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O Machimbombo

O senhor Emanuel estava diante de uma paisagem bucólica em casa do doutor Fran. O senhor Emanuel era convidado. Todavia, aquele quadro, mercê de um pintor mal habituado às artes, adivinhava muitas lacunas estéticas. Desde logo, camadas de cor baças predominantemente verde. As pinceladas, essas, como que desferidas por uma mão de uma criança, rudimentares. O variegado da vegetação, apenas mais um amontoado reformulado por uma técnica sem proveito, assim como uma torre, supostamente emparelhada, que embora tornada uma mancha de fealdade encimava o quadro. Nada ali respirava harmonia.


- Que se passa? Estás muito dedicado a esse quadro? - disse o doutor Fran compondo as calças. O autoclismo soava contrapondo com o seu ruído de água a subir no depósito.


- Este quadro é realmente um tratado à fealdade. Repara, é um machimbombo. Como consentes em que este quadro esteja presente em tua casa? Como se não bastasse está ao nível dos ombros.


O doutor Fran sorriu.


- Comprei esse quadro na Praça; e como desejava perfilar as paredes, decidi adquiri-lo por meia dúzia de tostões.


- E no entanto é feio. É um quadro desarmonioso. Um machimbombo débil e autista. Repara nas pinceladas: não tem absolutamente nada de rigoroso. Ao menos uma chama.


- Esquece por ora o quadro e vamos para o nosso recreiozinho. As belas raparigas chamam-nos. Já iremos falar sobre a tua permanência aqui em casa.


- Não sem antes te desenvencilhares desse quadro. Não quero viver numa casa onde existe a mais completa ausência de vida.


- Conversamos pelo caminho, homem. A culpa é minha. Não sou muito dado às artes, devia ter deixado o quadro no sitio dele junto da velha que mo vendeu.


- Conversamos pelo caminho, homem. A culpa é minha. Não sou muito dado às artes, devia ter deixado o quadro no sitio dele junto da velha que mo vendeu.


- Homem, que se passa contigo?


- Juro. Esse quadro está impregnado de mal.


- Queres que eu o coloque no lixo, é isso? - disse o doutor um pouco mais colérico - e antes que os dois amigos entrassem em vias de facto, o senhor Emanuel lançou a mão sobre o quadro. O doutor Fran tentou alcançá-lo; o senhor Emanuel aterrou com as nádegas - o quadro trepidou, caindo em cima do senhor Emanuel, deixando a descoberto a sua cabeça e a paisagem.


- Hahaha - gritou o doutor Fran. - Pareces a menina da pérola.


Menina.jpg


 

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