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Um cigarro para o menino

Olá, pessoas. Já devem estar ao corrente que eu vou à Biblioteca todas as manhãs. Tornou-se automático. Entro no autocarro de São Pedro às 7h55, e rumo até à Avenida Central. Acontece porém que conheci um moço que me acompanha Rua do Souto abaixo. Isto, porque há uns meses - estava eu a atravessar a Rua 25 de Abril para ir ao supermercado - um jovem me abordou para me pedir um cigarro. És muito novo para fumar, disse. Desculpa, mas não posso. Ainda estivemos ali a discorrer sobre os malefícios do cigarro, e despedimo-nos. Mais tarde, fui eu quem o abordou após sair na Avenida Central. «Não és tu quem me pediu um cigarro?» Disse que sim, sorrindo sob a penugem do lábio superior castiço. Não lhe dei um cigarro; mas à medida que fomos conversando, continuamos o tema anterior: O tabaco é muito prejudicial à saúde; nem tu devias ter motivo de orgulho. «Eu já fumei um maço de cigarros por dia. Já estive viciado, só que dei a volta» Estás a ver? Isso não é coisa que se diga. «Vou-te oferecer um cigarro, mas é com a conciência pesada. Lembra-te que eu tenho quarenta e três anos de idade, e não consigo; quando chegares à minha idade - estarei eu com os pés para a cova - vais pensar que eu tinha razão: «Olha, aquele senhor tinha razão». Pelo que agora, sempre que vou no autocarro, encontramo-nos na Avenida Central. «Vais para a formação?» Meneia que sim. Hoje dei-lhe dois cigarros, ainda que não possa. É o Ricardo, tem 16 anos de idade. Às tantas, conto sobre os meus dias de escola. Ele conta as suas estórias, prematuras de rapaz de trazer por casa. Que fumou um cigarro perfumado e viu o teste ao quadrado. Hoje por exemplo acompanhei o Ricardo até ao edifício onde ele estuda. Entrei; estivemos ali a ver arcos e arabescos. «Estás muito bem instalado» Ainda estivemos a conversar à entrada da Escola, foi ele pedir um isqueiro ao talho. Despedimo-nos com um cumprimento jovem e abalei. Disse-lhe para não esquecer os estudos. «Eu tenho boas notas, não se preocupe»


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