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Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2025

Ege Bamyasi

Olá, pessoas. Ege Bamyasi dos CAN faz 53 anos de vida. Isto só publicado num blogue. Lindo. Pior só mesmo uns cotas angolanos no snack bar. Riam bastante. Diziam «Este gajo é lindo» O visado, alvo de chacota, era o patrão do estabelecimento, que dizia mais ou menos nestes termos: «Foda-se, o gajo é lindo», ao que os angolanos riam avinhadamente.  

Klaus

O homem mais feio do Youtube  

O Altar

PARTE I/III A sorte de António e Pedro haveria de mudar. Talvez que eles pudessem pôr cobro a uma vida de obscurantismo, como que entregues a si mesmos, impregnados na vida da lavoura nos arrabaldes deprimidos da cidade onde nenhum homem regrado antes colocara lá os pés. O seu quotidiano a lavrar a terra com charrua, onde o crivo malhava entre os bichos mais improváveis e outros que se desembrulhavam diante dos seus olhos cansados, desde há muito que lhes ocupava o espírito sequioso de uma vida nova. Às tantas açudavam o boi à charrua raquítica pela manhã a eito, com os pés pejados pela maviosa substância da lama soçobrante das poças. Pelo entardecer encharcavam toda a vasta plantação de couve com o jacto misericordioso de água. Às tantas a sua dilecção pelos bólides dava azo para assistir aos grandes e veneráveis campeonatos de Rally. Ali estava um modelo de carroçaria guisando o mato. «Tu bates mal! - gritava António para o condutor na faxina da manobra, lançando-se na emboscada depo...

O Machimbombo

O senhor Emanuel estava diante de uma paisagem bucólica em casa do doutor Fran. O senhor Emanuel era convidado. Todavia, aquele quadro, mercê de um pintor mal habituado às artes, adivinhava muitas lacunas estéticas. Desde logo, camadas de cor baças predominantemente verde. As pinceladas, essas, como que desferidas por uma mão de uma criança, rudimentares. O variegado da vegetação, apenas mais um amontoado reformulado por uma técnica sem proveito, assim como uma torre, supostamente emparelhada, que embora tornada uma mancha de fealdade encimava o quadro. Nada ali respirava harmonia. - Que se passa? Estás muito dedicado a esse quadro? - disse o doutor Fran compondo as calças. O autoclismo soava contrapondo com o seu ruído de água a subir no depósito. - Este quadro é realmente um tratado à fealdade. Repara, é um machimbombo. Como consentes em que este quadro esteja presente em tua casa? Como se não bastasse está ao nível dos ombros. O doutor Fran sorriu. - Comprei esse quadro na Praça; e ...

Almas

Há um lugar que eu recordo não sem desassossego. Trata-se de um caminho ao largo do prédio onde vivi. É uma espécie de caminho rumoroso com uma fonte em pedra escavacada no solo. Para chegar até lá era necessário descer umas escadas íngremes através de um muro alto que ladeava aquela parte do bairro. Ali, apenas vegetação desabrida ao longo desta pequena paisagem com a linha férrea em baixo. Na verdade, eu passava ali para ir para a escola. Lugar estranho e algo estúpido. É só. Pior só mesmo as Alminhas. Ali para os lados do Lugar das Alminhas deve ser uma corrente de ar... eu nem quero imaginar. É um lugar ermo e misterioso onde a raia miúda vai colocar os sírios num nicho. Tudo muito bonito quando uma pessoa passa lá pela hora vespertina, mas à noite não ponho lá os meus pés. É um breu como no alto mar. Sempre pensei que no Lugar das Alminhas está consumido por almas penadas - que aquilo está assombrado. E no entanto é só um caminho empedrado com casas arruinadas à face da estrada. O...

Beuys Better

Já vi uma obra do grande Joseph Beuys no Centre Pompidou, The Plight. Foi aquando da exposição La Révolution Surréaliste. Andávamos a peneirar nos corredores, quando nos deparamos com uma porta. «Olha uma porta». Lembro-me das paredes estarem revestidas de feltro e no centro da sala um piano encerado. Eu e o meu amigo estávamos absortos porque deparamo-nos inadvertidamente com aquela sala, através do vão da porta que parecia ter sido ali colocada sem finalidade. Tratamos de tirar algumas fotos através da máquina descartável (sim, estávamos em 2001), mas neste somenos surgiu um contínuo que nos repreendeu. Divertido.

A Gárgula

Acontece que no Rossio da Sé em Braga levantou-se um tumulto. Era hora de confraternização diante da Sé, com uivos e grande tropelias entre os jovens. Ouviam-se garrafas de cerveja resvalar em miríades. Todavia, pessoas agitavam-se em redor dos lutadores. «Porrada!... Porrada!...» Afonso Cadavez procurava acertar no rosto da criatura, mas dizer que criatura fosse ao certo, ninguém ainda houvera colocado a questão, exceptuando um padre, ali mesmo, àquela hora, vindo da rua do Alcaide em trote precipitado, que se perturbou ao constatar que uma das gárgulas havia sumido do poiso – gárgula que, desde a sua construção, ali estivera como um simples capitel de alvenaria. Os papalvos tão pouco se aperceberam que aquilo diante deles, uma escultura assombrosa com dentes caninos afilados na sua boca profunda, qual Barrabás com ventas poeirentas, fosse precisamente algo ou qualquer coisa de outro mundo. «Porra, o jovem não tem nariz»  - Idiotas – berrou Afonso Cadavez. - Arrancou-mo este homem. En...

Tiny nietzsche

Maradona

Maradona pregou no acelerador um pouco mais para aproveitar a recta numa estrada do interior. Que deleite; a brisa tépida após um dia de sol abrasador... O Mercedes último modelo sulcava a estrada num ronronar apaziguador. Ao redor, um silêncio entre um pinhal denso. No porta-luvas, encontrou um disco para orientar o seu pensamento disperso: «Já cá faltava Some Surprises». Maradona estarreceu aos primeiros acordes que se repercutiram no interior do Mercedes como dois olhos palpitantes. Até ousou executar num esgar aquele drone da guitarra em determinado momento da faixa, acrescentado: «Foda-se! Brilhante! É isso mesmo - acomodando-se ao volante - quando, de forma completamente imprevista, vislumbrou um indivíduo com o polegar em riste. «Quer boleia, meu amigo? «Não, estava na esperança que o meu amigo me acompanhasse para uma noite de excessos. «Foda-se, por quem me toma?» - Estás a ouvir Some Suprises? É calminho... - Não estou a gostar da tua conversa.

Recreio dos Comuns

Na aldeia de Serralheiros algo fora do habitual aconteceu num sábado bem pela tardinha. Se o vosso narrador pudesse pintar com cores verdadeiras a peripécia invulgar que teve lugar na estrada de posta junto ao principal pelourinho da aldeia, certamente que esta história que vou contar seguidamente vos faria sorrir. Se fosse possível pintar aqueles homens, ora robustos como o saco da farinha, ora os velhos lavradores munidos de cajados, com uma expressão de estático regozijo, mais uma catrefada de caçadores empedernidos com espingardas a tiracolo; o trigo seco e aparentemente sem vida como serapilheira ao largo da estrada, sem faltar um cão de pelo sebento e encrespado que se esfalfa de um lado ao outro nas suas pernas esquivas derredor do Mestre - como dizia, se o vosso narrador tivesse o cinzel próprio para descrever com arte a peripécia que naquele sábado quente teve evento, certamente que a minha arte seria outra. Mas como o vosso narrador não tem o cinzel nem outro instrumento próp...

Judas

Epá, não é Judas de Iscariotes, é Judas Tadeu, primo de Cristo  

A Escrivaninha

O gajo já me vinha achincalhando pelo facto de twittar na web. Ainda assim eu amparei a minha escrivaninha, tentando desapegar-me da ideia que tinha do corrécio. É que eu levo a minha escrivaninha para todo o lado à falta de um dispositivo móvel. É uma escrivaninha que o meu avó, homem especializado na venda de mobiliário inteligente, me ofereceu por altura do meu 10.º aniversário. Também a escrivaninha tem umas pernas que me acompanham para todo o lado; ambos procuramos dirigir a nossa atenção para uma poça que nos atravessa no caminho. Mesmo para entrar num snack-bar ou restaurante, a minha escrivaninha tem um carácter sucinto quando me solicita que transponha o limiar da porta. Somos unha e carne, eu e a minha escrivaninha. Às tantas ela abre uma pequena gaveta lateral onde eu deposito poemas e escritos raros, bastando para isso que eu accione com uma pancadinha num ponto estratégico. Foi sobre esta lúdica escrivaninha que a minha mãe escreveu os seus recatados poemas. «Filho, fazes...

O Cúmulo da felicidade

O senhor Mocho vinha pela alameda num anoitecer. A alameda, bem frequentada, em que perfilados se destacavam os edifícios novecentistas, estava tomada por um caudal de sons e atmosfera prazerosa e familiar. Tratava-se de um desse ricos bairros onde a noite está a braços com o humano prazer. O senhor Mocho distinguiu pelas janelas as famílias em solenes reuniões, ora uns cabelos alvos de uma rapariga assomar na noite alva - um mundo inebriante e prazeroso que apenas é possível vislumbrar nesta zona da cidade.  Subiu ao seu edifício sem compreender o silêncio rutilante. Quando subiu pelas escadas, um pouco absorto neste silêncio, ficou diante de um homem de meia idade que compunha a fralda da camisa e sorria malévolo, como que levado pelo entusiasmo. Lá em cima o senhor Mocho ouviu o som indistinto a folia. Descobriu não sem um fragor da voz que as portas do seu apartamento estavam abertas de par em par, assomando dali uma luz intensa e obcecante. O senhor Mocho viu um eterno e dilaceran...

Euromilhões

Lembram-se daquele casal que deu a cara a uma televisão generalista após terem ganho no Euromilhões? A mulher não sabia como conter. O homem, esse, ria entretido estando num lugar refundido, a salvo da câmara. Mas na primeira entrevista, estavam ocultos. Parece o meu pai quando acorreu em pés de lã: «Malta, vamos ter calma. Vamos fazer pouco barulho, mas acho que ganhamos no Totoloto» Enganou-se. Era apenas o recibo. 

António Pedro

Uma altura o professor pediu para trazer um óleo em tela. Acontece porém que o António Pedro trouxe uma tela muito frugal. Parece que o pai dele era pintor amador, proprietário de uma loja no La Fayette. «Oh António Pedro, vai para o caralho - gritaram em uníssono. 

Realista

 

Ode

O Facebook tem um aspecto estranho: se uma pessoa escreve um pensamento, avulso que seja, de um dia para o outro torna-se absolutamente oco, como que atirado para o ar, breve e transitório, outras vezes idiossincrático mesmo. Pode parecer que estou um pouco à margem da actualidade mas acontece que tenho estado mais vezes no twitter, e é por essa razão que o meu mural está mais deserto (e descartável) que o habitual. Tenho me deparado com algumas passagens no arquivo e isso torna-me permeável. Apenas desejo que sejam o mais tolerante. Obrigado, simpatia a vossa. 

Ivan

Aquando do meu primeiro blogue, com contribuição de um amigo, este sugeriu que acompanhasse o vídeo do Warhol com uma descrição meramente casuística.  Posto isto, rematei com um famoso dizer - que despoletou em várias reacções na caixa de comentário -, no qual dizia que Ivan o Terrível não fora apenas assassino como um grande apreciador de Ketchup. Os comentários irromperam com galhardia. Inclusive Fraulein Else: «Hoje a guerra não é propriamente devido ao teu trecho do Ivan; vê como esses temerários querem impôr respeito, já que são indignos de ti?» Eu estava agradecido; e atirava com «beijos para o ar». A resenha tivera êxito; mas havia quem não se contivesse, recalcando sobre o que eu acabara de escrever: «Pana! «Juro - respondeu Fraulein -, estes gajos não têm o baralho todo!»

Tycho Brahe

Tycho Brahe foi convidado para um jantar entre amigos. Entre eles, mulheres elegantes e voluptuosas de rosto nacarado e seios protuberantes; homens garbosos, de uma magistral voz e eloquência; cientistas, poetas e outras eminências. Enfim, a nata da sociedade dinamarquesa. Tycho Brahe tratou de preparar a sua melhor toilette; colocou o nariz com toda a delicadeza possível - pois iria certamente causar algum espanto pelo facto de ser oiro de verdade, e não apenas qualquer metal revestido que daria essa percepção; e apesar de tímido como um caracol, foi anunciado. Pelos vistos, houve uma leve crispação nervosa para rir a bandeiras despregadas, mas em tudo se abateu um silêncio. Tycho Brahe sentiu apenas um leve aperto no âmago, tal a sua timidez diante dos comensais. Após a refeição, os mordomos serviram a sobremesa. Tycho Brahe estava já um pouco empanturrado devido a uma marinada à base de cabrito e cebolinho, quando alguém o interpelou. «Senhor Tycho Brahe - assim lhe dirigiu um senho...

Que filme é esse de beber para esquecer

Ontem à noite saí para beber uma imperial - eu estava literalmente crispado, atolado de frustrações; estava desejoso de emborcar uns copos para atear um fósforo à minha ansiedade. Saí pois por volta das onze da noite e entrei numa garagem onde pulula a raia serôdia e os salafrários mais ébrios, gente sem o mínimo de civilidade a correr nas veias - mas nem por isso deixei de entrar e pedir o meu copo. Entretanto, vem na minha direcção um rapaz novo acompanhado por uma senhora de idade de braços descarnados, por certo a mãe retrógrada e pega, cujo filho prematuro ainda não aprendeu - senão pelas pancadas sucessivas na cabeça - os revezes subliminares e tortuosos... Havia entre eles uma franca antipatia, e no meio disto tudo uma dicotomia perversa entre duas gerações. Lembrei-me da minha mãe, que eu amo. Pelos vistos entraram num automóvel; o rapaz fez tenção de ligar o auto-rádio e aquilo estalou à nossa volta numa torrente de ruído e percussões de música tecno. Nesse mesmo instante a mã...

Frédérico

Oh Fred. Tu não podias desver o Jota cabecear para o golo gloríola.  

Lou Reed

 

Punk Song

João era o meu predilecto. A sua voz cristalina com pronúncia angolana fazia aquecer o coração. Certa vez, ainda no princípio da nossa amizade, João convidou-nos para um serão em sua casa. Que casa asséptica, meu Deus! Ainda por cima uma parafernália de máquinas para todo o género de idealizações musicais. Pôs portanto a agulha sobre um vinil raro dos AC/DC e sorriu: « Estes gajos têm um background punk sublime. » Sim, o som era simples e cru no seu género. Ouvimos aquelas notas puras de sonoridade punk como quem se reclina depois de um lauto jantar. De maneira que o meu favoritismo por João acabou por se intensificar. De tal forma que era ele quem eu procurava para passar o serão a ouvir Rock & Roll. Jamais uma criatura ouvira semelhante sonoridade na sua vida: as melhores melodias, os melhores solos, os drones mais arrojados; o próprio cheiro da capa do vinil. Eu curtia imenso João. Por vezes mantinha com ele longas conversas sobre arte contemporânea. « Sabes, Bas Jan Ader é o me...

Caramel

Olá olá! Why. Acontece que eu geri um blogue na plataforma do Blogger durante praticamente uma década. Trata-se de Cromeleque dos Danados. Eu já havia criado outros blogues anteriores ao Cromeleque dos Dados, mas sempre sem grande sucesso. Estou a lembrar-me de um Corcel em Fogo , entre outros que comprometi devido às pretenções literárias . Inclusive o saudoso Guerra e Morte, primeiro blogue que eu e um amigo fundamos aquando dos primeiros adventos do Blogger. Entretanto, constatei que a seguinte mensagem é a primeira publicação de Cromeleque dos Danados: Com meia dúzia de tostões apenas, este gajo realizou o vídeo mais interessante para uma partitura dos Cluster.  

Bacon

Dia primaveril. Estávamos em Aveiro; eu e o meu amigo resolvemos ir passar a tarde ao meu apartamento nas Barrocas. «Bem, espero que a senhoria não faça nenhum reparo.» A senhoria era generosa, pois que, pelo preço da estadia de um quarto, me ofereceu ao cuidado todo o apartamento. Não havia portanto aquele rebuliço muito próprio dos estudantes sob o mesmo tecto. No caminho para casa, através da paliçada de uma obra, ficamos diante do cartaz da retrospectiva de Francis Bacon em Serralves. «Um cartaz do Francis Bacon. «Tem cuidado - disse o meu amigo. Fiz os possíveis para não rasgar o papel grosso devido à cola incrustada mas, ao cabo de uma faxina meticulosa, enrolei o cartaz e abalamos. Já em casa, coloquei o cartaz na parede da cozinha bem junto à janela por forma que os transeuntes que passassem em baixo o vislumbrassem. O papel estava ainda um pouco grudado de cola, pelo que aderiu facilmente ao azulejo. «Achas que está bem assim? «Sim; porque não? «Bem, desejaria que os transeunt...

Last Nite

Estava aqui a pensar E já nem me ocorre - Muitas voltas decorre - Porque comecei a fumar. É cá um drama... E a ansiedade é tanta... Que penso que é ela Quem me trama. Agora muito seriamente: Esta ansiedade bestial É mulher assanhada e banal; Acirrada unhas inclemente. Mulher que fosse carnal No meu amplexo sucinta... Mas aquela só me pinta: Quer me ver no hospital. Era deixar o tabaco, Ser sadio e regrado Abrir um negócio Para enriquecer um bocado. Já oiço a falange gritar: "Ele deixou de fumar" Vou até lá cumprimentar... Este gesto salutar. Diria já com proveito Tempo houve que foi um suplício Fumar cigarros em barda, se lícito... Mas agora não acho jeito.  

Cinema

Parece o meu primo ao volante após ver uma perseguição no cinema: «O que tens?» - É assim que eles fazem  

Starblood

Hoje os pardais discutiam entre si assuntos sobre a vida doméstica. Sorri; que assunto impreterível seria esse para se debaterem tão desenfreadamente? No calor da discussão sobrou um par de namorados que ainda se reprimia. Depois o meu pensamento voltou ao passado, àquela noite reverberativa de verão, quando assistimos ao fenómeno de um meteoro atravessando o céu. Estávamos nos degraus de uma escadaria diante do pórtico lateral no Rossio da Sé. Conversávamos alegremente. «Sabes - dizia eu simpaticamente - pelos vistos Alicante, aquando da chuva, é uma genuína cidade-fantasma «Onde é Alicante? «A 200 quilómetros a sul de Valência - respondi - quando, neste somenos, reparo que a atenção nos olhos do meu amigo se prendem subitamente com algo directamente atrás de mim. «O que é aquilo? - perguntou. Virei-me exactamente para onde os seus olhos se crispavam de espanto, e num receio brando de verão, vi diante dos meus olhos, percorrendo vagarosamente a esfera celeste, um astro enorme e lindo....

Não haja dúvida

Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta. Aquilo era deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. Estão a imaginar o estapafúrdio: a conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobre...

Klinkerhoffen

O sol emergia a carruagem com a sua luz hialina e agreste. Por momentos um raio estalou de encontro as vidraças e as cores dos planos exteriores se descobriram de um verde temível. Ia a caminho do Porto. Estava apenas eu, tentando recriar uns desenhos no caderno, e uns passageiros aparentemente distantes e fechados sobre si, ora velhas septuagenárias dormitanto com a cabeça tombada. A um canto, um tolo - algum velho alcoólico demente - recostava a cabeça junto à janela, e sorria num enleio medonho. Em Nine, constato que uns militares se preparam para tomar a carruagem nos seus modos devassos. Pouca sorte para o tolo, que no entanto mostrava um sorriso benevolente e sádico. «Quem és tu? - bradou avaro um dos compinchas. - És mesmo tolo! Olha faz a continência. «Ele não faz a continência, tem um parafuso a menos.» Entretanto, o mais velho simulou o coito directamente atrás do tolo, e ria provocadoramente para completa pândega dos compinchas. O velho sorria benevolente e desnastrado. «Faz...

Alhambra

Não venhas com tesouras, Facebook. Aqui as divergências são comigo. Deixo-vos com uma passagem do meu diário que consta a uma Segunda-feira do dia 11 de Novembro de 2013: «Hoje a atmosfera de Braga é bastante boa. Havia uma azáfama salutar; e ainda descobri um alfarrabista numa loja nova e bem frequentada na Rua do Janes. Fui à suposta feira do livro do Largo do Paço, mas afinal tratava-se de uma pequena banca junto aos claustros; e como se a porta para a galeria estivesse aberta, aproveitei para tirar um café na máquina de expressos, e constatar que no Salão Nobre estava presente o Samuel Úria a fazer os preparativos para o concerto à noite (ao qual atendi. Parafraseou; que é sempre bom.) Braga tem uma atmosfera bastante diferente de outras cidades: não tem a luz ampla de Lisboa, ou profusa como no Porto, mas é estival e parece revestida de um incenso ténue a determinada hora vespertina. Gosto.»

Dirt

Quer-me parece que nunca foste dirt.

CAN

Eu gosto é dos CAN com o pretinho da sorte  

Nobody to love

É o que faz não ter devoção por nada, Alberto João

How fucking romantic

Quer-me parecer que nunca ouviste aquela

Quer-me parecer que nunca ouviste aquela dos Suede: She.  

Hearts On Fire

 

Roberto Carlos

Melhor só quando o Roberto Carlos recebeu a bola em pleno no peito num queima roupa.

Going Out West

"Coitado é coito dado. É por isso que sois todos uns coitadinhos"  

À porta da eternidade

Vi À Porta da Eternidade de Julian Schnabel há uns tempos. A interpretação audaz de Willem Dafoe é primorosa. Todavia, Schnabel, artista completo que é, não se debruçou sobre o tormento de Vincent. Talvez que esteja a salvaguardar a memória dele. Ou talvez que Schnabel não seja humilde o suficiente para fazer compreender o tormento de Vincent. Porque - diga-se - é preciso uma bela dose de coragem para lancetar uma orelha.  Vincent não é apenas paisagens com ciprestes. É todo um mundo interior. Sadness will last forever: parece que estou a imaginar o sofrimento aquando dessas noites de verdadeiro horror.