Avançar para o conteúdo principal

A mulher extremamente alta

O senhor Américo estava na senda de um novo compromisso; tinha necessidade de empreender uma vida nova com alguém que o levasse pelo caminho inebriante do amor. O senhor Américo vinha pela rua e ao passar diante de um montra constatou que a calça se engalfinhava de forma verdadeiramente indistinta na barriga da perna, e tendo constatado que a calça não tinha sido rigorosamente engomada, pensou em como seria excitante perder-se de amores por uma bela mulher dotada para a lida doméstica e os trabalhos manuais. Imaginava como seria extravagante vestir a toilette de acordo com o princípio e ordem de uma mulherzinha. «Ui, vestir umas calças de ganga da cor do chocolate!» Instalou-se portanto num restaurante acolhedor e pediu o menu. Pelos vistos mandou vir um bacalhau à Narcisa que muito lhe aguçou o apetite. «Ah - o senhor Américo sonhava -, o quão eu daria por enlear a minha mão numa mãozinha redondinha e terna.» Depois de saciado, pediu uma bica e saiu, não sem antes pagar com notas frescas acabadas de sair da máquina automática. «Sabe uma coisa? - disse o senhor Américo ao empregado de mesa com dente à porfia -, fique com esta nota que eu hoje estou um "mãos-largas". Saiu para a rua e decidiu visitar uma senhora bem conhecida, a velha septuagenária Adélia, vadia de condição, analfabeta e doida. «Porque me procura? - perguntou a velha em cabelo na porta entreaberta. «Quero comprar um dos seus passarinhos, mãezinha. «Valha-me Deus, você é um ordinário. «Ordinário? - espantou-se o senhor Américo. «Eu sei perfeitamente o que você deseja! Quer levantar a saia a uma velha mulher. «Olha que esta! - exclamou o senhor Américo -; não haja dúvida: uma pessoa fala de alho e a velha compreende bugalho. Porque haveria eu de querer levantar a saia, velha macaquinha? Sou um homem na flor da idade! «Então diga o que pretende de mim, ora essa! «Não é por ventura a mãezinha que tem aves à venda? Pois bem, desejo comprar um passarinho. «Um passarinho? Que género de passarinho; um papagaio? - disse a velha deslumbrada. «Não, um passarinho pequeno. «Um canário? Isso, isso! Após se estabelecer o contrato, o senhor Américo foi directamente para casa, levando consigo uma gaiola dentro do qual piava um canário.  Pelo caminho surpreendeu-se com algo absolutamente inaudito. Uma mulher, extremamente alta, vinha na sua direcção, a mulher mais alta que qualquer outra mulher que o senhor Américo, mesmo em sonhos mais extravagantes, jamais vira. «Puxa - disse, apoiando com temeridade a mão na perna muito longa da mulher -, tu és mesmo alta... Consegues ouvir-me aí em cima?» Pelos vistos a mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos conseguia ouvir o senhor Américo perfeitamente e mais claro do que o senhor Américo julgava. «E bates muitas vezes com a cabeça nos arcos de alvenaria? A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos evitava passar debaixo dos arcos de alvenaria. «Ouve - continuou o senhor Américo colocando a mão em pala -, não é muito habitual usares saia rodada, pois não?» A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos preferia calças de ganga a uma saia rodada ordinária. «É que assim é mais conveniente, percebes? Vê-se tudo, eheheh!» A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível, colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha; pelos vistos isso não era matéria que respeitasse ao senhor Américo. «Já houve alguém que te há cortejado? Olha diz lá. A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos ainda ninguém havia cortejado ninguém, mas se o senhor Américo estivesse interessado numa relação sem compromissos que ela estaria com certeza livre. «Livre como um passarinho? - exaltou-se o senhor Américo. A mulher extremamente alta pelos vistos anuiu que sim. «Vou é precisar de um escadote para chegar aos teus lábios; tens a certeza? A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos soltou um travo imprevidente de jocosidade, concluindo que ela mesma iria fazer os possíveis para manter os lábios do senhor Américo bem frescos. «Que excitante! E parece mal que eu te impinja o dinheiro? A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos se o senhor Américo fosse mauzinho que lhe obrigaria a pintar as unhas dos pés com um rolo de tinta. «Não tinha pensado nisso, minha filha - disse com bonomia o senhor Américo -, realmente só penso em mim. Faz parte do meu carácter. A mulher extremamente alta disse qualquer coisa imperceptível; pelos vistos concluiu que isso se resolveria com uma pinça esterilizada.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Estou a assim a modos que

Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....

Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Parece que se ouviu um grito de dor após um garfo recolher o bife da rabada. Foda-se, que dores do caralho!...  - Oh Paul McCartney. Se estava com fome, pedia. Só que o médico grego tornou vinho em água, para sua completa satisfação. «Então nós pedimos-te para trazer o vinho, e fazes isso?»

Virgulino

O senhor Virgulino estava atravessado no divã. Atirou para o cesto das revistas o suplemento de jornal e pôs-se a contemplar uma caveira na mesa redonda. «Que estranhas criaturas somos quando vistas assim» – pensou. Então, munido de lápis e papel, principiou a esboçar o crânio a partir do modelo diante dele. Subitamente, ficou perplexo – alguma coisa o fez paralisar diante da caveira, pelo que se manteve sério e tomado de uma superstição sem par. «É possível que a caveira se manifeste?» Já se tinham passado largos minutos no fascínio da caveira mas nada de qualquer revelação. Os olhos do senhor Virgulino intumesceram. Do assombroso, tornou-se azul férreo. Dava impressão que o senhor Virgulino estava possuído por um espírito infantil - ainda que salutar -: desejoso de tornar visível a manifestação de um objecto inanimado, como quando, diante da Nossa Senhora do Sameiro, em visitas com a família ao monte da Falperra, assim lhe dirigia: «E tu, Senhora do Sameiro, dar-me-ias a atenção nece...