Avançar para o conteúdo principal

Tanta gente mariana

Domingo de Páscoa tórrido, daqueles domingos bem quentes que estalam na psique. Estávamos em Viana do Castelo diante de uma mesa com convidados, entre os quais homens e mulheres que eu não fazia ideia quem eram, senão familiares de alguém que tem por afinidade a minha avó materna. Lembro-me que essa sala estava algo iluminada devido à luz que passava através das janelas, ainda que airosa e confortável - e longe, muito mais longe, a canícula. Ali cirandam crianças e pequenas mulheres do campo com rosto macerado. Pormenor algo curioso: é o jardim que pulula de flores mesmo abaixo dessa sala, bastando descer um lanço de escadas, para logo tudo se cobrir de um aroma intenso debaixo daquele mesmo sol. Às tantas eu descia para aquela fortaleza de jardim para evitar aquelas pessoas desconhecidas em redor da mesa dos acepipes. A casa em si era uma espécie de construção em baluarte. O jardim apenas um prolongamento. E aquela sala, apenas mais um compartimento feito a partir de alumínio barato onde as pessoas podia queimar o tempo. Lembro-me que, já naquela idade, eu pensava para mim o quanto era peregrina a ideia de nos juntar aquelas pessoas; o quanto para mim era já um tormento e especial embaraço permanecer ali. Pois eu não desejava estar ali. Pior só mesmo aquele dia de Carnaval em que eu supliquei à minha mãe para sair.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Estou a assim a modos que

Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....

Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Parece que se ouviu um grito de dor após um garfo recolher o bife da rabada. Foda-se, que dores do caralho!...  - Oh Paul McCartney. Se estava com fome, pedia. Só que o médico grego tornou vinho em água, para sua completa satisfação. «Então nós pedimos-te para trazer o vinho, e fazes isso?»

Virgulino

O senhor Virgulino estava atravessado no divã. Atirou para o cesto das revistas o suplemento de jornal e pôs-se a contemplar uma caveira na mesa redonda. «Que estranhas criaturas somos quando vistas assim» – pensou. Então, munido de lápis e papel, principiou a esboçar o crânio a partir do modelo diante dele. Subitamente, ficou perplexo – alguma coisa o fez paralisar diante da caveira, pelo que se manteve sério e tomado de uma superstição sem par. «É possível que a caveira se manifeste?» Já se tinham passado largos minutos no fascínio da caveira mas nada de qualquer revelação. Os olhos do senhor Virgulino intumesceram. Do assombroso, tornou-se azul férreo. Dava impressão que o senhor Virgulino estava possuído por um espírito infantil - ainda que salutar -: desejoso de tornar visível a manifestação de um objecto inanimado, como quando, diante da Nossa Senhora do Sameiro, em visitas com a família ao monte da Falperra, assim lhe dirigia: «E tu, Senhora do Sameiro, dar-me-ias a atenção nece...