Tycho Brahe foi convidado para um jantar entre amigos. Entre eles, mulheres elegantes e voluptuosas de rosto nacarado e seios protuberantes; homens garbosos de uma magistral voz e eloquência; cientistas, poetas e outras eminências. Enfim, a nata da sociedade dinamarquesa. Tycho Brahe tratou de preparar a sua melhor toilette. Colocou o nariz com toda a delicadeza possível - pois iria certamente causar algum espanto pelo facto de ser oiro de verdade, e não apenas qualquer metal revestido que daria essa percepção -, e apesar de tímido como um caracol, foi anunciado. Pelos vistos, houve uma leve crispação nervosa para rir a bandeiras despregadas, mas em tudo se abateu um silêncio. Tycho Brahe sentiu apenas um leve aperto no âmago, tal a sua timidez diante dos comensais. Após a refeição, os mordomos serviram a sobremesa. Tycho Brahe estava já um pouco empanturrado devido a uma marinada à base de cabrito e cebolinho, quando alguém o interpelou. «Senhor Tycho Brahe - assim lhe dirigiu um senhor com um colete preto resplandecente e negro de azeviche contrapondo com o laço branco: - É capaz de nos explicar em que consiste a sua teoria da gravitação dos astros?»
- Quer me parecer - disse Tycho Brahe um pouco atordoado - que os planetas giram em volta do sol...
Nada mais acrescentou. A sua alma estava partida em dois. Desde logo aqueles olhares cravados nele; os sorrisos imperfeitos das senhoras de rosto nacarado.
- Certo. Disse que os planetas giram em volta do sol e disse muito bem. Mas, não há algo mais sobre a sua teoria que nos queira enunciar?
- Pois bem, meu amigo. O sol gira em torno da terra - e antes que Tycho Brahe fosse mais longe, ouviu-se no mesmo instante uma enorme gargalhada. Tycho Brahe, ofegante, sentiu como que o espírito entorpecido.
- Você sente-se bem? - exclamou alguém.
- Passa-se algo no reino da Dinamarca.
Neste somenos, o seu nariz cedeu. Sentiu que algo ou alguma coisa havia cedido para o desfalecido Tycho Brahe se agarrar ao nariz. As gargalhadas sucediam. E para surpresa de todos, que riram ao ponto de espilrar e soltar uma tosse descabelada, o nariz caiu. E tendo caído por cima da vieneta, mais os homens e mulheres se não continham.
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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