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Arcimboldo

Vou contar uma história. Mas esta história não é sobre pedras nem sobre flores, tão pouco sobre o que está à direita do Pai. Vou contar portanto uma história verídica. No Marco de Canaveses, quem vai pelas veredas vicinais do Douro deprimido e no entanto singelo, há uma casa. Essa casa está no alto de um outeiro. Foi nessa casa que Arcimboldo passou grande parte da sua infância. Arcimboldo recorda a infância sob um manto de estrelas pontilhados e o medo de mistérios abaulados na boca preta dos pinhais. Ó meu deus, o direito de evocar estas sensações! O espilrar do pastor alemão da simpática vizinha nas noites de cadafalso; os passos reais de um ladrão que não está ali... Mas recordar não é uma aventura; Arcimboldo queria ser pequeno outra vez. Certo dia, Arcimboldo e o primo Francisco Late estavam a jogar ténis. Arcimboldo não tinha especial habilidade para manejar a raquete, mas os seus olhos, cansados agora, refulgiam de alegria quando manejava o pulso magrinho com destreza. «Vamos tomar banho, homem - dizia o Francisco Late - Faz calor como o raio! Já te contei a história quando o meu pai açoitou um limoeiro? «Puxa, açoitou um limoeiro? «Sim. No outro dia erguia-se no ar. Esteve inculcado na terra com uma grande preguiça. O meu pai, como quem não quer a coisa, deu uma sarrafada nele. «Oi, a sério?» Nesse dia estavam lá em casa uns primos afastados emigrados em França. Arcimboldo tentou beijar as faces de uma rapariga mas ela só consentiu um apenas. «Está bem - pensava Arcimboldo para os seus botões -, seja um beijinho.» Porém, aconteceu algo que ainda hoje Arcimboldo recorda não sem um sorriso. Nesse ano, ele estava a aprender a nadar; ainda tinha um pouco medo da parte mais profunda da piscina. Todavia, correu cheio de um grande entusiasmo e mergulhou na parte funda. Ó meu Deus, Arcimboldo estava a ver bolhinhas por todo lado; estava a afogar. Foi quando sentiu uns braços fortes a resgatá-lo muito previdentemente da água; tratava-se do velho Quintas, o alentejano musculado que passava lá em casa para tomar uns banhos. Ele tinha salvo a vida de Arcimboldo. No entanto, sob aquele sol árido do Douro ninguém estava em perigo de perder a vida: «Ó tia - dizia alguém -, o Arcimboldo por pouco afogou.» Vicissitudes.

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