Por esta altura, já devem estar ao corrente que frequentei Design na Universidade de Aveiro. Foi numa época muito fascinante, logo no início do século. Eu estava bastante bem encaminhado. Fora sobretudo graças aos meus amigos de então. Lembro-me sobretudo de um enorme Buda que eu e o Pedro procuramos pintar com stencil. A nossa intenção era pintar um Buda homogéneo. Porém, a tinta não aderiu. Fora em casa do Pedro. Lembro-me que a mãe do Pedro tirou partido. Estávamos desolados. Entre outras coisas, lembro-me de um trabalho que entreguei em Materiais e Técnicas de Expressão Plástica. Um estudo de uma sala branca com lobos brancos de porcelana. Recordo isto com alguma graça. Também estava muito embrenhado na disciplina de Geometria Descritiva, os rebatimentos e a Verdadeira Grandeza. Aquilo auspiciava. Os meus amigos ajudavam em todo o processo criativo. Tanto, que é a eles que devo a minha ida para Aveiro. Todavia, ainda hoje sonho que estou na Universidade. Evidentemente que não tive aproveitamento, mas não raras as vezes sonho isto com frequência. Aliás, que os sonhos decorrem entre Aveiro e Braga, como se de facto estas cidades confluíssem. Porque Aveiro foi um malogro. Como dizia, estou em Aveiro. Sonho calcorrear aquelas ruas que eu bem conheço, e no entanto tudo se funde com Braga. Uma altura sonhei que estava no Arquivo Distrital de Braga. Sonhei que estava em busca de matéria para estudar. Aquilo era soturno. Como se não bastasse, era noite cerrada. Para minha surpresa, estaquei diante de uma estante que dizia tratar-se de obras da minha autoria. Eu estava embasbacado. Tratei de esgravatar uma gaveta com toda a espécie de trabalhos. Entretanto, entra pela sala, como que a perorar, o director da biblioteca municipal e Ribau Esteves. Acordo e ainda estou ali parvo da vida, até me aperceber que não passa de um sonho.
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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