Certa vez vi o casamenteiro fugir entre a raia miúda; quis alcançá-lo para o abordar, mas ele foi muito astuto e esquivou-se diante dos meus olhos. Isto passou-se. Dias depois, entrei numa taberna. Estava a tentar superar um quotidiano atribulado, pelo que decidi cobrar uns soldos por uma refeição campestre. O comboio para o Porto partia às 15h, dentro de duas horas. Entrei portanto na taberna não sem um entusiasmo; havia uma azáfama enorme, trabalhadores da construção civil com apupos, velhas mulas de ventas tacanhas num menoscabo, ora angolanos a soçobrar, entre os quais Mogadíscio - enorme a azáfama. Entretanto, sucedeu uma cadência, ouviu-se o atrito de um automóvel e a taberna mergulhou no silêncio. A conversa entre os angolanos amainou. Mogadíscio ainda esperava a refeição. A televisão atirou com os mesmos anúncios de electrodomésticos de quinta ordem. Neste somenos, a gaiata matrafona com seios fartos serviu um prato de barro bem composto a Mogadíscio; incrédulo, mostrou um sorriso estampado no rosto: Tits. «É para comer tudo - retribuiu a matrafona, sorrindo. Os restantes sorriram; eu sorri. Tentava agora assoar o nariz com um lenço de papel quando me apercebo de algo ou alguma coisa que avança intercaladamente, sombriamente, através das janelas. «Epá - disse eu, precipitando-me sobre a matrafona. Sim, aquilo avançava destemido, precisamente por aquelas vias. «Passa-se alguma coisa? - disse a matrafona. «Haja paciência - atirou Mogadíscio. «Não, não é nada - suspirei, procurando perceber -; vi uma pessoa que eu conheço. O gajo havia escapado entre os meus dedos. Preferia ter agarrado a manga do casaco. Ainda hoje aquela situação soçobra como um mistério.
Braga, 5 de Maio de 2021 Embora tenha editado o poema, esta é a última edição guardada. Quero estar no meu quarto, (Porque eu adoro o meu quarto) E ter esta percepção genuína: Eu embrenhado na noite... Que trato! Apenas eu e a escuridão No meu quarto de ameias encerrado Sem janela nem modas apetrechado Movendo entre a mansidão. É um consolo que me assiste O estar aqui dentro sem haver lá fora Ser eu próprio, aqui e agora Onde a música religiosa atriste. Prelúdio para uma noite cerrada, Clarinete dentre o quarto hermético E musicalidade ao meu ouvido estético, A nada errante a sons prelada. Que seja esta religiosidade musical, Esta religiosidade latente aos meus ouvidos A primavera atonal dos meus sentidos E nem sempre estes versos avulsos capital. Recordar esta noite que me sustém... Carregada de breu, em tudo abaulada. Fora dos meus nervos, então desarranjada... Aconteceu-me a noite em Belém. E os guizos são outros, revelados. E faz crer que o quarto está a léguas Ainda que alta lassi...
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