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Bacon

Dia primaveril. Estávamos em Aveiro; eu e o meu amigo resolvemos passar a tarde ao meu apartamento nas Barrocas. «Bem, espero que a senhoria não faça nenhum reparo.» A senhoria era generosa, pois que, pelo preço da estadia de um quarto, me ofereceu ao cuidado todo o apartamento. Não havia portanto aquele reboliço muito próprio dos estudantes sob o mesmo tecto. No caminho para casa, através da paliçada de uma obra, ficamos diante do cartaz da retrospectiva de Francis Bacon em Serralves. «Um cartaz do Francis Bacon! «Tem cuidado - disse o meu amigo. Fiz os possíveis para não rasgar o papel grosso devido à cola incrustada mas, ao cabo de uma faxina meticulosa, enrolei o cartaz e abalamos. Já em casa, coloquei o cartaz na parede da cozinha bem junto à janela por forma que os transeuntes que passassem em baixo o vislumbrassem. O papel estava ainda um pouco grudado de cola, pelo que aderiu facilmente ao azulejo. «Achas que está bem assim? «Sim; porque não? «Bem, desejaria que os transeuntes o pudessem ver lá em baixo; achas que é possível? «Não sei - respondeu colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha. Já no exterior, seguimos pelo passeio do qual se avistava a janela da cozinha. O cartaz estava parcialmente visível. «Foda-se, não se vê completamente. O meu amigo estava a sentir-se excluído devido a um cartaz roubado numa paliçada; e eu, um pouco mais desesperado que o normal, procurava avistá-lo no alto da janela. «Estás mesmo afectado. Deixa lá isso. «Eu acho que está giro. Não é todos os dias que um gajo passa diante de uma janela e se depara com um cartaz de um neo-expressionista. «Hoje falaste em neo-expressionismo todo o dia.

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