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Punk Song

João era o meu predilecto. A sua voz cristalina com pronúncia angolana fazia aquecer o coração. Certa vez, ainda no princípio da nossa amizade, João convidou-nos para um serão em sua casa. Que casa asséptica, meu Deus! Ainda por cima uma parafernália de máquinas para todo o género de idealizações musicais. Pôs portanto a agulha sobre um vinil raro dos AC/DC e sorriu: «Estes gajos têm um background punk sublime.» Sim, o som era simples e cru no seu género. Ouvimos aquelas notas puras de sonoridade punk como quem se reclina depois de um lauto jantar. De maneira que o meu favoritismo por João acabou por se intensificar. De tal forma que era ele quem eu procurava para passar o serão a ouvir Rock & Roll. Jamais uma criatura ouvira semelhante sonoridade na sua vida: as melhores melodias, os melhores solos, os drones mais arrojados; o próprio cheiro da capa do vinil. Eu curtia imenso João. Por vezes mantinha com ele longas conversas sobre arte contemporânea. «Sabes, Bas Jan Ader é o meu favorito. O gajo era uma espécie de obcecado.» André sorria, mostrando uma coroa de dentes imaculados. Depois bebericava de uma chávena de café num jeito muito cómico. Certa noite, aquando de uma estadia lá em casa, João deixou o computador ligado para ouvir uns sons plácidos de psicadelismo dos meados da década de 70. Deixei-me deslizar dos lençóis e deparei-me com uma folha do Office aberta: «Hoje é o Dia do Meu Aniversário» Tratava-se de um poema da sua autoria. Um poema deveras encantador. Depois saí sorrateiramente ainda a manhã começava a despontar. A passarada bulia na mesma guerra de sempre. Certamente que João iria ficar um pouco à toa com a minha ausência. Eu simplesmente desejava estar no meu apartamento nas Barrocas. Quando lá cheguei estendi-me sobre o endredon, estava com a alma em cacos. Mais tarde, bebi uma copada de chocolate quente e pus-me a verificar se a mancha na parede se alastrava. Alastrava? Não, era apenas um truque da luz. Tinha a forma de uma gazela dando um pinote em pleno ar; e no entanto, visto de outra perspectiva, parecia um grande felino com uma garra distendida. Estava literalmente a perder o meu tempo precioso. Os meus trabalhos estavam espalhados pelo chão. Nessa noite comprei o bilhete inter-cidades para voltar para casa. Que infortúnio. Às tantas ouço a campainha. Era João e o Bruno com os olhos postos em mim. Entraram porta dentro e refastelaram-se no sofá. Nisto, Bruno, fosse por mera bufonaria, retira da minha bolsa o meu caderno e recita o seguinte com alguma surpresa no semblante:

Quando o canário do professor Emanuel Rath deixou de cantar naquela manhã aprazível eu soube imediatamente que nada auspiciava de bom. Quando ele subiu pela escada em caracol até ao compartimento do Anjo Azul eu soube imediatamente que ele estava perdido de amores por ela. Fiquei sobretudo pesaroso quando o professor Emanuel Rath pediu a mão de Anjo Azul em casamento e ela riu sobremaneira da sua ingenuidade. Levei as mãos ao peito de comoção quando ele voltou para casa e depreendeu, na sua loucura, que o casamento fora uma terrível encenação.

Eles não se podiam conter.
- Onde foste desencantar isto? 
- Ehehe, não importa. Estava certamente a divagar.
Isto passou-se. Já no comboio vi a paisagem suceder. Era deprimente.


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