Na aldeia de Serralheiros algo fora do habitual aconteceu num sábado bem pela tardinha. Se o vosso narrador pudesse pintar com cores verdadeiras a peripécia invulgar que teve lugar na estrada de posta junto ao principal pelourinho da aldeia, certamente que esta história que vou contar seguidamente vos faria sorrir. Se fosse possível pintar aqueles homens, ora robustos como o saco da farinha, ora os velhos lavradores munidos de cajados, com uma expressão de estático regozijo, mais uma catrefada de caçadores empedernidos com espingardas a tiracolo; o trigo seco e aparentemente sem vida como serapilheira ao largo da estrada, sem faltar um cão de pelo sebento e encrespado que se esfalfa de um lado ao outro nas suas pernas esquivas derredor do Mestre - como dizia, se o vosso narrador tivesse o cinzel próprio para descrever com arte a peripécia que naquele sábado quente teve evento, certamente que a minha arte seria outra. Mas como o vosso narrador não tem o cinzel nem outro instrumento próprio que dignifique o homem que tem pela arte o seu único prazer, direi que este sábado não era um sábado como outro qualquer. Este sábado era dia de caçar gambozinos. O leitor por ventura está à vontade e tem para isso uma vontade quase inexplicável, como que se munido por uma mola invisível, de se rir a bandeiras despregadas, mas também o Mestre compreende que esta situação é deveras hilariante, tanto é que vem três metro à frente dos homens da aldeia com um sorriso rasgado nas ventas que explica efectivamente que os gambozinos não existem e que portanto viemos caçá-los porque na realidade não os vamos encontrar. «Sai do caminho, Estrela - disse o Mestre para uma mulher metida nos anos descendo a ladeira com um vagar. - Ainda espantas algum gambozino, mulher!» O senhor Almocreve também está presente e assopra num apito para nomeadamente cativar os gambozinos. Portanto, está em liberdade de apitar como bem entender, porque nunca na sua vida jamais pôde ver ou ouvir um gambozino. «Vocês carroceiros tem muita lábia - diz Estrela - mas ide, ide espantar os gambozinos» «Poupa-me, Estrela.» Alguns homens deixam-se estar postados com um olhar vago na consciência. A conversa ali varia substancialmente de assunto, «Porque de facto não sabemos quem é o pai da criança» e quejando; e o próprio Mestre, de sua mão grande como uma panela bale que se ataviem pois que é bem provável que o gambozino saia entre as ramagens como um lobo com fome. Os homens riem-se e até param para conversar, alguns apenas para descansar os braços na barriga, que serve ao mesmo tempo de depósito e prateleira. Porém, uma névoa abateu-se sobre o acontecimento, mas saber que espécie de névoa é essa, nem o vosso narrador pode dizer. Digamos que o aspecto da brincadeira teve lugar a outro tema diverso. O Mestre, como se coçasse a ilharga e não houvesse parcimónia para brincadeiras sobre a existência de gambozinos, entrou na casa de pasto Casimiro.
Braga, 5 de Maio de 2021 Embora tenha editado o poema, esta é a última edição guardada. Quero estar no meu quarto, (Porque eu adoro o meu quarto) E ter esta percepção genuína: Eu embrenhado na noite... Que trato! Apenas eu e a escuridão No meu quarto de ameias encerrado Sem janela nem modas apetrechado Movendo entre a mansidão. É um consolo que me assiste O estar aqui dentro sem haver lá fora Ser eu próprio, aqui e agora Onde a música religiosa atriste. Prelúdio para uma noite cerrada, Clarinete dentre o quarto hermético E musicalidade ao meu ouvido estético, A nada errante a sons prelada. Que seja esta religiosidade musical, Esta religiosidade latente aos meus ouvidos A primavera atonal dos meus sentidos E nem sempre estes versos avulsos capital. Recordar esta noite que me sustém... Carregada de breu, em tudo abaulada. Fora dos meus nervos, então desarranjada... Aconteceu-me a noite em Belém. E os guizos são outros, revelados. E faz crer que o quarto está a léguas Ainda que alta lassi...
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