O senhor Mocho vinha pela alameda num anoitecer. A alameda, bem frequentada, em que perfilados se destacavam os edifícios novecentistas, estava tomada por um caudal de sons e atmosfera prazerosa e familiar. Tratava-se de um desse ricos bairros onde a noite está a braços com o humano prazer. O senhor Mocho distinguiu pelas janelas as famílias em solenes reuniões, ora uns cabelos alvos de uma rapariga assomar na noite alva - um mundo inebriante e prazeroso que apenas é possível vislumbrar nesta zona da cidade. Subiu ao seu edifício sem compreender o silêncio rutilante. Quando subiu pelas escadas, um pouco absorto neste silêncio, ficou diante de um homem de meia idade que compunha a fralda da camisa e sorria malévolo, como que levado pelo entusiasmo. Lá em cima o senhor Mocho ouviu o som indistinto a folia. Descobriu não sem um fragor da voz que as portas do seu apartamento estavam abertas de par em par, assomando dali uma luz intensa e obcecante. O senhor Mocho viu um eterno e dilacerante festim de carne. Se fosse possível descrever o imenso aparato e os corpos sôfregos, entre os quais o da sua mulher... O senhor Mocho desceu as escadas abalado. Precipitou-se escadas abaixo como que levado por um turbilhão. Que seria dele? Alvo do mais abjecto opróbrio? Seria trucidado. Correu ao rio... Quis deitar-se ao rio. Mas esperem... Que espécie de pensamento ao cúmulo da felicidade parece antever o senhor Mocho? Preocupar-se? Porquê? Não, iria jurar que ele estava consumido pela ideia ridícula de se expor depois dessa nova circunstância. Não, ele foi tomado de felicidade.
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
Comentários