O senhor Virgulino estava atravessado no divã. Atirou para o cesto das revistas o suplemento de jornal e pôs-se a contemplar uma caveira na mesa redonda. «Que estranhas criaturas somos quando vistas assim» – pensou. Então, munido de lápis e papel, principiou a esboçar o crânio a partir do modelo diante dele. Subitamente, ficou perplexo – alguma coisa o fez paralisar diante da caveira, pelo que se manteve sério e tomado de uma superstição sem par. «É possível que a caveira se manifeste?» Já se tinham passado largos minutos no fascínio da caveira mas nada de qualquer revelação. Os olhos do senhor Virgulino intumesceram. Do assombroso, tornou-se azul férreo. Dava impressão que o senhor Virgulino estava possuído por um espírito infantil - ainda que salutar -: desejoso de tornar visível a manifestação de um objecto inanimado, como quando, diante da Nossa Senhora do Sameiro, em visitas com a família ao monte da Falperra, assim lhe dirigia: «E tu, Senhora do Sameiro, dar-me-ias a atenção necessária para virar os olhos?» O senhor Virgulino era bastante supersticioso, tão supersticioso que, diante do espelho rachado da casa de banho, fazia todos os esforços para não se ver reflectido. O espelho rachado, inóspito nas manhãs agrestes, ameaçava cada vez mais o seu mundo. Às tantas, e por meio de um singular determinismo, escanhoava com golpes precisos e abalava. De forma que aquele passatempo diante da caveira acabou por convir. Nestes somenos, sentiu como que o seu espírito entorpecido; e mais estranho: que o seu espírito se deslocava pela sala ao ponto de poder ver o seu corpo estendido no sofá; que seu espírito pairava subtilmente, sem contudo fazer um esforço peremptório para acordar daquela sensação. «Porra, estou a pairar. Que é isto? Será um ocaso da mente?», até porque, em noites de adversidade, o seu espírito se confrangia, onde as sombras se estendem e repassam. Nisto, foi subitamente precipitado para a caveira; quando o seu espírito recobrou as sensações, viu diante de si alguém deitado no seu divã, de olhos sanguíneos virados para si. «Com mil batráquios, Virgulino, parece que trocamos de lugar» O senhor Virgulino queria protestar, voltar para o seu corpo. Não podia protestar; estava enclausurado naquele sorriso malévolo da caveira, onde ele próprio se materializou.
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