quinta-feira, 19 de março de 2026

O Revés

Estávamos em 2008. Fora uma noite de terror. Nesse ano, decidi deixar os estudos. Eu estava em História da Arte na Universidade do Porto. Evidentemente que não tive aproveitamento escolar, ainda que as idas ao Porto fossem proveitosas para jovem sonambólico como eu. Pois bem, deixei os estudos. Ainda me foi auferido uma bolsa de estudo, mas ao cabo de um semestre vim para Braga. Além disso, as viagens diárias entre Porto e Braga eram muito cansativas. Lembro-me que os meus pais sentiram necessidade de ir ao Porto para ver como progredia. É claro que não me sentia como um peixe na água; ainda assim eles estavam algo preocupados. A minha ida para Aveiro fora um fracasso, sobre isso não havia dúvida, mas ainda assim permitiam esse estado de coisas. Afinal fora em Aveiro que a minha doença se manifestou. Todavia, quando voltei do Porto, acomodei-me. Muita das vezes procurava estímulos aquando das noites de Braga. Saía à noite, mas não era propriamente amigos que procurava. Por certo que frequentei alguns bares badalados de Braga, mas sempre sem amigos. Pois bem, certa noite vim do estaleiro da Velha-a-branca... (Era ali que encontrava entusiasmo para conviver, ainda que sozinho. Às tantas, encontrava velhos amigos e colegas. Lembro-me inclusive do Bunker, um bar muito bem frequentado na rua do Raio. Era ali que me achava muita das vezes... Um período houve que privei com um grupo de amigos após esse frenesi em Braga, hoje bem-sucedidos. Eu não queria nada frequentar a noite por mim próprio.) Como dizia, certa noite vim do estaleiro da Velha-a-branca. Eu tinha procurado alguém que me vendeu haxixe. Desde essa noite, a minha vida sofreu um revés. Desde essa noite, não mais fui o mesmo. Eu disse revés, e disse muito a propósito. Desde então, deixei a vida boémia. Essa noite foi por de mais horrível. Trata-se do meu primeiro ataque de pânico. Literalmente, morri. Sobretudo do susto que sofri. Era noite cerrada, passava da meia noite, os meus pais estavam a dormir. Decidi fumar um charro à janela da cozinha. No entanto, estava receoso para não acordar a minha mãe. Foi precisamente por causa disso que me abismei. Eu estava em alerta, com medo que a minha mãe irrompesse para me admoestar. E, no entanto, fumei. Fumei apenas uma partícula de fumo; tão pouco fui capaz de fumar o charro inteiro; aquilo apanhou-me de chofre. Eu estava literalmente em pânico. Estava tão em pânico e assustado, e tão fora de mim, que procurei a ajuda da minha mãe. Sim, eu acorri à minha mãe. Acendi a luz e chamei por ela, apoquentado. Eu estava a fumar e pedi que me acudisse. Que havia fumado haxixe. Deitamos portanto a partícula de haxixe pela janela momentos depois. Eu estava a entrar num estado particular de pânico, estava em catarse, sobretudo porque sentia que o meu aparelho respiratório, ao nível da garganta, não se sustinha. A minha mãe olhava incrédula, como que sem esperança. Eu estava a agoniar e queixava-me como uma criança. A minha mãe pedia-me para deitar. A própria Xana, ainda pequena, procurava, ainda que sobressaltada, brincar. A minha mãe rogava-me. Foi então que ouvi a respiração dela, junto a mim quando me deitei á sua beira. Foi das experiências mais avassaladoras que senti. Era noite cerrada. O som da sua respiração parecia o som concêntrico de órbitas extraplanetárias. Se finjo esta sensação? Não, eram sons de órbitas. Fica ao vosso preceito. Eu estava completamente dominado por aquilo. Pela droga e pela sensação de pânico. Desde logo, a órbita. Quando me restabeleci (eu não me restabeleci, ainda que tenha sentido algum alívio após a sofreguidão), ouvi claramente, ou tive a percepção do riso de um demónio no exterior, como que a desapartar daquelas bandas. Desde então, não fui o mesmo. Desde então, algo no meu organismo sofreu uma mudança. Não mais fumei, tão traumática aquela experiência. Todavia, este foi o primeiro gatilho. Desde essa noite que sinto o mesmo embotamento. Fui ao Hospital no dia seguinte; fiquei a soro. Lembro-me do médico que me auscultou, que me tratou por amigo com jovialidade. O dia seguinte e posteriormente andava muito apático e doente. Lembro-me principalmente da minha mãe vindo ao longe, rosto esquálido, depois do episódio. Creio que o meu pai ouviu toda aquela comoção no quarto contíguo, mas não se prestou. Deve ter ouvido os meus berros como que berros assoberbados. 


 

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Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Pare...