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Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2025

Infraestrutura

Ainda estou à toa por causa de um pesadelo. Sonhei que a infraestrutura que imperava colapsou. As pessoas estavam de pré-aviso. E todavia, o tempo veio e as bases do edifício implodiram com um estampido no silêncio após uma banda dar um sinal de cornetas. Estava eu nas imediações como num recreio. «E ninguém avisou?» Começou tudo a correr para os abrigos, inslusive eu. Nem tive tempo de me despedir. Fiquei ali mesmo debaixo de escombros em água que subiu por mim. É o meu fim, pensei à medida que a água subiu e os destroços caíram. Estava eu em casa à mesma hora de sempre. 3h da madrugada.

Buraca

Pior só a casa sem telhado do Candimba na Buraca. Eu estava a ver o céu. Uma altura estávamos num snack bar quando o filho mais velho principiou um fado. Pelos vistos o irmão estava ansioso e apertou um cálice que estilhaçou na mão. «Então vocês fazem esta desfeita diante do António e do filho?» Lembro-me perfeitamente quando atracamos na Buraca. Andávamos à procura do Armando era noite. Pelos vistos, o Armando surgiu numa scooter. «Meu amigo! Há tanto tempo» António? E abraçaram-se fraternalmente. Lembro-me que aquele abraço nada se coadunava. 

Virgulino

O senhor Virgulino estava atravessado no divã. Atirou para o cesto das revistas o suplemento de jornal e pôs-se a contemplar uma caveira postava na mesa redonda. «Que estranhas criaturas somos quando vistas assim» – pensou para si mesmo. Então muniu-se de um lápis e papel e principiou a esboçar o crânio a partir do modelo diante dele. Subitamente, ficou perplexo – alguma coisa o fez paralisar diante da caveira, pelo que se manteve sério e tomado de uma superstição sem par. «É possível que a caveira se manifeste?» Já se tinham passado largos minutos no fascínio da caveira mas nenhuma magia dava azo a qualquer revelação. Os olhos do senhor Virgulino intumesceram. Do assombroso, torna-se de azul férreo. Dava impressão que o senhor Virgulino estava possuído pelo espírito infantil, ainda que salutar, no desejo obscuro de tornar visível a manifestação de um objecto inanimado, como quando, diante da Nossa Senhora do Sameiro, em visitas com a família ao monte da Falperra, se mantinha seguro qu...

Pessoa

O meu tio contou sobre o homem que dizia que o gajo lá em cima estava a arrastar as cadeiras aquando da trovoada, mas que se queixou a Deus quando decepou os dedos numa lâmina. Tinha o meu tio quinze anos. Era o Pessoa. Pessoa de apelido, e não de alcunha. - E tu como sabes?  «Você é que estava a pedir misericórdia a Nossa Senhora e a Deus Nosso Senhor» - Homessa. Olha que as crianças...

Professor

O Bruno dos Santos é que riu porque o professor disse que o Vincent não cortou a orelha, que era muito provavelmente um mito. E disse com rispidez. Foi esse professor que tirou partido do meu desenho do Gogol, estava a Cláudia a peneirar com as amigas. Pelos vistos, estava comovido numa aula, pelo que à saída da sala, estando eu a espera do meu amigo, o Bruno dos Santos acorreu para ampará-lo num gesto de benevolência. 

Rui Bandeira na Cidade

Certa vez vi o casamenteiro fugir entre a raia miúda; quis alcançá-lo para o abordar, mas ele foi muito astuto e esquivou-se diante dos meus olhos. Isto passou-se. Dias depois, entrei numa taberna. Estava a tentar superar um quotidiano atribulado, pelo que decidi cobrar uns soldos por uma refeição campestre. O comboio para o Porto partia às 15h, dentro de duas horas. Entrei portanto na taberna não sem um entusiasmo; havia uma azáfama enorme, trabalhadores da construção civil com apupos, velhas mulas de ventas tacanhas num menoscabo, ora angolanos a soçobrar, entre os quais Mogadíscio - enorme a azáfama. Entretanto, sucedeu uma cadência, ouviu-se o atrito de um automóvel e a taberna mergulhou no silêncio. A conversa entre os angolanos amainou. Mogadíscio ainda esperava a refeição. A televisão atirou com os mesmos anúncios de electrodomésticos de quinta ordem. Neste somenos, a gaiata matrafona com seios fartos serviu um prato de barro bem composto a Mogadíscio; incrédulo, mostrou um sorr...

The Man Comes Around

O senhor Augusto não tem com nada: deposita um montante não declarado numa conta offshore. Como tal, riu. Porém, a maçaneta da porta parece rodar no escuro. «Quem vem lá?» - diz o senhor Augusto naquela direcção. - Diz-me - assume uma voz -: tens medo do quê?

O Altar

PARTE II/III Certa vez decidiram descer à cidade pela calada. Aproveitaram o convite de uma morena com uns lábios protuberantes e engalfinharam-se através de uma porta para um apartamento onde se brindava copos de vinho capitoso. Tratava-se de uma festa particular. O ruído era intenso; não faltava uma sala para encetar uma dança. Em geral as pessoas estavam animadas. Agitava-se ali um frenesi de gente nova - estudantes, muito provavelmente, a julgar pela mesura com que olhavam os amigos. Na cozinha pululava a algaraviada e havia quem fosse surripiar cerveja ao frigorífico. António e Pedro procuraram divertir-se; queriam surripiar as garrafas de vinho. Emborcavam o vinho soltando golfadas de hilaridade, ora tomando os restos do vinho na manga emporcalhada da camisa. Às tantas Pedro largou-se numa flâmula; o deboche: as catraias não tinham onde cair de incredulidade. Porém, algo o acometeu: «Não devia ter-me largado» E assim, deprimido até aos olhos, dirigiu-se ao amigo: «Não devia ter-m...

Menino

José estugou diante de Maria. Uma ansiedade estonteante compelia-o para encontrar abrigo. Uma ansiedade de doudo. Por instantes, vislumbrou um caminho desbravado além de uma moita, que metia para uma espécie de nicho. José atirou para ali desabrido. «Vem, Maria...» Disse ele debaixo do céu cristalino. - E como achas que posso? - disse Maria. - Estás acometido. O homem lá malhou entre a vegetação, vingando as ervas. «Desculpa - murmurou entre os dentes feéricos - eu ajudo.» Todavia, parecia-lhe impossível transpôr o baldio com a mulher de alçada, ali respigados. «Ajuda-me, Zeca! - disse Maria desesperançada. - Ó meus filhos - disse uma voz à boca do nicho com uma tocha em riste. - Que é de vós? Pelos vistos, surgiu um segundo indivíduo de mãos na anca. Neste somenos, surgiu um outro par de olhos pela luz do archote. Ora, tratava-se de um negro vindo das profundezas. Nada mais - conquanto o sorriso encantador, quiçá mais ostensivo e fogoso. Os três homem trouxeram portanto os dois jovens...

ENO

Cacioli

Havia uma fotografia lá casa com a Tuna Académica em que o Cacioli parece advertir para câmara estando o meu pai cheio de uma presunção a encher o copo de sacada: «Então canta»    

Tota

Vou contar uma história engraçada sobre a Tota, a nossa rola de estimação. Isto decorreu no meu antigo apartamento. Sim, nós de facto possuíamos uma rola num apartamento. Havia a própria gaiola, etc, mas... O que é aquilo que atravessa agora o chão do corredor? Sim, a Tota não voava dentro de casa. Ela queria ser como nós, com as pernas e os pés no chão. Contudo, voava, porque eu, rapazola, dava largas para ela dar um giro na cozinha. Não faltava o serão no ombral do sofá. Ora, muitas vezes eu passava na loja de vídeos para alugar um suspense para mim e os meus pais. Só eu possuía a destreza de os surpreender com as minhas escolhas. Diziam eles, claro. «Vai buscar um daqueles teus dramas» Pelo que a rola passava connosco o serão a ver o bom velho suspense. Às tantas, a Tota já ferrava. Uma certa vez, todavia, a Tota voou janela fora. Ora bolas, que frenesi, o nosso! A Tota! A nossa querida Tota! Pois bem, o meu pai foi bastante afoito, estando ela numa árvore próxima. Fez o assobio pr...

Cartola

Uma altura também acorri do corredor com uma cartola, estavam os meus pais a rir: «O que é que ele tem?» - não sei...

Jason

 

Os gatos

Mensagem antiga constante no arquivo de Cromeleque dos Danados Esta noite tive um sonho hiper-realista. Sonhei que era perseguido por gatos raivosos... Eu esfalfava, eu trepava; os gatos pareciam cientes. Estava algures numa casa terrivelmente espaçosa sem comunicação para o exterior. Como se não bastasse, a cada momento era correspondido via postal por um ex-colega.