O senhor Mocho vinha pela alameda num anoitecer. A alameda, bem frequentada, em que perfilados se destacavam os edifícios novecentistas, estava tomada por um caudal de sons e atmosfera prazerosa e familiar. Tratava-se de um desse ricos bairros onde a noite está a braços com o humano prazer. O senhor Mocho distinguiu pelas janelas as famílias em solenes reuniões, ora uns cabelos alvos de uma rapariga assomar na noite alva - um mundo inebriante e prazeroso que apenas é possível vislumbrar nesta zona da cidade. Subiu ao seu edifício sem compreender o silêncio rutilante. Quando subiu pelas escadas, um pouco absorto neste silêncio, ficou diante de um homem de meia idade que compunha a fralda da camisa e sorria malévolo, como que levado pelo entusiasmo. Lá em cima o senhor Mocho ouviu o som indistinto a folia. Descobriu não sem um fragor da voz que as portas do seu apartamento estavam abertas de par em par, assomando dali uma luz intensa e obcecante. O senhor Mocho viu um eterno e dilacerante festim de carne. Se fosse possível descrever o imenso aparato e os corpos sôfregos, entre os quais o da sua mulher... O senhor Mocho desceu as escadas abalado. Precipitou-se escadas abaixo como que levado por um turbilhão. Que seria dele? Alvo do mais abjecto opróbrio? Seria trucidado. Correu ao rio... Quis deitar-se ao rio. Mas esperem... Que espécie de pensamento ao cúmulo da felicidade parece antever o senhor Mocho? Preocupar-se? Porquê? Não, iria jurar que ele estava consumido pela ideia ridícula de se expor depois dessa nova circunstância. Não, ele foi tomado de felicidade.
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