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Que filme é esse de beber para esquecer

Ontem à noite saí para beber uma imperial - eu estava literalmente crispado, atolado de frustrações; estava desejoso de emborcar uns copos para atear um fósforo à minha ansiedade. Saí pois por volta das onze da noite e entrei numa garagem onde pulula a raia serôdia e os salafrários mais ébrios, gente sem o mínimo de civilidade a correr nas veias - mas nem por isso deixei de entrar e pedir o meu copo. Entretanto, vem na minha direcção um rapaz novo acompanhado por uma senhora de idade de braços descarnados, por certo a mãe retrógrada e pega, cujo filho prematuro ainda não aprendeu - senão pelas pancadas sucessivas na cabeça - os revezes subliminares e tortuosos... Havia entre eles uma franca antipatia, e no meio disto tudo uma dicotomia perversa entre duas gerações. Lembrei-me da minha mãe, que eu amo. Pelos vistos entraram num automóvel; o rapaz fez tenção de ligar o auto-rádio e aquilo estalou à nossa volta numa torrente de ruído e percussões de música tecno. Nesse mesmo instante a mãe retrógrada e pega assumiu um ar desgovernado, numa reprimenda sem precedente. A música cessou no mesmo instante. Eu sei, rapaz, desejarias uma liberdade mais consentânea; mas porque não protestas, homem? Por que és um bicho-de-contas com dois dedos de testa e só guardas para ti o que conviria mutuamente. Tens medo da tua mãe? Tens medo de abordar assuntos que ela não compreenderia sem o teu enérgico assentimento? Entrei na garagem. «Imperialzinha, não é? - anuiu o empregado do balcão.


 


Lady Midnight.png

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