudar. Talvez que eles pudessem pôr cobro a uma vida de obscurantismo, como que entregues a si mesmos, impregnados na vida da lavoura nos arrabaldes deprimidos da cidade onde nenhum homem regrado antes colocara lá os pés. O seu quotidiano a lavrar a terra com charrua, onde o crivo malhava entre os bichos mais improváveis e outros que se desembrulhavam diante dos seus olhos cansados, desde há muito que lhes ocupava o espírito sequioso de uma vida nova. Às tantas açudavam o boi à charrua raquítica pela manhã a eito, com os pés pejados pela maviosa substância da lama soçobrante das poças. Pelo entardecer encharcavam toda a vasta plantação de couve com o jacto misericordioso de água. Às tantas a sua dilecção pelos bólides dava azo para assistir aos grandes e veneráveis campeonatos de Rally. Ali estava um modelo de carroçaria guisando o mato. «Tu bates mal! - gritava António para o condutor na faxina da manobra, lançando-se na emboscada depois do carro derrapar pela brema. - Tu bates mal!...» Certa vez decidiram descer à cidade pela calada. Aproveitaram o convite de uma morena com uns lábios protuberantes e engalfinharam-se através de uma porta para um apartamento onde se brindava copos de vinho capitoso. Tratava-se de uma festa particular. O ruído era intenso. Não faltava uma sala para encetar uma dança. Em geral as pessoas estavam animadas. Agitava-se ali um frenesi de gente nova - estudantes, muito provavelmente, a julgar pela mesura com que olhavam os amigos. Na cozinha pululava a algaraviada e havia quem fosse surripiar cerveja ao frigorífico. António e Pedro procuraram divertir-se; queriam surripiar as garrafas de vinho. Emborcavam o vinho soltando golfadas de riso, ora tomando os restos do vinho na manga emporcalhada da camisa. Às tantas, Pedro largou-se numa flâmula; o deboche: as catraias não tinham onde cair de incredulidade. Porém, algo o acometeu: «Não devia ter-me largado» E assim, deprimido até aos olhos, dirigiu-se ao amigo: «Não devia ter-me largado no meio destas pessoas.» António apoiava o amigo. «Ouve - exclamou -, vamos ao andar de cima. Dizem que ergueram um altar a uma vagina».

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