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A Autodidacta

Agora que influenciou os amigos a meu respeito - que eles não se sentem perturbados pelo que diz, e me achar a questionar o comportamento deles -, a Autodidacta faz-se imperturbável. Retrato realista de uma psicopata. Sem abrigo ao ponto de lhe oferecerem cabazes, diz-se liberal. 
A Autodidacta, para desafogo da própria, diz querer votar em Marine Le Pen. A Autodidacta é Luso-francesa, creio. O ex-marido, que se divorciou em circunstâncias muito além do recomendado, sofre de doença mental do género obsessivo. A filha de ambos desapareceu durante praticamente dois anos para estar com um indivíduo de situação muito duvidosa. Ambos, mãe e pai, procuraram por intermédio das autoridades desvendar o paradeiro da filha, que no entanto nunca deixou de contactar. A Autodidacta voltou para Portugal. Estabeleceu-se num apartamento a par com uma amiga com quem, suponho eu, reparte as despesas. A filha entretanto voltou para casa do pai, com quem Autodidacta mantém a distância e o mais completo rancor e inimizade. Desde então tem mantido contacto através de e-mail. Estranho? Tudo nesta história é estranho até ao mais ínfimo pormenor. A história de Autodidacta nada tem de rigoroso ou completamente compreensível. Ninguém entre os seus conhecidos é capaz de mergulhar nesta história sem ao menos se deparar com um dúbio pormenor, ou porque Autodidacta está claramente a mentir. É uma omissão com contornos muito peculiares, para não dizer diabólicos (nem eu desejo chegar a tanto). Acontece que Autodidacta é negacionista... Na realidade, não é negacionista nem liberal coisa nenhuma. É uma combinação de factores que levam Autodidacta a pensar deste e daquele modo. Às tantas, é ver Autodidacta viandar pela cidade com os seus sacos de plástico com cadernos de estudo esfarelados onde escreve apontamentos. Autodidacta não tem onde repousar. Pelo que me confidenciaram, vive na rua. Recusa qualquer meio de ajuda, cabazes, etc. E no entanto, vai à biblioteca para fazer dali a sua vida. Muitas das vezes achamo-nos a conversar. Porém, não é não. Não há meio termo. E é bom que eu aprenda isso de uma vez. 
Já tenho reparado que a Autodidacta me olha com despeito, refundida. Claro que sou capaz de respeitar, se isso significar não ter disposição para estar com as pessoas naquele momento. Eu próprio sofro de uma ansiedade que não favorece o entendimento entre pessoas. No caso da Autodidacta, é como se acabássemos de praticar um crime de lesa-majestade. Ou algo imoral que tenhamos dito. O mais preocupante é que Autodidacta não se propõe a ajuda nem a ajuda médica especializada. Conhece algumas septuagenárias com quem mantem conversas para fugir à aparência; e mesmo elas, são descartadas como trapos. Já uma altura, abordei a Autodidacta para comentar que Israel estava a cometer um genocídio. É doente, pensei. Passou as pessoas à entrada da biblioteca e subiu as escadas como que abalada.
Em tempos, disse-lhe que estava disposto a frequentar um curso de serigrafia. Verificou-se abalada como sempre. Estava eu e um amigo utente a conversar, enquanto ela permanecia ligeiramente afastada de nós. Olhou-me de baixo a cima após a cumprimentar. E afastou-se como que ofendida. Desde então é preciso muito cuidado. Psicopatas ou não, as pessoas são estranhas. 

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