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Mensagens

A mostrar mensagens de agosto, 2026

Quintela

Sonhei que estava à janela da cozinha do antigo apartamento, onde vivi a minha infância e juventude. Isto era noite. Nisto, vejo uns afiliados de um partido político cá em baixo a cirandar com bandeiras apoiadas ao ombro, inclusive uma mulher baixinha com um rosto pouco animoso, importunada pelas minhas palavras. Pelos vistos não me dirigiram a palavra. «São de esquerda, certo? É preciso coragem, não vá o diabo tecê-las» Pelo que confluíram vagarosos para a entrada do prédio. Ouvi o meu pai recebê-los. Seguidamente recebi uma mensagem no twitter: «Peça, que nós oferecemos, senhor Quintela» Quem é o senhor Quintela? - pensei. Como se não bastasse, entre eles constava o handle da mulher baixinha. O meu pai sorriu de algum modo: Simpáticos.

Rascunho

II Os dois amigos subiram precipitadamente escadas acima. Abriram uma porta, mas para seu grande espanto viram um casal a praticar um sexo escaldante e incrível. «Peço desculpa - disse António, não contendo o riso. Abriram outra porta. Ali estava: o altar à vagina. «Isto é incrível. Não haja dúvida, é um altar a uma vagina.» Diante deles, em todo o seu esplendor, destacava-se uma enorme vulva rosada ladeada por objectos de mil cintilações. Lá em baixo ouviam-se as pessoas em urros cada vez mais intensos. «Pede um desejo - disse António. «Bem..., acontece que estou a ficar sem vigor físico; permitir-me-á virilidade para o que aprouver? «Agora acende uma velinha à vagina; ela to concederá.» José ateou um pavio e depôs no altar a vela. «Agora vamos. «Sim, é melhor; confesso que esta história da vagina me comoveu. «Comoveu, querido? - ouviu-se uma vozinha angelical vindo directamente da entranha do ícone. «Sim, querida - respondeu José. - Agora até me apanhaste desprevenida... Sua parva» -...

Belém

Isso era assistente de mesa quando eu imprimi uma caveira na capa do CD que eu gravei: «Sei o que é isso. É música da pesada». O que eu ri. Nesse dia, era o Aniversário do meu pai, estava ele a soprar para uma vela atarraxada a um pastel de belém.

Rascunho

A sorte de António e Pedro haveria de mudar. Talvez que eles pudessem pôr cobro a uma vida de obscurantismo, como que entregues a si mesmos, impregnados na vida da lavoura nos arrabaldes deprimidos da cidade onde nenhum homem regrado antes colocara lá os pés. O seu quotidiano a lavrar a terra com charrua, onde o crivo malhava entre os bichos mais improváveis e outros que se desembrulhavam diante dos seus olhos cansados, desde há muito que lhes ocupava o espírito sequioso de uma vida nova. Às tantas açudavam o boi à charrua raquítica pela manhã a eito, com os pés pejados pela maviosa substância da lama soçobrante das poças. Pelo entardecer encharcavam toda a vasta plantação de couve com o jacto misericordioso de água. Às tantas a sua dilecção pelos bólides dava azo para assistir aos grandes e veneráveis campeonatos de Rally. Ali estava um modelo de carroçaria guisando o mato. «Tu bates mal! - gritava António para o condutor na faxina da manobra, lançando-se na emboscada depois do carro ...

Why ash regards hash

Que estás a fazer? - disse João ao entrar no meu quarto.  Estava eu a compor o meu ambiente de trabalho com o primeiro álbum dos NEU! João era meu colega de apartamento quando estudei em Aveiro e após sair das Barrocas. Lembro-me que fora assim que nos apresentamos. «Estou a recriar o ambiente de trabalho»  O quarto de João estava perpassado de estantes e discos de cima a baixo. Nessa fase eu estava à procura de terminar um trabalho. Pelos vistos encontrei uma imagem de uma parelhas de amigas japonesas a disparar uma objectiva para a objectiva que as captava.  Isto passou-se. Dias mais tarde, a Cátia requisitou a câmara do departamento para eu ir com o João em busca de indícios. Tratava-se de um segundo trabalho. Consistia apenas na ilustração de um som comparativamente a uma imagem captada. Eu e o Bruno ainda fomos no sentido de fotografar Aveiro. Todavia, nesse dia com o João foi algo engraçado. Eu estava a contar a peripécia da professora de Materias e Técnicas de Expr...

A Gárgula

Acontece que no Rossio da Sé em Braga levantou-se um tumulto. Era hora de confraternização diante da Sé, com uivos e grande tropelias entre os jovens. Ouviam-se garrafas de cerveja resvalar em miríades. Todavia, pessoas agitavam-se em redor dos lutadores. «Porrada!... Porrada!...» Afonso Cadavez procurava acertar no rosto da criatura, mas dizer que criatura fosse ao certo, ninguém ainda houvera colocado a questão, exceptuando um padre, ali mesmo, àquela hora, vindo da rua do Alcaide em trote precipitado, que se perturbou ao constatar que uma das gárgulas havia sumido do poiso – gárgula que, desde a sua construção, ali estivera como um simples capitel de alvenaria. Os papalvos tão pouco se aperceberam que aquilo diante deles, uma escultura assombrosa com dentes caninos afilados na sua boca profunda, qual Barrabás com ventas poeirentas, fosse precisamente algo ou qualquer coisa de outro mundo. «Porra, o jovem não tem nariz» - Idiotas – berrou Afonso Cadavez. - Arrancou-mo este homem. Ent...

ENO

Jason

Pessoa

O meu tio contou sobre o homem que dizia que o gajo lá em cima estava a arrastar as cadeiras aquando da trovoada. Acontece porém que se queixou a Deus após decepar os dedos numa lâmina.  Tinha o meu tio quinze anos.  Era o Pessoa. Pessoa de apelido, e não de alcunha. - E tu como sabes que estava tão nervoso?  «Você é que estava a pedir misericórdia a Nossa Senhora e a Deus Nosso Senhor» - Homessa. Olha que as crianças...

Judas

Epá, não é Judas de Iscariotes, é Judas Tadeu, primo de Cristo

Sweet Jane

Das tempestades e outras incursões.

English

Mr. Augustus transfers an undeclared amount of money into this offshore account. He laughed. Only few men across the country can afford to enter that mansion where he will spend the night. These lucky men even have a card in which is written the word FIDELIO. It seems there's a intruder who knew about the password. Mr. Augustus laughs. «The pianist must go; eventually they will make sure he vanishes. That sucker doesn't even realize there is no password to the house.» As soon as Mr. Augustus transfers the amount of money into that offshore account, the door handle seems to move in the dark. «Who's in there?» says Augustus in that direction. - What are you scared of?

Abrantes

Isso era em Abrantes quando visitamos um castelo com santos num pano negro por fundo. Às tantas, fui filmar um homem a escavar o solo, andava o meu pai a viandar pressuroso diante da objectiva. Pelos vistos a minha mãe chamou-me para ver algo abaixo da balaustrada: «Frederico, anda cá. - Eu já estava a adivinhar - Andá cá, rápido. - Muito me ri quando vi o meu pai lá em baixo. «É o teu pai»  Não esqueço - até porque está em vídeo - estarmos hospedados numa pensão com vista para o centro da cidade. Era a câmara do Massa. Na noite anterior estava a fazer fosquinhas. Foi quando a minha mãe me passou a mão pelas cuecas e procurou beijar-me o rabo. Ou como abancamos à mesa de uma cozinha - não sem antes esperar na sala espaçosa e tecto abaulado - sempre com a câmara - enquanto estou ali à varanda a observar o trânsito a formigar - e pedir pão a uma senhora que nos serviu: «É o pão»

Madalena

Uma altura fui a casa de uns primos da minha mãe ou qualquer coisa em Vila Verde. Eu achava tão estranho. Tratava-se de uma casa comprida entre vegetação agreste onde o carro penetrava. Acolheram-nos bem. O miúdo tinha um helicóptero preso por uma corda na cozinha que eu e o meu pai adaptamos em casa. Certa vez, levei uma espécie de consola portátil muito rudimentar da parte do miúdo. Pelos vistos, aquilo avariou em casa quando procurei fazer uma manigância no interior. Acontece porém que acabei por remendar. No entanto, aquele período da minha infância causou-me estranheza. O helicóptero lá ficou no alto do meu quarto. Perguntei então à minha mãe, não fosse adivinhar, quem era aquele casal e o miúdo em Vila Verde. É minha prima por parte da tia Madalena. Sorri. Eu adorava a tia Madalena, irmã da minha avó.

Esquisito

 Sou esquisito.

Tanta gente mariana

Domingo de Páscoa tórrido, daqueles domingos bem quentes que estalam na psique. Estávamos em Viana do Castelo diante de uma mesa com convidados, entre os quais homens e mulheres que eu não fazia ideia quem eram, senão familiares de alguém que tem por afinidade a minha avó materna. Lembro-me que essa sala estava algo iluminada devido à luz que passava através das janelas, ainda que airosa e confortável - e longe, muito mais longe, a canícula. Ali cirandam crianças e pequenas mulheres do campo com rosto macerado. Pormenor algo curioso: é o jardim que pulula de flores mesmo abaixo dessa sala, bastando descer um lanço de escadas, para logo tudo se cobrir de um aroma intenso debaixo daquele mesmo sol. Às tantas eu descia para aquela fortaleza de jardim para evitar aquelas pessoas desconhecidas em redor da mesa dos acepipes. A casa em si era uma espécie de construção em baluarte. O jardim apenas um prolongamento. E aquela sala, apenas mais um compartimento feito a partir de alumínio barato o...

Sehnsucht

César

Uma altura também confidenciei ao César - de outra geração -, que em Braga diziam um palavrão em relação aos de Guimarães. «Diz-me, não estou a ver o que é» Mal ele sabia que eu próprio estava a inventar: «Espanhóis»  - Hahah, mas isso já eu sabia!...  Tanto que o meu primo sorriu de permeio.  Ficou gravado. Não disse uma nem duas. Se ele e o meu primo se se tivessem apercebido, haveriam de perguntar: «És uma espécie de bruxo ou qualquer coisa?»