Estava um dia de verão abrasador, com sol a estalar na psique, quando Joaquim, ao transpor a porta de entrada do prédio se deparou com pessoas nuas praticando um sexo escaldante. «Que se passa? - pensou - Que mefistofélico, meu Deus!» Ao passar o arco que leva ao centro da vila, deparou-se com um caos... Não apenas o sol estalava de encontro aos vidros das janelas cimeiras dos prédios decrépitos, como todos estavam nus, num apoteótico descalabro de corpos expostos praticando um sexo desgovernado. «Meu Deus! Ó velha - bradou ele para uma sexagenária replicando num menoscabo, nua como um velho papel enxuto - Que se passa com esta gente?» A velha passou sem ao menos pronunciar uma palavra. Joaquim apenas viu aquelas velhas nádegas esquálidas como duas passas. Apartou-se de um homem entrado nos anos, um velho vizinho que o cumprimentava todas as manhãs, e ao colocar a questão premente para aquela apoteose da carne, nada disse; limitou-se a passar ao largo sem uma única palavra, afagando a parte podenda como um velho espectro que vence a canícula. Pela cidade a eito o mesmo cenário; mesmo as catraias, nuas e desalmadas num recreio próprio. No talho praticava-se um sexo mais desenfreado; mulheres metidas na idade dançando com garrafas em riste sobre o ventre capitoso dos homens em cenas de sexo garrido. Os carros sucediam com urros de garridas com os seios frondosos expostos. Joaquim tropeçou após o deslumbramento... Ficara diante de um velho sem queixadas. O seu corpo era verde e torturante; no entanto, sorria desnastrado, com um único dente à porfia e um rádio portátil ouvindo um Depois do Adeus que procurava acompanhar lastimosamente. A pélvica flácida recolhia-se entre um ermo de pelos. De tão assombroso, avermelhou-se diante dos olhos de Joaquim que se debatia ainda no chão. Às tantas um velho pôs-se a acariciar num banco do jardim; a glande estava rubra, expelindo a seiva estarrecidamente, numa litania. Mulheres com seios flácidos e gritantes tocavam-se com animosidade nas vaginas. Joaquim abalou sem olhar para trás, os céus avermelharam-se. Os gemidos mais pungentes das mulheres soçobravam das janelas entreabertas. Urros de homens consolados, ébrios do sexo turbulento. Numa janela cimeira atiravam para os corvos imprevidente.
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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