sexta-feira, 20 de março de 2026

Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Parece que se ouviu um grito de dor após um garfo recolher o bife da rabada. Foda-se, que dores do caralho!... 
- Oh Paul McCartney. Se estava com fome, pedia.
Só que o médico grego tornou vinho em água, para sua completa satisfação. «Então nós pedimos-te para trazer o vinho, e fazes isso?»


quinta-feira, 19 de março de 2026

O Revés

Estávamos em 2008. Fora uma noite de terror. Nesse ano, decidi deixar os estudos. Eu estava em História da Arte na Universidade do Porto. Evidentemente que não tive aproveitamento escolar, ainda que as idas ao Porto fossem proveitosas para jovem sonambólico como eu. Pois bem, deixei os estudos. Ainda me foi auferido uma bolsa de estudo, mas ao cabo de um semestre vim para Braga. Além disso, as viagens diárias entre Porto e Braga eram muito cansativas. Lembro-me que os meus pais sentiram necessidade de ir ao Porto para ver como progredia. É claro que não me sentia como um peixe na água; ainda assim eles estavam algo preocupados. A minha ida para Aveiro fora um fracasso, sobre isso não havia dúvida, mas ainda assim permitiam esse estado de coisas. Afinal fora em Aveiro que a minha doença se manifestou. Todavia, quando voltei do Porto, acomodei-me. Muita das vezes procurava estímulos aquando das noites de Braga. Saía à noite, mas não era propriamente amigos que procurava. Por certo que frequentei alguns bares badalados de Braga, mas sempre sem amigos. Pois bem, certa noite vim do estaleiro da Velha-a-branca... (Era ali que encontrava entusiasmo para conviver, ainda que sozinho. Às tantas, encontrava velhos amigos e colegas. Lembro-me inclusive do Bunker, um bar muito bem frequentado na rua do Raio. Era ali que me achava muita das vezes... Um período houve que privei com um grupo de amigos após esse frenesi em Braga, hoje bem-sucedidos. Eu não queria nada frequentar a noite por mim próprio.) Como dizia, certa noite vim do estaleiro da Velha-a-branca. Eu tinha procurado alguém que me vendeu haxixe. Desde essa noite, a minha vida sofreu um revés. Desde essa noite, não mais fui o mesmo. Eu disse revés, e disse muito a propósito. Desde então, deixei a vida boémia. Essa noite foi por de mais horrível. Trata-se do meu primeiro ataque de pânico. Literalmente, morri. Sobretudo do susto que sofri. Era noite cerrada, passava da meia noite, os meus pais estavam a dormir. Decidi fumar um charro à janela da cozinha. No entanto, estava receoso para não acordar a minha mãe. Foi precisamente por causa disso que me abismei. Eu estava em alerta, com medo que a minha mãe irrompesse para me admoestar. E, no entanto, fumei. Fumei apenas uma partícula de fumo; tão pouco fui capaz de fumar o charro inteiro; aquilo apanhou-me de chofre. Eu estava literalmente em pânico. Estava tão em pânico e assustado, e tão fora de mim, que procurei a ajuda da minha mãe. Sim, eu acorri à minha mãe. Acendi a luz e chamei por ela, apoquentado. Eu estava a fumar e pedi que me acudisse. Que havia fumado haxixe. Deitamos portanto a partícula de haxixe pela janela momentos depois. Eu estava a entrar num estado particular de pânico, estava em catarse, sobretudo porque sentia que o meu aparelho respiratório, ao nível da garganta, não se sustinha. A minha mãe olhava incrédula, como que sem esperança. Eu estava a agoniar e queixava-me como uma criança. A minha mãe pedia-me para deitar. A própria Xana, ainda pequena, procurava, ainda que sobressaltada, brincar. A minha mãe rogava-me. Foi então que ouvi a respiração dela, junto a mim quando me deitei á sua beira. Foi das experiências mais avassaladoras que senti. Era noite cerrada. O som da sua respiração parecia o som concêntrico de órbitas extraplanetárias. Se finjo esta sensação? Não, eram sons de órbitas. Fica ao vosso preceito. Eu estava completamente dominado por aquilo. Pela droga e pela sensação de pânico. Desde logo, a órbita. Quando me restabeleci (eu não me restabeleci, ainda que tenha sentido algum alívio após a sofreguidão), ouvi claramente, ou tive a percepção do riso de um demónio no exterior, como que a desapartar daquelas bandas. Desde então, não fui o mesmo. Desde então, algo no meu organismo sofreu uma mudança. Não mais fumei, tão traumática aquela experiência. Todavia, este foi o primeiro gatilho. Desde essa noite que sinto o mesmo embotamento. Fui ao Hospital no dia seguinte; fiquei a soro. Lembro-me do médico que me auscultou, que me tratou por amigo com jovialidade. O dia seguinte e posteriormente andava muito apático e doente. Lembro-me principalmente da minha mãe vindo ao longe, rosto esquálido, depois do episódio. Creio que o meu pai ouviu toda aquela comoção no quarto contíguo, mas não se prestou. Deve ter ouvido os meus berros como que berros assoberbados. 


 

Abrantes

Em Abrantes, lembro-me sempre do homem a escavar o solo com uma pá num terreno baldio, andava eu com a câmara do Massa. Tínhamos vindo da Serra da Estrela e estacionamos junto a um castelo. Pelos vistos, havia ali uma exposição com santos perfilados com um pano preto sinistro a servir de fundo. Acontece porém que me ausentei para filmar a paisagem, andava ali o meu pai em busca de algo, a julgar pelo seu viandar. Quando não é a minha surpresa, ouço a minha mãe numa balaustrada: «Frederico. Anda cá rápido» Parece que estava a adivinhar, tal o meu riso. Estava o meu pai em baixo, pelo que não contive. Vira-se a minha mãe com olhos rasos: «É o teu pai»




quarta-feira, 18 de março de 2026

São Gonçalinho

São Gonçalinho entrou em casa dos sogros num recobro de alma; a guitarra dos Rolling Stones, que ele vinha ouvindo no leitor de cassetes, estava em ponto rebuçado. «Mãezinha, chegou o meu Gonçalinho! Olá, amor. «Olá - retribuiu com um beijo terno. A sogra embiocou-se; aquelas calças largonas deixavam muito a desejar. «Mariconço - pensou para os botões. Gonçalo atirou uma madeixa para o lado, e beijou a face da sogra. Debicou com beijinhos Bourbon, o cão de família, que rodopiou a um sinal e sentou-se na ponta de uma cadeira, observando de chofre o José Rodrigues dos Santos na telly. «Este José Rodrigues dos Santos é tão erudito. Não acha, Gonçalinho? - atirou a velha para aquele lado. «Sim, de facto é muito carismático.» A velha por pouco não atirou com um comentário ainda mais vexante. Mas conteve-se e azedou diante de um Rodrigues dos Santos que atirava com o eterno piscar do olho. «Eheheh - sorriu São Gonçalinho. «O que tem? - perguntou a velha, descrente. 
- Ó Purita - atirou o homem a um canto da mesa de jantar rasgando com uma meticulosidade cândida o naco de pão da boca -, até dá impressão que estás com os azeites. «Eheheh - sorriu o rapaz. 
- Ó mori - acorreu a rapariga vindo da cozinha como que acossada de riso -, queres ver o bolo que eu estou fazer? «Por que ris - sorriu São Gonçalinho. «Haha - baliu a rapariga escondendo por instante o rosto -, o bolo está completamente ensopado. 
- Que tentaste fazer; um preto musculado de chocolate? Queres que te ajude?
- Não acho que vá servir de nada - atirou a velha. 
Nisto o rapaz sentiu uma leve crispação no estômago. Mas não pôde conter-se; largou uma flatulência. Bourbon sorveu aquele aroma quente. A velha Purita embiocou o nariz: «Bourbon, sai daqui. Por amor de Deus. «Puxa, julguei que seria o meu fim - pensou São Gonçalinho -, a velha nem notou que fora eu quem se largou.» Cinco minutos depois Gonçalo sentiu a mesma crispação nos intestinos; mas desta vez decidiu ir mais longe. Largou-se desnatradamente. A velha olhou Bourbon sob as lunetas. «Bourbon...» O rapaz sorriu candidamente. Foi então que decidiu largar-se numa flâmula: aquilo soou nas quatro paredes como um sustenido de um fagote. Purita, caída de um sonho, atirou assustada: 
- Foge, Bourbon! Foge que ele mata-te!

segunda-feira, 16 de março de 2026

A Recrudescência do Nariz

Estava um dia de sol abrasador. Três angolanos decidem fazer uma pausa após uma longa faxina num prédio em construção. «Puxa - diz o mais novo fazendo uma voluta na carapinha -, o calor tolhe... «É assim mesmo - atira o mais alto de peito anguloso e braços tonificados, acrescentando: Nunca ouviste dizer que o calor quando aperta faz crescer o nariz? «Isso é verdade? «É verdade, pois. Conheci um homem que morreu devido à recrudescência do nariz. Saiu de casa numa manhã ensolarada; passou em revista os jornais da região junto a uns bancos com outros cotas, e quando não é a surpresa, o nariz principiou a crescer diante dos olhos dele. «Isso diverte-me - principia o angolano mais retinto, emborcando de uma lata de cerveja Cuca. «Puxa - recomeça o mais novo recompondo a voluta na carapinha -, morreu devido à recrudescência do nariz? Acho isso bastante inverosímil. «Foda-se - asseverou o angolano do peito anguloso, atirando com os factos - É verdade! «Sim, é verdade - apoia o angolano retinto -, essa história é verosímil. Aposto que a reacção dos cotas foi de completo assombro: ver o nariz do gajo a crescer como uma pera com bicho. «Um gajo não morre devido à recrudescência do nariz; ou morre? «Oi - alardeou o angolano do peito anguloso - é verdade, ndengue! «É verdade, ndengue - corroborou o angolano mais retinto emborcando da lata. - É improvável mas possível. Neste somenos, os angolanos ouviram qualquer coisa a ceder: «Que é isso? - perguntaram em uníssono - quando, para espanto do mais novo, uma tábua o atinge de chofre na orelha. «Foda-se, a minha orelha! Tenho um lugar vazio no lugar da orelha! Tenho um lugar vazio no lugar da orelha! «Really? «A sério - exclama o mais novo num carpir -: a minha orelha! It's gone! Epá, por favor, ide procurar a minha orelha. «Ndengue, encontrei a tua orelha! - grita lá em baixo o angolano do peito anguloso num ardil. «Foda-se! - exclama ndengue. - Não é essa orelha; a minha tem um lápis!

Arcimboldo

Vou contar uma história. Mas esta história não é sobre pedras nem sobre flores, tão pouco sobre o que está à direita do Pai. Vou contar portanto uma história verídica. No Marco de Canaveses, quem vai pelas veredas vicinais do Douro deprimido e no entanto singelo, há uma casa. Essa casa está no alto de um outeiro. Foi nessa casa que Arcimboldo passou grande parte da sua infância. Arcimboldo recorda a infância sob um manto de estrelas pontilhados e o medo de mistérios abaulados na boca preta dos pinhais. Ó meu deus, o direito de evocar estas sensações! O espilrar do pastor alemão da simpática vizinha nas noites de cadafalso; os passos reais de um ladrão que não está ali... Mas recordar não é uma aventura; Arcimboldo queria ser pequeno outra vez. Certo dia, Arcimboldo e o primo Francisco Late estavam a jogar ténis. Arcimboldo não tinha especial habilidade para manejar a raquete, mas os seus olhos, cansados agora, refulgiam de alegria quando manejava o pulso magrinho com destreza. «Vamos tomar banho, homem - dizia o Francisco Late - Faz calor como o raio! Já te contei a história quando o meu pai açoitou um limoeiro? «Puxa, açoitou um limoeiro? «Sim. No outro dia erguia-se no ar. Esteve inculcado na terra com uma grande preguiça. O meu pai, como quem não quer a coisa, deu uma sarrafada nele. «Oi, a sério?» Nesse dia estavam lá em casa uns primos afastados emigrados em França. Arcimboldo tentou beijar as faces de uma rapariga mas ela só consentiu um apenas. «Está bem - pensava Arcimboldo para os seus botões -, seja um beijinho.» Porém, aconteceu algo que ainda hoje Arcimboldo recorda não sem um sorriso. Nesse ano, ele estava a aprender a nadar; ainda tinha um pouco medo da parte mais profunda da piscina. Todavia, correu cheio de um grande entusiasmo e mergulhou na parte funda. Ó meu Deus, Arcimboldo estava a ver bolhinhas por todo lado; estava a afogar. Foi quando sentiu uns braços fortes a resgatá-lo muito previdentemente da água; tratava-se do velho Quintas, o alentejano musculado que passava lá em casa para tomar uns banhos. Ele tinha salvo a vida de Arcimboldo. No entanto, sob aquele sol árido do Douro ninguém estava em perigo de perder a vida: «Ó tia - dizia alguém -, o Arcimboldo por pouco afogou.» Vicissitudes.

Alguém me quer falar

Estou à procura de um filme para ver no meu VCR – pelo menos para recriar um sábado à tarde - quando me deparei com o título na etiqueta de uma cassete: «Demónios». Fiquei um pouco estupefacto; que raio poderia ser aquilo? Liguei a tomada do VCR, coloquei a cassete na porta, colocando a mim mesmo esta questão: Demónios? A fita principiou a rolar, fez-se estática, o ecrã ficou negro, e quando não foi a minha surpresa, vi uma gravação de um episódio qualquer de umas criaturas em desenho animado. «Que é isto?» O ecrã mostrava um amontoado de cor saturada e seres extraplanetários. As vozes soavam como dentro de uma caverna; e no percurso do vídeo surgiam uns efeitos concêntricos terríveis, de lutas entre titãs. Fiquei perturbado. Questionei-me se não fora eu quem gravara aquele mundo inóspito de criaturas e combustão de cores. «Não pode, eu não era tão endiabrado... Quem poderia ter gravado uma coisa assim? Louvado seja Deus, quem coloca uma etiqueta com o dizer Demónios? Ainda é mais perturbador que aquelas criaturas fantásticas. Alguém me emprestou a cassete, tenho a certeza, mas não sei quem. «Que mente tacanha? Alguém me quer falar»


domingo, 15 de março de 2026

Queijo

Não mais esqueço quando a minha mãe e o Vasco andaram à minha procura, estávamos nós na Serra da Estrela. «Que é do Freddy» - diz ela em vídeo entre um reboliço. Estou eu muito descomprometido a ver queijos da serra nas montras.


sábado, 14 de março de 2026

O bode

Eu achava imensa graça ao professor de Teoria de Design após uma aula, estavam umas cotas junto à secretária dele: E em relação ao Bode? Começou por rir: «Só vocês para me fazerem rir, raparigas. Vocês não sabem estudar. Essa vossa alusão tem a ver com as emoções às quais o próprio indivíduo recorre para se lamentar»  


O senhor Adalberto vinha pela rua em trote deveras apressado, tropeçando ostensivamente na calçada para chegar a uma casa térrea onde residia um conhecido bruxo. Resfolgou diante da referida casa térrea e bateu à porta com fortes pontadas de desespero e choro escarlate. Demorou algum tempo até que alguém viesse atender. Uma figura absolutamente hedionda entreabriu a porta, e Adalberto constatou que se tratava do mordomo do conhecido bruxo, um odre corcunda com face macilenta pejada de cravos. Adalberto esfregou a massa putrefacta das solas noo tapete, subiu uns degraus íngremes até ao primeiro piso, amparando as mãos grossas à parede, e deparou-se com o bruxo sentado a uma secretária, perscrutando-o numa expressão singular. Na sala destacavam-se outras figuras. Umas velhas, envergando uns trapos negros, cirandavam em redor, arrastando uma longa ladainha, ora num tom muito agudo ora sublimado. Numa cadeira, uma mulher robusta e matriarcal, com um colar de orelhas humanas em redor do pescoço, entrava num êxtase. O senhor Adalberto tartamudeou qualquer coisa. O bruxo consentiu sorrir naquela mesma expressão: «Sinto um cheiro nauseabundo desde que o senhor entrou. Não terá calcado qualquer coisa pouco decente? «Sim, é provável… «Mas espere, veja a textura da massa na sola do sapato. Isso parece coisa de bode. «Quer dizer que o senhor adivinhou o que me sucedeu? O bruxo sorriu: «Eu nada adivinhei. Apenas quis verificar que a massa pegada na sola do sapato é coisa de bode. «Isso é incrível, porque a minha mulher julga que possuí um bode. «O senhor está a querer dizer que possuiu um bode? – perguntou o bruxo. «Não, meu amigo. A minha mulher está é convencida que possuí um bode. «Mas se a sua esposa está convencida que o senhor possuiu um bode, isso apenas leva a crer que o senhor, de facto, e por qualquer razão altaneira, possuiu um bode» «Está parvo? – baliu Adalberto.  «Então como quer que o ajude? Quer dizer que não se aproveitou do animal? - indagou o bruxo.  «É claro que não... «Mas o que leva a sua esposa acreditar que possuiu um bode? «Eu não sei… Ela entra num estado muito particular de histeria. «Verdade? – indagou o bruxo obviamente enleado pela história incrível do senhor Adalberto. Dirigiu-se portanto a um compartimento contíguo. Voltou com um crânio nas palmas das mãos. «Faça-me um favor, senhor Adalberto – disse, espargindo umas ramas de fumo brando sobre o crânio –: visualize o bode. «Qual bode! – exclamou Adalberto já desmedidamente inconsolável. – Valha-me Deus, eu não possuí bode nenhum! «Vá, feche os olhos... Procure visualizar o animal. Pelos vistos o senhor Adalberto ficou rendido à subtileza macabra do bruxo: «Estou a imaginar o bode, meu amigo. E parece que tem a marca de uma forja no quadril. E a marca tem a forma de uma inscrição» A marca do mafarrico?! – exclamou o bruxo tropeçando no enlevo da própria revelação: – Que diz a inscrição? - Vela pela quinta pata do cavalo. Vela por mim. Eu sou Segismundo.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Dick Dastardly

Até que ponto Dick Dastardly é Gogol?



The Man Comes Around

O senhor Augusto não tem com nada: deposita um montante não declarado numa conta offshore. Como tal, riu. Porém, a maçaneta da porta parece rodar no escuro. «Quem vem lá?» - diz o senhor Augusto naquela direcção. 
- Diz-me - assume uma voz -: tens medo do quê?

Roberto Carlos

Melhor só quando o Roberto Carlos recebeu a bola no peito após o queima roupa.



terça-feira, 10 de março de 2026

O Altar

Certa vez decidiram descer à cidade pela calada. Aproveitaram o convite de uma morena com uns lábios protuberantes e engalfinharam-se através de uma porta para um apartamento onde se brindava copos de vinho capitoso. Tratava-se de uma festa particular. O ruído era intenso. Não faltava uma sala para encetar uma dança. Em geral as pessoas estavam animadas. Agitava-se ali um frenesi de gente nova - estudantes, muito provavelmente, a julgar pela mesura com que olhavam os amigos. Na cozinha pululava a algaraviada e havia quem fosse surripiar cerveja ao frigorífico. António e Pedro procuraram divertir-se; queriam surripiar as garrafas de vinho. Emborcavam o vinho soltando golfadas de riso, ora tomando os restos do vinho na manga emporcalhada da camisa. Às tantas, Pedro largou-se numa flâmula; o deboche: as catraias não tinham onde cair de incredulidade. Porém, algo o acometeu: «Não devia ter-me largado» E assim, deprimido até aos olhos, dirigiu-se ao amigo: «Não devia ter-me largado no meio destas pessoas.» António apoiava o amigo. «Ouve - exclamou -, vamos ao andar de cima. Dizem que ergueram um altar a uma vagina».

domingo, 8 de março de 2026

O Homem Mudo

O senhor Marcelo dos Campos estava a passear na rua do Souto. Tinha um assunto premente para resolver, pois que entrou na casa Machado e assim se dirigiu ao proprietário: «Boa tarde. Desejaria adquirir uma bengala de castão em forma de cão de água.» 
- Claro, excelentíssimo senhor. Aqui tem - estendendo o exemplar no balcão de serventia. - Não é definitivamente do seu agrado?
- Definitivamente.
Após haver procedido ao pagamento, no qual havia desembolsado nota frescas acabadas de sair da máquina, o senhor Marcelo abandonou a loja. Porém, algo de muito inusitado aconteceu. O senhor Marcelo amparou a bengala num traço de porcaria. Isto só por si não é nada de muito invulgar - se, ao menos, a bengala despegasse da porcaria. «Que significa esta circunstância? Que pau de dois bicos?» Ali estava um senhor Marcelo dos Campos austero a tentar desenvencilhar a sua bengala de castão em forma de cão de água para nada. Pelos vistos um pobrezinho tentou introduzir a espátula, mas foi logo enxutado por um cada vez mais possesso senhor Marcelo. Todavia, o proprietário da casa Machado, ao ver os desenhos do autoproclamado Homem Mudo nas paredes diante da sua loja, acorreu ao senhor Marcelo. Não sabemos por que artes mágicas aquele fenómeno estava associado ao Homem Mudo. O certo é que o senhor Marcelo comprou uma lata de tinta e rolo de parede para nesse instante apagar as mensagens do Homem Mudo, figura proeminente das artes de rua da vetusta cidade de Braga. E como se não constassem mensagem subliminares na parede, o senhor Marcelo dos Campos desata num trote desenfreado para alcançar o estafermo. «Julga provavelmente que vou cair nas graças dele» Ali apenas ficou a bengala grudada no chão.

Querubim

O senhor Querubim estava a modos que a repousar na beira da cama após uma faxina copiosa pelo quarto. Neste somenos, adormeceu. Foi um viagem e tanto. Teresa de Jesus estava contrafeita. Nunca viu semelhante. «Tipo panão» O facto do senhor Querubim ter aspirado o seu quarto e esfregado o chão mesmo nos compartimentos contíguos, não oferecia ao leitor a verdadeira grandeza sobre o que ele sentia pelo trabalho. O tédio mortal corroía a sua alma jovem. E não menos importante as palavras de Teresa de Jesus: «Só lá vai com o pau de marmeleiro.» 
 - Acorda, malandrim. - Mas o senhor Querubim estava pespegado.
Até àquele momento o senhor Querubim estivera a sonhar. Nunca antes lhe havia sucedido semelhante. Sonhou que o mundo havia sucumbido a uma Peste. Vejamos, portanto, em que sonha o senhor Querubim. O senhor Querubim estava a passear pela cercania quando se acercou de um muro alto. Esse murro alto ladeava um terreno baldio para uma via férrea. Ao descer por uma escadas íngremes através desse muro, constatou que havia uma fonte em pedra desbravada no solo. Continuou por um caminho deprimido, deparando-se com a via férrea do outro lado de uma cerca alta para eventuais suicidas. E ali permaneceu, observando os comboios passar. À medida que os comboios passavam, apercebeu-se que as pessoas eram levadas para o confim. As pessoas estavam debilitadas, soltavam uivos desesperados, e Querubim permanecia impávido. Porém, algo o despertou daquela sensação algo trágica de abandono. Por cima da sua cabeça, debruçada sobre o muro, Teresa de Jesus chamava por ele por meio de trejeitos com um pau de marmeleiro. «Vamos ser trucidados!» - disse, à medida que é confrangido pelo vento. - Ó homem, acorda. Estás maluquinho? É açorda! Estava a olhar para ti. Que jeito!


quinta-feira, 5 de março de 2026

Ode ao cigarro

É tanta a maleita que me atormenta, 
Tanto assombro que me assola 
Tanto bicho que me estiola... 
Que nada mais me atenta. 

Decido pois fumar... 
Isto, para me prodigalizar - 
Para sair da apoquentação: 
Único alento nesta hora de pasmar... 

A dor é muita e não há purgante 
Senão este café matinal
 - Ou, por um caminho atonal - 
Um lixado de um cigarro possante. 

E este cigarro já morreu... 
É então que atento o Torniquete... 
Já o vislumbro, já o adivinho... 
Já me assola feito gato selvagem que me ataca de mansinho. 

Todas as manhãs me dirijo lá 
Numa pequena viagem de paquete. 
A chávena desliza na mesa e a sensação de desamparo insiste. 
É ela, a dor triste... 

To be continued... 
- Ou não se chama ode

domingo, 1 de março de 2026

Okapi

Às tantas estávamos na sala da senhoria - sempre no cuidado para ela não entrar de supetão - quando o meu amigo se dignou a tirar uma folha A4 com um texto imprimido para entregar a um professor. O João estava como que entregue aos bichos. O texto mais ou menos resumido rezava a sua insatisfação para com a matéria leccionada. Posto isto, estirei uma folha do caderno onde eu próprio escrevi uma novena: 

Bom dia pessoas que adoram os abraços. Ó meu deus, os abraços! Os abraços fraternos entre os amigos da velha cepa, abraços mesmo onde a comicidade. Enfim, abraços. Mesmo aquele abraço prenhe de amor nos braços descarnados da velha mãe, que no fim tem o sentido claro de unção. Um qualquer abraço basta para nos sentirmos achados. 

Os meus amigos mal se contiveram. Pareciam acossados depois de provar um vinho carrascão. Aliás, choravam de tanto rir. Tinha sido uma noite improvável a escrever poemas e lá para fim qualquer coisa sobre abraços. Não faltava o poema sui generis de uma noite de amor fogoso com uma mulher. Ou como o título «Portas a Bater, Não» os fez saltar de riso. Às tantas davam largas ao mais alto atrevimento. 

O sol desceu para dar lugar a uma noite de regressos e embarques através das luzes dos comboios que se projectavam ao largo. Estávamos diante do velho gira-discos, tentando queimar tempo a ouvir as bandas que tanto gostávamos. Acontece que poupara um tempo antes de sair para engomar uma t-shirt. Escusado será dizer que eles peneiravam com a situação. Era apenas uma t-shirt que convinha ser passada a ferro. Bem, o ferro de engomar estava a queimar o tecido do sofá. Resumindo, o sofá foi mandado arranjar no dia seguinte num estofador. E para completo assombro da senhoria, não havia sofá. Nada. Rigorosamente nada. Apenas o televisor e uma estante. Com o susto, esta soltou um grito de dor.


A mulher extremamente alta

O senhor Américo estava na senda de um novo compromisso; tinha necessidade de empreender uma vida nova com alguém que o levasse pelo caminho inebriante do amor. O senhor Américo vinha pela rua e ao passar diante de um montra constatou que a calça se engalfinhava de forma verdadeiramente indistinta na barriga da perna, e tendo constatado que a calça não tinha sido rigorosamente engomada, pensou em como seria excitante perder-se de amores por uma bela mulher dotada para a lida doméstica e os trabalhos manuais. Imaginava como seria extravagante vestir a toilette de acordo com o princípio e ordem de uma mulherzinha. «Ui, vestir umas calças de ganga da cor do chocolate!» Instalou-se portanto num restaurante acolhedor e pediu o menu. Pelos vistos mandou vir um bacalhau à Narcisa que muito lhe aguçou o apetite. «Ah - o senhor Américo sonhava -, o quão eu daria por enlear a minha mão numa mãozinha redondinha e terna.» Depois de saciado, pediu uma bica e saiu, não sem antes pagar com notas frescas acabadas de sair da máquina automática. «Sabe uma coisa? - disse o senhor Américo ao empregado de mesa com dente à porfia -, fique com esta nota que eu hoje estou um "mãos-largas". Saiu para a rua e decidiu visitar uma senhora bem conhecida, a velha septuagenária Adélia, vadia de condição, analfabeta e doida. «Porque me procura? - perguntou a velha em cabelo na porta entreaberta. «Quero comprar um dos seus passarinhos, mãezinha. «Valha-me Deus, você é um ordinário. «Ordinário? - espantou-se o senhor Américo. «Eu sei perfeitamente o que você deseja! Quer levantar a saia a uma velha mulher. «Olha que esta! - exclamou o senhor Américo -; não haja dúvida: uma pessoa fala de alho e a velha compreende bugalho. Porque haveria eu de querer levantar a saia, velha macaquinha? Sou um homem na flor da idade! «Então diga o que pretende de mim, ora essa! «Não é por ventura a mãezinha que tem aves à venda? Pois bem, desejo comprar um passarinho. «Um passarinho? Que género de passarinho; um papagaio? - disse a velha deslumbrada. «Não, um passarinho pequeno. «Um canário? Isso, isso! Após se estabelecer o contrato, o senhor Américo foi directamente para casa, levando consigo uma gaiola dentro do qual piava um canário.  Pelo caminho surpreendeu-se com algo absolutamente inaudito. Uma mulher, extremamente alta, vinha na sua direcção, a mulher mais alta que qualquer outra mulher que o senhor Américo, mesmo em sonhos mais extravagantes, jamais vira. «Puxa - disse, apoiando com temeridade a mão na perna muito longa da mulher -, tu és mesmo alta... Consegues ouvir-me aí em cima?» Pelos vistos a mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos conseguia ouvir o senhor Américo perfeitamente e mais claro do que o senhor Américo julgava. «E bates muitas vezes com a cabeça nos arcos de alvenaria? A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos evitava passar debaixo dos arcos de alvenaria. «Ouve - continuou o senhor Américo colocando a mão em pala -, não é muito habitual usares saia rodada, pois não?» A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos preferia calças de ganga a uma saia rodada ordinária. «É que assim é mais conveniente, percebes? Vê-se tudo, eheheh!» A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível, colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha; pelos vistos isso não era matéria que respeitasse ao senhor Américo. «Já houve alguém que te há cortejado? Olha diz lá. A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos ainda ninguém havia cortejado ninguém, mas se o senhor Américo estivesse interessado numa relação sem compromissos que ela estaria com certeza livre. «Livre como um passarinho? - exaltou-se o senhor Américo. A mulher extremamente alta pelos vistos anuiu que sim. «Vou é precisar de um escadote para chegar aos teus lábios; tens a certeza? A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos soltou um travo imprevidente de jocosidade, concluindo que ela mesma iria fazer os possíveis para manter os lábios do senhor Américo bem frescos. «Que excitante! E parece mal que eu te impinja o dinheiro? A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos se o senhor Américo fosse mauzinho que lhe obrigaria a pintar as unhas dos pés com um rolo de tinta. «Não tinha pensado nisso, minha filha - disse com bonomia o senhor Américo -, realmente só penso em mim. Faz parte do meu carácter. A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos concluiu que isso se resolveria com uma pinça esterilizada.

Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Pare...