O senhor Virgulino estava atravessado no divã. Atirou para o cesto das revistas o suplemento de jornal e pôs-se a contemplar uma caveira postava na mesa redonda. «Que estranhas criaturas somos quando vistas assim» – pensou para si mesmo. Então muniu-se de um lápis e papel e principiou a esboçar o crânio a partir do modelo diante dele. Subitamente, ficou perplexo – alguma coisa o fez paralisar diante da caveira, pelo que se manteve sério e tomado de uma superstição sem par. «É possível que a caveira se manifeste?» Já se tinham passado largos minutos no fascínio da caveira mas nenhuma magia dava azo a qualquer revelação. Os olhos do senhor Virgulino intumesceram. Do assombroso, torna-se de azul férreo. Dava impressão que o senhor Virgulino estava possuído pelo espírito infantil, ainda que salutar, no desejo obscuro de tornar visível a manifestação de um objecto inanimado, como quando, diante da Nossa Senhora do Sameiro, em visitas com a família ao monte da Falperra, se mantinha seguro que a senhora acabaria por lhe dirigir um olhar. «E tu, Senhora do Sameiro, dar-me-ias a atenção necessária para virar os olhos para mim?» O senhor Virgulino era bastante supersticioso, tão supersticioso que, diante do espelho rachado da casa de banho fazia todos os esforços para não se ver reflectido. O espelho rachado, inóspito nas manhãs agrestes, ameaçava cada vez mais o seu mundo. Às tantas, e por meio de um singular determinismo, escanhoava com golpes precisos e abalava. De forma que aquele passatempo diante da caveira acabou por lhe convir: quem sabe se aquele sorriso mefistofélico não lhe espantasse o medo supersticioso que mantinha com os astros. Nestes somenos, sentiu como que o seu espírito entorpecido; e mais estranho: que o seu espírito se deslocava pela sala ao ponto de poder ver o seu corpo estendido no sofá; como o seu espírito pairava subtilmente, sem contudo fazer um esforço peremptório para acordar daquela sensação. «Porra, estou a pairar. Que é isto? Será um ocaso da mente?», até porque, em noites de adversidade, o seu espírito se confrangia, onde as sombras se estendem e repassam. Nisto, foi subitamente precipitado contra a caveira; quando o seu espírito recobrou as sensações, viu diante de si alguém deitado no seu divã, de olhos sanguíneos directamente sobre si. «Com mil batráquios, Virgulino, parece que trocamos de lugar!» O senhor Virgulino queria protestar, voltar para o seu corpo. Mas não podia protestar, estava enclausurado naquele sorriso malévolo da caveira, onde ele próprio se materializou. E a suposta figura da caveira, tornando-se espírito ali à beira, dançava idiota.
Braga, 5 de Maio de 2021 Embora tenha editado o poema, esta é a última edição guardada. Quero estar no meu quarto, (Porque eu adoro o meu quarto) E ter esta percepção genuína: Eu embrenhado na noite... Que trato! Apenas eu e a escuridão No meu quarto de ameias encerrado Sem janela nem modas apetrechado Movendo entre a mansidão. É um consolo que me assiste O estar aqui dentro sem haver lá fora Ser eu próprio, aqui e agora Onde a música religiosa atriste. Prelúdio para uma noite cerrada, Clarinete dentre o quarto hermético E musicalidade ao meu ouvido estético, A nada errante a sons prelada. Que seja esta religiosidade musical, Esta religiosidade latente aos meus ouvidos A primavera atonal dos meus sentidos E nem sempre estes versos avulsos capital. Recordar esta noite que me sustém... Carregada de breu, em tudo abaulada. Fora dos meus nervos, então desarranjada... Aconteceu-me a noite em Belém. E os guizos são outros, revelados. E faz crer que o quarto está a léguas Ainda que alta lassi...
Comentários
Enviar um comentário