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Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2026

Mansidão

Braga, 5 de Maio de 2021 Embora tenha editado o poema, esta é a última edição guardada. Quero estar no meu quarto, (Porque eu adoro o meu quarto) E ter esta percepção genuína: Eu embrenhado na noite... Que trato! Apenas eu e a escuridão No meu quarto de ameias encerrado Sem janela nem modas apetrechado Movendo entre a mansidão. É um consolo que me assiste O estar aqui dentro sem haver lá fora Ser eu próprio, aqui e agora Onde a música religiosa atriste. Prelúdio para uma noite cerrada, Clarinete dentre o quarto hermético E musicalidade ao meu ouvido estético, A nada errante a sons prelada. Que seja esta religiosidade musical, Esta religiosidade latente aos meus ouvidos A primavera atonal dos meus sentidos E nem sempre estes versos avulsos capital. Recordar esta noite que me sustém... Carregada de breu, em tudo abaulada. Fora dos meus nervos, então desarranjada... Aconteceu-me a noite em Belém. E os guizos são outros, revelados. E faz crer que o quarto está a léguas Ainda que alta lassi...

Geraldina

Havia uma gaja que dizia para eu não jogar futebol, andava eu no D. Maria II: «Achas bonito andar suado?» Foi num dia em que subi a uma árvore. Eu já a mencionei. É uma gaja mais velha que tinha um trejeito quando me via. Uma altura estava a entrar no Peninsular, estava ela do outro lado da estrada com o trejeito. «Olha, está douda...»  

Never Goin' Back

Ou como diria o Maneli quando lhe disse que haveria de voltar para a Joana, estava ele a passar o pano no balcão de serventia: «Isso é que era. Agora estás a falar de verdade» O Maneli era de mais. Eu bradava melífluo «Oh Maneli...» Uma altura, muito mais tarde, deixei 5 cêntimos de gorjeta no pires, abalando com a minha mãe como dois peixes numa novena. Nós muito rimos no interior do Polo quando ele ficou diante da moeda. Parecíamos duas galinhas. «Oh Manel, ficaste ofendido?» - Eu logo vi que não era coisa boa

Galguicha

E quando a minha mãe e eu estávamos a ver um comboio passar cá em baixo, estando nós na ponte? Vira-se ela para um homem após se afastar um pouco mais para um terreno baldio directamente abaixo: «O senhor estava a pensar que eu queria atirar-me lá para baixo» - Eu sei lá, minha senhora... Pior só a peripécia - aqui descrita do blogue - dos envelopes de antraz: «Atenção meninos, mas isto pode ser Antrax». Meu Deus, que constrangedor.   

Nineteen Century Man

Olha que eu perdi tudo que é mensagem do Cromeleque dos Danados, inclusive Maus Hálitos. Maus Hálitos estava tão bem. Foi numa noite em que fui aos Maus Hábitos e encontrei o Salgado à entrada do tugúrio: «Eu acho que aí é uma casa de banho» Entretanto, lembrei-me d'O Mapa. Era uma história caricata sobre um homem que foi na peugada do filho que escreveu uma carta em cujo subscrito constava um mapa. O homem até sonhou que viu o filho numa espécie de construção em argila em Jerusalém, inclusive que abordou Jesus no caminho do Calvário: «O teu filho tem imensa graça... Diz que não sou Deus; mas filho dele. Foi qualquer coisa que ouviu na escola» (...), pelo que o pai subiu um lanço de escadas para um apartamento, estava o filho degolado após se suicidar.

Roberto Carlos

Isso era o Mário Jorge no liceu, éramos nós uns miúdos do 9.º ano. «Vocês viram o Roberto Carlos a receber o queima roupa no peito?» Eu achei piada, até porque também tinha visto. O Mário Jorge era um must. Ele era só Jorge, mas colocava diante da professora o papel a identificar o Mário e o Jorge, do seu lado. Mário Jorge mais não era que uma personagem fictícia do Big Show Sic, que revelava ser gay. O que eu ria. «Tu agora vais ficar quietinho, Mário Jorge» - Eu ou o Mário?

Luta entre titãs

O leitor por ventura já assistiu a uma luta entre irmãos gémeos ciganos? Franscisco Late e eu vínhamos no 40 via Robert Smith quando decidimos sair na paragem Abade Loureira. Certamente não será um refúgio de Sábado à tarde para dois jovens se divertir, mas Francisco Late ponderou retratar, dias antes, a atmosfera daquele mesmo bairro, onde a vida decorre benevolente. Saímos de chofre do autocarro juntamente com velhas septuagenárias sorridentes. Vínhamos debitando piadas - sorvendo o aroma intenso a flores fúnebres, quando nos deparamos com algo ao virar da esquina... O cigano tinha acabado de lutar com o irmão gémeo, outro mentecapto desordeiro da sua criação, e estava embriagado. Melindrada, o olhar dela parou. «Que Deus te perdoe!» – disse. A velha de luto negro descarnou da sua fragilidade. Ele ripostou, destemido: «És uma valente puta! - E sacudido dos lados por um velho pai extremoso, acrescentou ainda mais asqueroso: - Puta!» Fora um novo e implacável arremesso a que ela não ol...

Anxo da Morte

Desde o início que o homenzinho tisnado e severo me provocou enjoo. Era uma espécie de príncipe adornado e mesquinho a quem todos chamam a sua macaquinha. Todavia, tornara-se perverso e frívolo como uma mulher frágil. Era sobretudo aquela obscenidade latente nos olhos endurecidos, na porca luxúria de ensejos abaulados por tudo o que respirasse sensualidade. A minha infância decorreu sem quaisquer privações, muito burguesmente instalado na casa da minha infância. A adolescência veio com o seu estribilho inconsequente para agarrar as saias com bolinhas amarelas das putéfias de olhos tigrados. Entretanto eu consolidei a minha amizade com o homenzinho tisnado e severo; mas sentia um dó crescendo quando este arreganhava os dentes pornográficos. Sentia um dó lastimável e nauseante da sua vilania, daquela vilania que alberga na sua boca preta. O dedo hirto - é tudo quanto eu me posso recordar. Depois veio a censura. Tornara-se acérrimo delactor da minha pessoa. Era vê-lo arreganhar os dentes ...

Um cigarro para o menino

Olá, pessoas. Já devem estar ao corrente que eu vou à Biblioteca todas as manhãs. Tornou-se automático. Entro no autocarro de São Pedro às 7h55, e rumo até à Avenida Central. Acontece porém que conheci um moço que me acompanha Rua do Souto abaixo. Isto, porque há uns meses - estava eu a atravessar a Rua 25 de Abril para ir ao supermercado - um jovem me abordou para me pedir um cigarro. És muito novo para fumar, disse. Desculpa, mas não posso. Ainda estivemos ali a discorrer sobre os malefícios do cigarro, e despedimo-nos. Mais tarde, fui eu quem o abordou após sair na Avenida Central. «Não és tu quem me pediu um cigarro?» Disse que sim, sorrindo sob a penugem do lábio superior castiço. Não lhe dei um cigarro; mas à medida que fomos conversando, continuamos o tema anterior: O tabaco é muito prejudicial à saúde; nem tu devias ter motivo de orgulho. «Eu já fumei um maço de cigarros por dia. Já estive viciado, só que dei a volta» Estás a ver? Isso não é coisa que se diga. «Vou-te oferecer ...