Nessa noite comprei o bilhete inter-cidades para voltar para casa. Que infortúnio. Às tantas ouço a campainha. Era João e o Bruno com os olhos postos em mim. Entraram porta dentro e refastelaram-se no sofá. Nisto, Bruno, fosse por mera bufonaria, retira da minha bolsa o meu caderno e recita o seguinte com alguma surpresa no semblante:
Vi À Porta da Eternidade de Julian Schnabel há uns tempos. A interpretação Willem Dafoe é primorosa. Todavia, Schnabel, artista completo que é, não se debruçou sobre o tormento de Vincent. Talvez que esteja a salvaguardar a memória dele. Ou talvez que Schnabel não seja humilde o suficiente para fazer compreender o tormento de Vincent. Porque - diga-se - é preciso uma bela dose de coragem para lancetar uma orelha. Vincent não é apenas paisagens com ciprestes. É todo um mundo interior. Sadness will last forever: parece que estou a imaginar o sofrimento aquando dessas noites de verdadeiro horror.
Os meus amigos não podiam conter.
- Onde foste desencantar isto?
- Ehehe, não importa. Estava certamente a divagar.
- Estou a rir - disse Bruno - porque o meu professor diz que o Van Gogh não lancetou a orelha. Que era muito provavelmente um mito. A sujeição.
Curiosamente, esse seu professor também leccionava em Design. Foi o próprio que me abordou depois de eu desenhar o Gogol eclodir de um ovo kinder. A Cláudia até estava a peneirar com as amigas. Pelos vistos, esse professor estava comovido numa aula, pelo que o Bruno acorreu após sair da sala para amparar o ombro num gesto de benevolência.
Este meu colega de Novas Tecnologias da Informação estava sempre tentado em contar estórias. Uma altura, após entrar em sua casa, fomos desenhar para o sótão. Estava ali estava a fazer uns retratos. Vira-se ele, um pouco mais divertido e com alguma parcimónia: «Lembrei-me do meu vizinho. Uma altura, estávamos em casa dele quando denotamos que estava a tactear as pulgas do sofá para as mordiscar. Juro, que doido. Outra vez, depois de uma brincadeira lá em casa, urinou contra a parede do corredor. Nós estávamos espantados!» - pelo que Bruno ria sem conter. Mal ele sabia do Coelho lá do bairro: «Olha passa os dedos na concavidade do escalpe. Mercê da ousadia, eu sorria:
- Tu tens mesmo um buraco na cabeça...
Entretanto, Bruno contou-me sobre um filho da terra que perdeu a perna após se aventurar na linha férrea. Diz que ouviu as vizinhas numa soleira para sua própria apreensão. «Elas não continham de tanto rir da desgraça do próprio filho.» Curiosamente, vi esse vizinho do Bruno no hall de entrada a perscrutar quem atravessa a estrada neste sentido: «Bruno, acho que o teu vizinho te quer dar um recado, pelo que bramiu naquele sentido. Eu estava a ver o vizinho numa muletas. Mal o Bruno sabia que um homem se suicidou na linha férrea em Braga. Nós até quisemos ir ver o decapitado pelo aterro. O aterro era muito próximo da casa do Fernando. Lembro-me perfeitamente de entrar com o Jota em casa do Fernando pelas antemanhã, ainda noite cerrada, depois de atravessar o aterro sob jorros de chuva, estando ele a aquecer leite num bico de gás. Depois disso, acorria ao quarto da avó para lhe administrar insulina. Eu ria-me porque havia um poio de plástico no móvel da sala de estar.
Isto passou-se. Já no comboio para Braga vi a paisagem suceder. Era deprimente.
Sem comentários:
Enviar um comentário