Domingo de Páscoa tórrido, daqueles domingos bem quentes que estalam na psique. Estávamos em Viana do Castelo diante de uma mesa com convidados, entre os quais homens e mulheres que eu não fazia ideia quem eram, senão familiares de alguém que tem por afinidade a minha avó materna. Lembro-me que essa sala estava algo iluminada devido à luz que passava através das janelas, ainda que airosa e confortável - e longe, muito mais longe, a canícula. Ali cirandam crianças e pequenas mulheres do campo com rosto macerado. Pormenor algo curioso: é o jardim que pulula de flores mesmo abaixo dessa sala, bastando descer um lanço de escadas, para logo tudo se cobrir de um aroma intenso debaixo daquele mesmo sol. Às tantas eu descia para aquela fortaleza de jardim para evitar aquelas pessoas desconhecidas em redor da mesa dos acepipes. A casa em si era uma espécie de construção em baluarte. O jardim apenas um prolongamento. E aquela sala, apenas mais um compartimento feito a partir de alumínio barato onde as pessoas podia queimar o tempo. Lembro-me que, já naquela idade, eu pensava para mim o quanto era peregrina a ideia de nos juntar aquelas pessoas; o quanto para mim era já um tormento e especial embaraço permanecer ali. Pois eu não desejava estar ali. Pior só mesmo aquele dia de Carnaval em que eu supliquei à minha mãe para sair.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
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