O gajo já me vinha achincalhando pelo facto de twittar na web. Ainda assim eu amparei a minha escrivaninha, tentando desapegar-me da ideia que tinha do corrécio. É que eu levo a minha escrivaninha para todo o lado à falta de um dispositivo móvel. É uma escrivaninha que o meu avó, homem especializado na venda de mobiliário inteligente, me ofereceu por altura do meu 10.º aniversário. Também a escrivaninha tem umas pernas que me acompanham para todo o lado; ambos procuramos dirigir a nossa atenção para uma poça que nos atravessa no caminho. Mesmo para entrar num snack-bar ou restaurante, a minha escrivaninha tem um carácter sucinto quando me solicita que transponha o limiar da porta. Somos unha e carne, eu e a minha escrivaninha. Às tantas ela abre uma pequena gaveta lateral onde eu deposito poemas e escritos raros, bastando para isso que eu accione com uma pancadinha num ponto estratégico. Foi sobre esta lúdica escrivaninha que a minha mãe escreveu os seus recatados poemas. «Filho, fazes o favor de transcrever estes escritos para o meu blogue do Windows Live Spaces?»
- Claro - e sem mais delongas, apetrechava-me de asas.
O seu blogue do Windows Live Spaces poria qualquer blogger digno desse nome a chorar esmolas. Não faltava o mosaico com vídeos incorporados de cantatas e óperas com uma coreografia fulgurante; as peripécias da vida dela enquanto jovem na casa do campo, etc. A escrivaninha assistia-me em todo o processo. De quando em vez, estirava uma pequena língua por meio de um mecanismo de pequenas roldanas com uma palavra ecuménica.
Eu adoro aquela escrivaninha.
A minha escrivaninha já me tem alertado para o facto de não haver passadeiras naquele local estratégico da avenida; que, na opinião dela, a ponte pedonal é um monstro de inutilidade pública e que portanto seria muito mais asséptico resolver colocar uma passadeira para os peões; como é incómodo de mais para ela levantar a saia rodada, através do intenso tráfico das horas vespertinas, em grandes passadas para alcançar o outro lado do passeio. «Eu rio do gajo que há prometido em eleições autárquicas elevadores para a ponte pedonal - diz.
- Não digas mais nada. Eu já dei uma pancadinha nas costas desse homem quando ele aproveitou para fazer campanha para os lados da Arcada. Imagina a minha situação embaraçosa; como seu eu ali fosse apenas um gato pingado e não houvesse margem de manobra para lhe corresponder com um sorriso e a devida pancadinha...
Mas o gajo já me vinha achincalhando o juízo. Era aquela forma ufana e particular de magoar o íntimo: – «Hahaha, um homem que leva uma escrivaninha como quem leva o cão pela trela é a coisa mais hilariante que já vi.»
- Pois fique sabendo o senhor que esta escrivaninha recebeu um prémio Nobel.
- Hahaha, não me diga outra! Descobriu a pólvora, foi?
- Não descobriu a pólvora... É capaz de mostrar na ementa, para que vossa senhoria saiba, qual é o prato mais adequado à minha dieta. Aposto que o seu smartphone não tem essa aplicação.
- Não me faça rir! A sua escrivaninha é um poço de virtudes...
- Na verdade, sim. É tão autónoma como seria provavelmente uma bela rapariga de belas tranças de azeviche e olhos pretos como duas azeitonas. Se por descuido calca o pé a uma donzela aquando dos nossos passeio pela alameda a florir, é capaz de se estirar ao de leve em forma de um perdão.
- Hahaha – achincalha o malvado – não há dúvida que é um poço de virtudes. Mas diga-me, ela usa calças?
- Estamos a entrar no domínio do ridículo, meu amigo - e antes que o acossasse a tristonha malvadez, puxei de um cordel exclusivo no centro do qual diz: Provérbio. - Pois bem, «Vá para a pata que o pôs». E saímos, eu e a escrivaninha, como dois peixes na água, dignificados pela novena...
Braga, 5 de Maio de 2021 Embora tenha editado o poema, esta é a última edição guardada. Quero estar no meu quarto, (Porque eu adoro o meu quarto) E ter esta percepção genuína: Eu embrenhado na noite... Que trato! Apenas eu e a escuridão No meu quarto de ameias encerrado Sem janela nem modas apetrechado Movendo entre a mansidão. É um consolo que me assiste O estar aqui dentro sem haver lá fora Ser eu próprio, aqui e agora Onde a música religiosa atriste. Prelúdio para uma noite cerrada, Clarinete dentre o quarto hermético E musicalidade ao meu ouvido estético, A nada errante a sons prelada. Que seja esta religiosidade musical, Esta religiosidade latente aos meus ouvidos A primavera atonal dos meus sentidos E nem sempre estes versos avulsos capital. Recordar esta noite que me sustém... Carregada de breu, em tudo abaulada. Fora dos meus nervos, então desarranjada... Aconteceu-me a noite em Belém. E os guizos são outros, revelados. E faz crer que o quarto está a léguas Ainda que alta lassi...
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