sábado, 14 de março de 2026

O bode

Eu achava imensa graça ao professor de Teoria de Design após uma aula, estavam umas cotas junto à secretária dele: E em relação ao Bode? Começou por rir: «Só vocês para me fazerem rir, raparigas. Vocês não sabem estudar. Essa vossa alusão tem a ver com as emoções às quais o próprio indivíduo recorre para se lamentar»  


O senhor Adalberto vinha pela rua em trote deveras apressado, tropeçando ostensivamente na calçada para chegar a uma casa térrea onde residia um conhecido bruxo. Resfolgou diante da referida casa térrea e bateu à porta com fortes pontadas de desespero e choro escarlate. Demorou algum tempo até que alguém viesse atender. Uma figura absolutamente hedionda entreabriu a porta, e Adalberto constatou que se tratava do mordomo do conhecido bruxo, um odre corcunda com face macilenta pejada de cravos. Adalberto esfregou a massa putrefacta das solas noo tapete, subiu uns degraus íngremes até ao primeiro piso, amparando as mãos grossas à parede, e deparou-se com o bruxo sentado a uma secretária, perscrutando-o numa expressão singular. Na sala destacavam-se outras figuras. Umas velhas, envergando uns trapos negros, cirandavam em redor, arrastando uma longa ladainha, ora num tom muito agudo ora sublimado. Numa cadeira, uma mulher robusta e matriarcal, com um colar de orelhas humanas em redor do pescoço, entrava num êxtase. O senhor Adalberto tartamudeou qualquer coisa. O bruxo consentiu sorrir naquela mesma expressão: «Sinto um cheiro nauseabundo desde que o senhor entrou. Não terá calcado qualquer coisa pouco decente? «Sim, é provável… «Mas espere, veja a textura da massa na sola do sapato. Isso parece coisa de bode. «Quer dizer que o senhor adivinhou o que me sucedeu? O bruxo sorriu: «Eu nada adivinhei. Apenas quis verificar que a massa pegada na sola do sapato é coisa de bode. «Isso é incrível, porque a minha mulher julga que possuí um bode. «O senhor está a querer dizer que possuiu um bode? – perguntou o bruxo. «Não, meu amigo. A minha mulher está é convencida que possuí um bode. «Mas se a sua esposa está convencida que o senhor possuiu um bode, isso apenas leva a crer que o senhor, de facto, e por qualquer razão altaneira, possuiu um bode» «Está parvo? – baliu Adalberto.  «Então como quer que o ajude? Quer dizer que não se aproveitou do animal? - indagou o bruxo.  «É claro que não... «Mas o que leva a sua esposa acreditar que possuiu um bode? «Eu não sei… Ela entra num estado muito particular de histeria. «Verdade? – indagou o bruxo obviamente enleado pela história incrível do senhor Adalberto. Dirigiu-se portanto a um compartimento contíguo. Voltou com um crânio nas palmas das mãos. «Faça-me um favor, senhor Adalberto – disse, espargindo umas ramas de fumo brando sobre o crânio –: visualize o bode. «Qual bode! – exclamou Adalberto já desmedidamente inconsolável. – Valha-me Deus, eu não possuí bode nenhum! «Vá, feche os olhos... Procure visualizar o animal. Pelos vistos o senhor Adalberto ficou rendido à subtileza macabra do bruxo: «Estou a imaginar o bode, meu amigo. E parece que tem a marca de uma forja no quadril. E a marca tem a forma de uma inscrição» A marca do mafarrico?! – exclamou o bruxo tropeçando no enlevo da própria revelação: – Que diz a inscrição? - Vela pela quinta pata do cavalo. Vela por mim. Eu sou Segismundo.

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Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Pare...