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Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2026

Agreste

Se pudesse, neste momento, atirava-me ao abismo. Acordei até bastante embrenhado. Guardei migalhas de pão num guardanapo de papel para dar às rolas. As rolas têm o condão de me divertir. Como sempre, estavam perplexas a olhar-me quem sai de casa. O pescoço esquivo da mais nova deu-me para sorrir. São criaturas sensíveis. Esta manhã estavam a batalhar entre si num telhado e outro, até se aperceberem de mim, rebatendo a voar. Uma delas até se acercou de mim vindo de um quintal próximo. Abalaram assim que puxei por elas. Ainda estive a espalhar migalhas, e elas esquivas a ver tudo. Pensam que é engodo. Estive farto de lhes dizer que estava ali comidinha num montículo. Olham para ali, mas limitam-se a voar do cabo sobre a minha cabeça a trinar. Entretanto, sucedeu-me algo que me deixou soturno. Estive com o senhor José e a esposa e mais parecia uma ave rara entre as aves raras do Canoa. Porque assim e assado. Fiquei a saber que o senhor José está demente. Primeiro acenei - até porque o...

Tota

Vou contar uma história engraçada sobre a Tota, a nossa rola de estimação. Isto decorreu no meu antigo apartamento. Sim, nós de facto possuíamos uma rola num apartamento. Havia a própria gaiola, etc, mas... O que é aquilo que atravessa agora o chão do corredor? Sim, a Tota não voava dentro de casa. Ela queria ser como nós, com as pernas e os pés no chão. Contudo, voava, porque eu, rapazola, dava largas para ela dar um giro na cozinha. Não faltava o serão no ombral do sofá. Ora, muitas vezes eu passava na loja de vídeos para alugar um suspense para mim e os meus pais. Só eu possuía a destreza de os surpreender com as minhas escolhas. Diziam eles, claro. «Vai buscar um daqueles teus dramas» Pelo que a rola passava connosco o serão a ver o bom velho suspense. Às tantas, a Tota já ferrava. Uma certa vez, todavia, a Tota voou janela fora. Ora bolas, que frenesi, o nosso! A Tota! A nossa querida Tota! Pois bem, o meu pai foi bastante afoito, estando ela numa árvore próxima. Fez o assobio pr...

Maradona

Maradona pregou no acelerador um pouco para aproveitar a recta numa estrada do interior. Que deleite; a brisa tépida após um dia de sol abrasador... O Mercedes último modelo sulcava a estrada num ronronar apaziguador; ao redor, um silêncio entre um pinhal denso. No porta-luvas, encontrou um disco: «Já cá faltava Sultan Of Swing». Maradona estarreceu aos primeiros acordes que se repercutiram no interior do Mercedes como dois olhos palpitantes; até ousou executar num esgar aquele drone da guitarra em determinado momento da faixa, acrescentado: «Foda-se! Brilhante! É isso mesmo - acomodando-se ao volante - quando, de forma completamente imprevista, vislumbrou um indivíduo com o polegar em riste. «Quer boleia, meu amigo? «Não, estava na esperança que o meu amigo me acompanhasse para uma noite de excessos»  - Não estou a gostar da tua conversa.

Mansidão

Braga, 5 de Maio de 2021 Embora tenha editado o poema, esta é a última edição guardada. Quero estar no meu quarto, (Porque eu adoro o meu quarto) E ter esta percepção genuína: Eu embrenhado na noite... Que trato! Apenas eu e a escuridão No meu quarto de ameias encerrado Sem janela nem modas apetrechado Movendo entre a mansidão. É um consolo que me assiste O estar aqui dentro sem haver lá fora Ser eu próprio, aqui e agora Onde a música religiosa atriste. Prelúdio para uma noite cerrada, Clarinete dentre o quarto hermético E musicalidade ao meu ouvido estético, A nada errante a sons prelada. Que seja esta religiosidade musical, Esta religiosidade latente aos meus ouvidos A primavera atonal dos meus sentidos E nem sempre estes versos avulsos capital. Recordar esta noite que me sustém... Carregada de breu, em tudo abaulada. Fora dos meus nervos, então desarranjada... Aconteceu-me a noite em Belém. E os guizos são outros, revelados. E faz crer que o quarto está a léguas Ainda que alta lassi...

Cocote

Esta tela tem uma história muito engraçada associada. Acontece que estávamos no Cunha a recriar tempo após o almoço quando a minha mãe fotografou a minha sobrinha. Achei imensa graça, pelo que fiz uma réplica em acrílico. O Cunha, como já devem saber, é uma casa de pasto junto à minha casa quem atravessa a estrada. Até recentemente, eu e os meus pais passávamos lá para emborcar uma refeição campestre. Às tantas, a minha mãe recorda o Hélder Silva no Telejornal, já a sua mão acompanha o olhar: «Está a passar o Hélder»  Estávamos portanto no Cunha a confraternizar.  Pelos vistos pintei o homem a comer sopa directamente atrás da minha sobrinha, estava ele muito embalado a debitar entre os homens à mesa. À medida que o reproduzi em acrílico, o desenho resvalou para algo mais curioso. Tratava-se de um jovem, pelo que recriei outra personagem (à direita), que parece ostentar um pé sobre a mesa. Todavia, a tela está algures escondida na propriedade do meu cunhado, pelo que nunca mais...

Going Out West

"Coitado é coito dado. É por isso que sois todos uns coitadinhos"

Hulk

Há dias entrei numa casa de alcoóis. Só depois é que reparei que ao meu lado direito estava um gajo alto com a beber cálices de bebidas espirituosas. Discorria aluadamente. Estava em amena cavaqueira com o empregado de balcão. «Você sabe porque a namorada do Hulk se divorciou dele? Porque estava com necessidade de um homem mais maduro.» O empregado riu: «Porque era do Sporting? «Exacto - disse ele sem intenções de defraudar o péssimo mau humor do seu interlocutor.

Northern Soul

 Se precisarem de uma mão, estarei aqui.