Às tantas estávamos na sala da senhoria - sempre no cuidado para ela não entrar de supetão - quando o meu amigo se dignou a tirar uma folha A4 com um texto imprimido para entregar a um professor. O João estava como que entregue aos bichos. O texto mais ou menos resumido rezava a sua insatisfação para com a matéria leccionada. Posto isto, estirei uma folha do caderno onde eu próprio escrevi uma novena:
Bom dia pessoas que adoram os abraços. Ó meu deus, os abraços! Os abraços fraternos entre os amigos da velha cepa, abraços mesmo onde a comicidade. Enfim, abraços. Mesmo aquele abraço prenhe de amor nos braços descarnados da velha mãe, que no fim tem o sentido claro de unção. Um qualquer abraço basta para nos sentirmos achados.
Os meus amigos mal se contiveram. Pareciam acossados depois de provar um vinho carrascão. Aliás, choravam de tanto rir. Tinha sido uma noite improvável a escrever poemas e lá para fim qualquer coisa sobre abraços. Não faltava o poema sui generis de uma noite de amor fogoso com uma mulher. Ou como o título «Portas a Bater, Não» os fez saltar de riso. Às tantas davam largas ao mais alto atrevimento.
O sol desceu para dar lugar a uma noite de regressos e embarques através das luzes dos comboios que se projectavam ao largo. Estávamos diante do velho gira-discos, tentando queimar tempo a ouvir as bandas que tanto gostávamos. Acontece que poupara um tempo antes de sair para engomar uma t-shirt. Escusado será dizer que eles peneiravam com a situação. Era apenas uma t-shirt que convinha ser passada a ferro. Bem, o ferro de engomar estava a queimar o tecido do sofá. Resumindo, o sofá foi mandado arranjar no dia seguinte num estofador. E para completo assombro da senhoria, não havia sofá. Nada. Rigorosamente nada. Apenas o televisor e uma estante. Com o susto, esta soltou um grito de dor.
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