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São Gonçalinho

São Gonçalinho entrou em casa dos sogros num recobro de alma; a guitarra dos Rolling Stones, que ele vinha ouvindo no leitor de cassetes, estava em ponto rebuçado. «Mãezinha, chegou o meu Gonçalinho! Olá, amor. «Olá - retribuiu com um beijo terno. A sogra embiocou-se; aquelas calças largonas deixavam muito a desejar. «Mariconço - pensou para os botões. Gonçalo atirou uma madeixa para o lado, e beijou a face da sogra. Debicou com beijinhos Bourbon, o cão de família, que rodopiou a um sinal e sentou-se na ponta de uma cadeira, observando de chofre o José Rodrigues dos Santos na telly. «Este José Rodrigues dos Santos é tão erudito. Não acha, Gonçalinho? - atirou a velha para aquele lado. «Sim, de facto é muito carismático.» A velha por pouco não atirou com um comentário ainda mais vexante. Mas conteve-se e azedou diante de um Rodrigues dos Santos que atirava com o eterno piscar do olho. «Eheheh - sorriu São Gonçalinho. «O que tem? - perguntou a velha, descrente. 
- Ó Purita - atirou o homem a um canto da mesa de jantar rasgando com uma meticulosidade cândida o naco de pão da boca -, até dá impressão que estás com os azeites. «Eheheh - sorriu o rapaz. 
- Ó mori - acorreu a rapariga vindo da cozinha como que acossada de riso -, queres ver o bolo que eu estou fazer? «Por que ris - sorriu São Gonçalinho. «Haha - baliu a rapariga escondendo por instante o rosto -, o bolo está completamente ensopado. 
- Que tentaste fazer; um preto musculado de chocolate? Queres que te ajude?
- Não acho que vá servir de nada - atirou a velha. 
Nisto o rapaz sentiu uma leve crispação no estômago. Mas não pôde conter-se; largou uma flatulência. Bourbon sorveu aquele aroma quente. A velha Purita embiocou o nariz: «Bourbon, sai daqui. Por amor de Deus. «Puxa, julguei que seria o meu fim - pensou São Gonçalinho -, a velha nem notou que fora eu quem se largou.» Cinco minutos depois Gonçalo sentiu a mesma crispação nos intestinos; mas desta vez decidiu ir mais longe. Largou-se desnatradamente. A velha olhou Bourbon sob as lunetas. «Bourbon...» O rapaz sorriu candidamente. Foi então que decidiu largar-se numa flâmula: aquilo soou nas quatro paredes como um sustenido de um fagote. Purita, caída de um sonho, atirou assustada: 
- Foge, Bourbon! Foge que ele mata-te!

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