Certa vez vi o casamenteiro fugir entre a raia miúda; quis alcançá-lo para o abordar, mas ele foi muito astuto e esquivou-se diante dos meus olhos. Isto passou-se. Dias depois, entrei numa taberna. Estava a tentar superar um quotidiano atribulado, pelo que decidi cobrar uns soldos por uma refeição campestre. O comboio para o Porto partia às 15h, dentro de duas horas. Entrei portanto na taberna não sem um entusiasmo; havia uma azáfama enorme, trabalhadores da construção civil em apupos, velhas mulas de ventas tacanhas num menoscabo, ora angolanos a soçobrar, entre os quais Mogadíscio - enorme a azáfama. Entretanto, sucedeu uma cadência, ouviu-se o atrito de um automóvel e a taberna mergulhou no silêncio. A conversa entre os angolanos amainou. Mogadíscio ainda esperava a refeição. A televisão atirou com os mesmos anúncios de electrodomésticos de quinta ordem. Neste somenos, a gaiata matrafona com seios fartos serviu um prato de barro bem composto a Mogadíscio; incrédulo, mostrou um sorriso estampado no rosto: Tits. «É para comer tudo - retribuiu a matrafona, sorrindo. Os restantes sorriram; eu sorri. Tentava agora assoar o nariz com um lenço de papel quando me apercebo de algo ou alguma coisa que avança intercaladamente, sombriamente, através das janelas. «Epá - disse eu, precipitando-me sobre a matrafona. Sim, aquilo avançava destemido, precisamente por aquelas vias. «Passa-se alguma coisa? - disse a matrafona. «Haja paciência - atirou Mogadíscio. «Não, não é nada - suspirei, procurando perceber -; vi uma pessoa que eu conheço. O gajo havia escapado entre os meus dedos. Preferia ter agarrado a manga do casaco. Ainda hoje aquela situação soçobra como um mistério.
Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta-metragem. Foi deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. A conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular). «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório. Eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia sorriam – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos....
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