Vou contar uma história engraçada sobre a Tota, a nossa rola de estimação. Isto decorreu no meu antigo apartamento. Sim, nós de facto possuíamos uma rola num apartamento. Havia a própria gaiola, etc, mas... O que é aquilo que atravessa agora o chão do corredor? Sim, a Tota não voava dentro de casa. Ela queria ser como nós, com as pernas e os pés no chão. Contudo, voava, porque eu, rapazola, dava largas para ela dar um giro na cozinha. Não faltava o serão no ombral do sofá. Ora, muitas vezes eu passava na loja de vídeos para alugar um suspense para mim e os meus pais. Só eu possuía a destreza de os surpreender com as minhas escolhas. Diziam eles, claro. «Vai buscar um daqueles teus dramas» Pelo que a rola passava connosco o serão a ver o bom velho suspense. Às tantas, a Tota já ferrava. Uma certa vez, todavia, a Tota voou janela fora. Ora bolas, que frenesi, o nosso! A Tota! A nossa querida Tota! Pois bem, o meu pai foi bastante afoito, estando ela numa árvore próxima. Fez o assobio próprio para o chamamento da Tota. Mas... Estarei febril? - dizia o transeunte. Aquela rola pousou-lhe na cabeça. «Ó senhor António, que é isso na sua cabeça?» Sim, a Tota era sobremaneira inteligente. Todavia, havia uma outra rola, também ela Tota, que nos deixou um sentimento de profunda tristeza quando morreu. Eu não passava de um miúdo, mas recordo não sem um queixume. Coitadinha, foi tão comovente que o meu pai foi no dia seguinte comprar outra rola no mercado. Acontece que essa rola morreu debaixo dos pés do meu pai. Sim, o meu pai rebentou com ela com o pé. Estávamos nós no sofá a madrugar. «Hei caralho, acho que a rola morreu - disse o meu pai, despertando. Oh, meu deus, foi uma choradeira! Eu estava pior que uma madalena. Aliás, nós estávamos uns espectros. Era baba e ranho por causa da rola. Fomos todos enterrá-la no jardim. Até há pouco o tempo o meu pai contava em como sentiu os seus ossos ceder: «Pronto, desta vez calquei a rola» Foi então que eu conheci a Tota da nossa história. Viveu 20 anos em nossa casa. Adorava arroz branco. Conviveu com a Isa, a nossa gata. Para a minha avó era um senão. Mas eu arreliava a mulher para ela se manter quieta com a rola no topo da cabeça: «Não te mexas, Lurdes! Esta foto vai ficar nos anais».
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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Os adultos não precisam de histórias engraçadas, mas de assuntos sérios e utéis.