Dia primaveril. Estávamos em Aveiro; eu e o meu amigo resolvemos passar a tarde ao meu apartamento nas Barrocas. «Bem, espero que a senhoria não faça nenhum reparo.» A senhoria era generosa, pois que, pelo preço da estadia de um quarto, me ofereceu ao cuidado todo o apartamento. Não havia portanto aquele reboliço muito próprio dos estudantes sob o mesmo tecto. No caminho para casa, através da paliçada de uma obra, ficamos diante do cartaz da retrospectiva de Francis Bacon em Serralves. «Um cartaz do Francis Bacon! «Tem cuidado - disse o meu amigo. Fiz os possíveis para não rasgar o papel grosso devido à cola incrustada mas, ao cabo de uma faxina meticulosa, enrolei o cartaz e abalamos. Já em casa, coloquei o cartaz na parede da cozinha bem junto à janela por forma que os transeuntes que passassem em baixo o vislumbrassem. O papel estava ainda um pouco grudado de cola, pelo que aderiu facilmente ao azulejo. «Achas que está bem assim? «Sim; porque não? «Bem, desejaria que os transeuntes o pudessem ver lá em baixo; achas que é possível? «Não sei - respondeu colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha. Já no exterior, seguimos pelo passeio do qual se avistava a janela da cozinha. O cartaz estava parcialmente visível. «Foda-se, não se vê completamente. O meu amigo estava a sentir-se excluído devido a um cartaz roubado numa paliçada; e eu, um pouco mais desesperado que o normal, procurava avistá-lo no alto da janela. «Estás mesmo afectado. Deixa lá isso. «Eu acho que está giro. Não é todos os dias que um gajo passa diante de uma janela e se depara com um cartaz de um neo-expressionista. «Hoje falaste em neo-expressionismo todo o dia.
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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