Estou à procura de um filme para ver no meu VCR – pelo menos para recriar um sábado à tarde - quando me deparei com o título na etiqueta de uma cassete: «Demónios». Fiquei um pouco estupefacto; que raio poderia ser aquilo? Liguei a tomada do VCR, coloquei a cassete na porta, colocando a mim mesmo esta questão: Demónios? A fita principiou a rolar, fez-se estática, o ecrã ficou negro, e quando não foi a minha surpresa, vi uma gravação de um episódio qualquer de umas criaturas em desenho animado. «Que é isto?» O ecrã mostrava um amontoado de cor saturada e seres extraplanetários. As vozes soavam como dentro de uma caverna; e no percurso do vídeo surgiam uns efeitos concêntricos terríveis, de lutas entre titãs. Fiquei perturbado. Questionei-me se não fora eu quem gravara aquele mundo inóspito de criaturas e combustão de cores. «Não pode, eu não era tão endiabrado... Quem poderia ter gravado uma coisa assim? Louvado seja Deus, quem coloca uma etiqueta com o dizer Demónios? Ainda é mais perturbador que aquelas criaturas fantásticas. Alguém me emprestou a cassete, tenho a certeza, mas não sei quem. «Que mente tacanha?»
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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