Avançar para o conteúdo principal

Almas

Há um lugar que eu recordo não sem desassossego. Trata-se de um caminho ao largo do prédio onde vivi. É uma espécie de caminho rumoroso com uma fonte em pedra escavacada no solo. Para chegar até lá era necessário descer umas escadas íngremes através de um muro alto que ladeava aquela parte do bairro. Ali, apenas vegetação desabrida ao longo desta pequena paisagem com a linha férrea em baixo. Na verdade, eu passava ali para ir para a escola. Lugar estranho e algo estúpido. É só. Pior só mesmo as Alminhas. Ali para os lados do Lugar das Alminhas deve ser uma corrente de ar... eu nem quero imaginar. É um lugar ermo e misterioso onde a raia miúda vai colocar os sírios num nicho. Tudo muito bonito quando uma pessoa passa lá pela hora vespertina, mas à noite não ponho lá os meus pés. É um breu como no alto mar. Sempre pensei que no Lugar das Alminhas está consumido por almas penadas - que aquilo está assombrado. E no entanto é só um caminho empedrado com casas arruinadas à face da estrada. O Lugar das Alminhas, em declive, é uma ampla encruzilhada. É possível ouvir as máquinas na Estação atracar. É claro que isto nada tem de humorístico, mas deixo a minha esperança na senhora das Candeias.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Mansidão

Braga, 5 de Maio de 2021 Embora tenha editado o poema, esta é a última edição guardada. Quero estar no meu quarto, (Porque eu adoro o meu quarto) E ter esta percepção genuína: Eu embrenhado na noite... Que trato! Apenas eu e a escuridão No meu quarto de ameias encerrado Sem janela nem modas apetrechado Movendo entre a mansidão. É um consolo que me assiste O estar aqui dentro sem haver lá fora Ser eu próprio, aqui e agora Onde a música religiosa atriste. Prelúdio para uma noite cerrada, Clarinete dentre o quarto hermético E musicalidade ao meu ouvido estético, A nada errante a sons prelada. Que seja esta religiosidade musical, Esta religiosidade latente aos meus ouvidos A primavera atonal dos meus sentidos E nem sempre estes versos avulsos capital. Recordar esta noite que me sustém... Carregada de breu, em tudo abaulada. Fora dos meus nervos, então desarranjada... Aconteceu-me a noite em Belém. E os guizos são outros, revelados. E faz crer que o quarto está a léguas Ainda que alta lassi...

ENO

Nineteen Century Man

Olha que eu perdi tudo que é mensagem do Cromeleque dos Danados, inclusive Maus Hálitos. Maus Hálitos estava tão bem. Foi numa noite em que fui aos Maus Hábitos e encontrei o Salgado à entrada do tugúrio: «Eu acho que aí é uma casa de banho» Entretanto, lembrei-me d'O Mapa. Era uma história caricata sobre um homem que foi na peugada do filho que escreveu uma carta em cujo subscrito constava um mapa. O homem até sonhou que viu o filho numa espécie de construção em argila em Jerusalém, inclusive que abordou Jesus no caminho do Calvário: «O teu filho tem imensa graça... Diz que não sou Deus; mas filho dele. Foi qualquer coisa que ouviu na escola» (...), pelo que o pai subiu um lanço de escadas para um apartamento, estava o filho degolado após se suicidar.