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A Ceia


Estávamos na cozinha sombria e pejada de penumbra de uma casa térrea. Dois amigos ceavam à luz de uma vela que sobrepujava as paredes com sombras alongadas. Tratava-se de uma casa bem junto ao solo, em que se destaca uma janela chanfrada na fachada, na rua Cruz de Pedra, onde os automóveis se sobrepõe, atravancados, como esteiras de metal pedregoso. Uma casa deveras peculiar, recamada de cal, que ainda hoje provoca no vosso narrador uma espécie de náusea. A rua, toda ela, é um conjunto feio de construções velhas e raquíticas, ruínas e prédios avulsos de dois e três andares remodelados. Quem passa por esta rua, há-de vislumbrar a dita casa a um primeiro alcance, pois que se situa entre as suas vizinhas mais altas como uma pequena anã. 
Os dois amigos ceavam. 
Conhecia-os de deambular para aquelas bandas, em modo andrajoso, pálidos de doenças venéreas, com cabelo sujo e eriçado. Às tantas, o mais velho estirou a mão ao meu pai quando passávamos em revista os jornais na vitrina sob a Arcada na tentativa de cravar um cigarro. «Desculpe, não tenho» - Pois que o mais provável era o vício estar entranhado nas suas cabeças raquíticas de combustão e escalpes talhados às três pancadas. Passámos ao largo e dirigimo-nos ao Ferreira Capa para assentar as ideias e tomar um café, na Rua dos Capelistas, sobretudo para sair da atribulação entre choques de hálitos empastados e deslumbres de narizes virulentos.
Voltemos à Rua Cruz de Pedra. 
É noite. Os dois amigos ceavam, portanto. Batatas assadas no forno; manjar propício para afagar um estômago doente. A cozinha, além da luz parca, estava abatida por uma franja de fumo que soçobrava do forno ainda quente.
- Estas batatinhas estão boas, não estão? - disse o mais velho, Augusto. 
-  Sim, estão crestadinhas - respondeu Licínio.
Olha, consegues passar a mão pela vela? - perguntou Augusto. 
- Não - respondeu Licínio - ainda queimo a mãozinha. 
- Preferes as batatinhas, não é? Estão boas, não estão? - correspondeu Augusto alegremente com um brilho nos olhos. Após a ceia, Augusto recostou-se nas costas da cadeira. «Vou fumar um cigarro, irmão. Tens fósforos? 
- Não. 
- Então apaga a vela, vamos dormir; fumamos amanhã.

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