Maradona pregou no acelerador um pouco mais para aproveitar a recta numa estrada do interior. Que deleite; a brisa tépida após um dia de sol abrasador... O Mercedes último modelo sulcava a estrada num ronronar apaziguador. Ao redor, um silêncio entre um pinhal denso. No porta-luvas, encontrou um disco para orientar o seu pensamento disperso: «Já cá faltava Some Surprises». Maradona estarreceu aos primeiros acordes que se repercutiram no interior do Mercedes como dois olhos palpitantes. Até ousou executar num esgar aquele drone da guitarra em determinado momento da faixa, acrescentado: «Foda-se! Brilhante! É isso mesmo - acomodando-se ao volante - quando, de forma completamente imprevista, vislumbrou um indivíduo com o polegar em riste. «Quer boleia, meu amigo? «Não, estava na esperança que o meu amigo me acompanhasse para uma noite de excessos. «Foda-se, por quem me toma?»
- Estás a ouvir Some Suprises? É calminho...
- Não estou a gostar da tua conversa.
Braga, 5 de Maio de 2021 Embora tenha editado o poema, esta é a última edição guardada. Quero estar no meu quarto, (Porque eu adoro o meu quarto) E ter esta percepção genuína: Eu embrenhado na noite... Que trato! Apenas eu e a escuridão No meu quarto de ameias encerrado Sem janela nem modas apetrechado Movendo entre a mansidão. É um consolo que me assiste O estar aqui dentro sem haver lá fora Ser eu próprio, aqui e agora Onde a música religiosa atriste. Prelúdio para uma noite cerrada, Clarinete dentre o quarto hermético E musicalidade ao meu ouvido estético, A nada errante a sons prelada. Que seja esta religiosidade musical, Esta religiosidade latente aos meus ouvidos A primavera atonal dos meus sentidos E nem sempre estes versos avulsos capital. Recordar esta noite que me sustém... Carregada de breu, em tudo abaulada. Fora dos meus nervos, então desarranjada... Aconteceu-me a noite em Belém. E os guizos são outros, revelados. E faz crer que o quarto está a léguas Ainda que alta lassi...
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