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A Gárgula

Acontece que no Rossio da Sé em Braga levantou-se um tumulto. Era hora de confraternização diante da Sé, com uivos e grande tropelias entre os jovens. Ouviam-se garrafas de cerveja resvalar em miríades. Todavia, pessoas agitavam-se em redor dos lutadores. «Porrada!... Porrada!...» Afonso Cadavez procurava acertar no rosto da criatura, mas dizer que criatura fosse ao certo, ninguém ainda houvera colocado a questão, exceptuando um padre, ali mesmo, àquela hora, vindo da rua do Alcaide em trote precipitado, que se perturbou ao constatar que uma das gárgulas havia sumido do poiso – gárgula que, desde a sua construção, ali estivera como um simples capitel de alvenaria. Os papalvos tão pouco se aperceberam que aquilo diante deles, uma escultura assombrosa com dentes caninos afilados na sua boca profunda, qual Barrabás com ventas poeirentas, fosse precisamente algo ou qualquer coisa de outro mundo. «Porra, o jovem não tem nariz»
- Idiotas – berrou Afonso Cadavez. - Arrancou-mo este homem.
Entretanto, os papalvos enviesaram o olhar. Questionavam-se. Sussurravam ao ouvido uns dos outros fazendo um sinal à laia de corno.
— Ele é feito de alvenaria, o monstro – berrava Afonso Cadavez.
Então, tendo para isso arregaçado as saias do hábito negro, o padre repenicou a orelha arrebitada da gárgula e desapareceu numa esquina refundida. Um velhinho magro como um palito e um chapéu enfiado na cabeça ficou varado: «Valha-me deus, o padre levou o nosso lutador. Com quem vai o rapaz lutar, neste caso?» Após os papalvos se dispersarem um pouco tristonhos, o velho de chapéu enfiado na cabeça olhou a esquina escura onde o padre havia desaparecido, e, tendo para isso amparado a mão mariana pejadas de calos e outras indelicadezas seu queixo, acompanhou os outros.

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