sexta-feira, 20 de março de 2026

Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Parece que se ouviu um grito de dor após um garfo recolher o bife da rabada. Foda-se, que dores do caralho!... 
- Oh Paul McCartney. Se estava com fome, pedia.
Só que o médico grego tornou vinho em água, para sua completa satisfação. «Então nós pedimos-te para trazer o vinho, e fazes isso?»


quinta-feira, 19 de março de 2026

O Revés

Estávamos em 2008. Fora uma noite de terror. Nesse ano, decidi deixar os estudos. Eu estava em História da Arte na Universidade do Porto. Evidentemente que não tive aproveitamento escolar, ainda que as idas ao Porto fossem proveitosas para jovem sonambólico como eu. Pois bem, deixei os estudos. Ainda me foi auferido uma bolsa de estudo, mas ao cabo de um semestre vim para Braga. Além disso, as viagens diárias entre Porto e Braga eram muito cansativas. Lembro-me que os meus pais sentiram necessidade de ir ao Porto para ver como progredia. É claro que não me sentia como um peixe na água; ainda assim eles estavam algo preocupados. A minha ida para Aveiro fora um fracasso, sobre isso não havia dúvida, mas ainda assim permitiam esse estado de coisas. Afinal fora em Aveiro que a minha doença se manifestou. Todavia, quando voltei do Porto, acomodei-me. Muita das vezes procurava estímulos aquando das noites de Braga. Saía à noite, mas não era propriamente amigos que procurava. Por certo que frequentei alguns bares badalados de Braga, mas sempre sem amigos. Pois bem, certa noite vim do estaleiro da Velha-a-branca... (Era ali que encontrava entusiasmo para conviver, ainda que sozinho. Às tantas, encontrava velhos amigos e colegas. Lembro-me inclusive do Bunker, um bar muito bem frequentado na rua do Raio. Era ali que me achava muita das vezes... Um período houve que privei com um grupo de amigos após esse frenesi em Braga, hoje bem-sucedidos. Eu não queria nada frequentar a noite por mim próprio.) Como dizia, certa noite vim do estaleiro da Velha-a-branca. Eu tinha procurado alguém que me vendeu haxixe. Desde essa noite, a minha vida sofreu um revés. Desde essa noite, não mais fui o mesmo. Eu disse revés, e disse muito a propósito. Desde então, deixei a vida boémia. Essa noite foi por de mais horrível. Trata-se do meu primeiro ataque de pânico. Literalmente, morri. Sobretudo do susto que sofri. Era noite cerrada, passava da meia noite, os meus pais estavam a dormir. Decidi fumar um charro à janela da cozinha. No entanto, estava receoso para não acordar a minha mãe. Foi precisamente por causa disso que me abismei. Eu estava em alerta, com medo que a minha mãe irrompesse para me admoestar. E, no entanto, fumei. Fumei apenas uma partícula de fumo; tão pouco fui capaz de fumar o charro inteiro; aquilo apanhou-me de chofre. Eu estava literalmente em pânico. Estava tão em pânico e assustado, e tão fora de mim, que procurei a ajuda da minha mãe. Sim, eu acorri à minha mãe. Acendi a luz e chamei por ela, apoquentado. Eu estava a fumar e pedi que me acudisse. Que havia fumado haxixe. Deitamos portanto a partícula de haxixe pela janela momentos depois. Eu estava a entrar num estado particular de pânico, estava em catarse, sobretudo porque sentia que o meu aparelho respiratório, ao nível da garganta, não se sustinha. A minha mãe olhava incrédula, como que sem esperança. Eu estava a agoniar e queixava-me como uma criança. A minha mãe pedia-me para deitar. A própria Xana, ainda pequena, procurava, ainda que sobressaltada, brincar. A minha mãe rogava-me. Foi então que ouvi a respiração dela, junto a mim quando me deitei á sua beira. Foi das experiências mais avassaladoras que senti. Era noite cerrada. O som da sua respiração parecia o som concêntrico de órbitas extraplanetárias. Se finjo esta sensação? Não, eram sons de órbitas. Fica ao vosso preceito. Eu estava completamente dominado por aquilo. Pela droga e pela sensação de pânico. Desde logo, a órbita. Quando me restabeleci (eu não me restabeleci, ainda que tenha sentido algum alívio após a sofreguidão), ouvi claramente, ou tive a percepção do riso de um demónio no exterior, como que a desapartar daquelas bandas. Desde então, não fui o mesmo. Desde então, algo no meu organismo sofreu uma mudança. Não mais fumei, tão traumática aquela experiência. Todavia, este foi o primeiro gatilho. Desde essa noite que sinto o mesmo embotamento. Fui ao Hospital no dia seguinte; fiquei a soro. Lembro-me do médico que me auscultou, que me tratou por amigo com jovialidade. O dia seguinte e posteriormente andava muito apático e doente. Lembro-me principalmente da minha mãe vindo ao longe, rosto esquálido, depois do episódio. Creio que o meu pai ouviu toda aquela comoção no quarto contíguo, mas não se prestou. Deve ter ouvido os meus berros como que berros assoberbados. 


 

Abrantes

Em Abrantes, lembro-me sempre do homem a escavar o solo com uma pá num terreno baldio, andava eu com a câmara do Massa. Tínhamos vindo da Serra da Estrela e estacionamos junto a um castelo. Pelos vistos, havia ali uma exposição com santos perfilados com um pano preto sinistro a servir de fundo. Acontece porém que me ausentei para filmar a paisagem, andava ali o meu pai em busca de algo, a julgar pelo seu viandar. Quando não é a minha surpresa, ouço a minha mãe numa balaustrada: «Frederico. Anda cá rápido» Parece que estava a adivinhar, tal o meu riso. Estava o meu pai em baixo, pelo que não contive. Vira-se a minha mãe com olhos rasos: «É o teu pai»




quarta-feira, 18 de março de 2026

São Gonçalinho

São Gonçalinho entrou em casa dos sogros num recobro de alma; a guitarra dos Rolling Stones, que ele vinha ouvindo no leitor de cassetes, estava em ponto rebuçado. «Mãezinha, chegou o meu Gonçalinho! Olá, amor. «Olá - retribuiu com um beijo terno. A sogra embiocou-se; aquelas calças largonas deixavam muito a desejar. «Mariconço - pensou para os botões. Gonçalo atirou uma madeixa para o lado, e beijou a face da sogra. Debicou com beijinhos Bourbon, o cão de família, que rodopiou a um sinal e sentou-se na ponta de uma cadeira, observando de chofre o José Rodrigues dos Santos na telly. «Este José Rodrigues dos Santos é tão erudito. Não acha, Gonçalinho? - atirou a velha para aquele lado. «Sim, de facto é muito carismático.» A velha por pouco não atirou com um comentário ainda mais vexante. Mas conteve-se e azedou diante de um Rodrigues dos Santos que atirava com o eterno piscar do olho. «Eheheh - sorriu São Gonçalinho. «O que tem? - perguntou a velha, descrente. 
- Ó Purita - atirou o homem a um canto da mesa de jantar rasgando com uma meticulosidade cândida o naco de pão da boca -, até dá impressão que estás com os azeites. «Eheheh - sorriu o rapaz. 
- Ó mori - acorreu a rapariga vindo da cozinha como que acossada de riso -, queres ver o bolo que eu estou fazer? «Por que ris - sorriu São Gonçalinho. «Haha - baliu a rapariga escondendo por instante o rosto -, o bolo está completamente ensopado. 
- Que tentaste fazer; um preto musculado de chocolate? Queres que te ajude?
- Não acho que vá servir de nada - atirou a velha. 
Nisto o rapaz sentiu uma leve crispação no estômago. Mas não pôde conter-se; largou uma flatulência. Bourbon sorveu aquele aroma quente. A velha Purita embiocou o nariz: «Bourbon, sai daqui. Por amor de Deus. «Puxa, julguei que seria o meu fim - pensou São Gonçalinho -, a velha nem notou que fora eu quem se largou.» Cinco minutos depois Gonçalo sentiu a mesma crispação nos intestinos; mas desta vez decidiu ir mais longe. Largou-se desnatradamente. A velha olhou Bourbon sob as lunetas. «Bourbon...» O rapaz sorriu candidamente. Foi então que decidiu largar-se numa flâmula: aquilo soou nas quatro paredes como um sustenido de um fagote. Purita, caída de um sonho, atirou assustada: 
- Foge, Bourbon! Foge que ele mata-te!

segunda-feira, 16 de março de 2026

A Recrudescência do Nariz

Estava um dia de sol abrasador. Três angolanos decidem fazer uma pausa após uma longa faxina num prédio em construção. «Puxa - diz o mais novo fazendo uma voluta na carapinha -, o calor tolhe... «É assim mesmo - atira o mais alto de peito anguloso e braços tonificados, acrescentando: Nunca ouviste dizer que o calor quando aperta faz crescer o nariz? «Isso é verdade? «É verdade, pois. Conheci um homem que morreu devido à recrudescência do nariz. Saiu de casa numa manhã ensolarada; passou em revista os jornais da região junto a uns bancos com outros cotas, e quando não é a surpresa, o nariz principiou a crescer diante dos olhos dele. «Isso diverte-me - principia o angolano mais retinto, emborcando de uma lata de cerveja Cuca. «Puxa - recomeça o mais novo recompondo a voluta na carapinha -, morreu devido à recrudescência do nariz? Acho isso bastante inverosímil. «Foda-se - asseverou o angolano do peito anguloso, atirando com os factos - É verdade! «Sim, é verdade - apoia o angolano retinto -, essa história é verosímil. Aposto que a reacção dos cotas foi de completo assombro: ver o nariz do gajo a crescer como uma pera com bicho. «Um gajo não morre devido à recrudescência do nariz; ou morre? «Oi - alardeou o angolano do peito anguloso - é verdade, ndengue! «É verdade, ndengue - corroborou o angolano mais retinto emborcando da lata. - É improvável mas possível. Neste somenos, os angolanos ouviram qualquer coisa a ceder: «Que é isso? - perguntaram em uníssono - quando, para espanto do mais novo, uma tábua o atinge de chofre na orelha. «Foda-se, a minha orelha! Tenho um lugar vazio no lugar da orelha! Tenho um lugar vazio no lugar da orelha! «Really? «A sério - exclama o mais novo num carpir -: a minha orelha! It's gone! Epá, por favor, ide procurar a minha orelha. «Ndengue, encontrei a tua orelha! - grita lá em baixo o angolano do peito anguloso num ardil. «Foda-se! - exclama ndengue. - Não é essa orelha; a minha tem um lápis!

Arcimboldo

Vou contar uma história. Mas esta história não é sobre pedras nem sobre flores, tão pouco sobre o que está à direita do Pai. Vou contar portanto uma história verídica. No Marco de Canaveses, quem vai pelas veredas vicinais do Douro deprimido e no entanto singelo, há uma casa. Essa casa está no alto de um outeiro. Foi nessa casa que Arcimboldo passou grande parte da sua infância. Arcimboldo recorda a infância sob um manto de estrelas pontilhados e o medo de mistérios abaulados na boca preta dos pinhais. Ó meu deus, o direito de evocar estas sensações! O espilrar do pastor alemão da simpática vizinha nas noites de cadafalso; os passos reais de um ladrão que não está ali... Mas recordar não é uma aventura; Arcimboldo queria ser pequeno outra vez. Certo dia, Arcimboldo e o primo Francisco Late estavam a jogar ténis. Arcimboldo não tinha especial habilidade para manejar a raquete, mas os seus olhos, cansados agora, refulgiam de alegria quando manejava o pulso magrinho com destreza. «Vamos tomar banho, homem - dizia o Francisco Late - Faz calor como o raio! Já te contei a história quando o meu pai açoitou um limoeiro? «Puxa, açoitou um limoeiro? «Sim. No outro dia erguia-se no ar. Esteve inculcado na terra com uma grande preguiça. O meu pai, como quem não quer a coisa, deu uma sarrafada nele. «Oi, a sério?» Nesse dia estavam lá em casa uns primos afastados emigrados em França. Arcimboldo tentou beijar as faces de uma rapariga mas ela só consentiu um apenas. «Está bem - pensava Arcimboldo para os seus botões -, seja um beijinho.» Porém, aconteceu algo que ainda hoje Arcimboldo recorda não sem um sorriso. Nesse ano, ele estava a aprender a nadar; ainda tinha um pouco medo da parte mais profunda da piscina. Todavia, correu cheio de um grande entusiasmo e mergulhou na parte funda. Ó meu Deus, Arcimboldo estava a ver bolhinhas por todo lado; estava a afogar. Foi quando sentiu uns braços fortes a resgatá-lo muito previdentemente da água; tratava-se do velho Quintas, o alentejano musculado que passava lá em casa para tomar uns banhos. Ele tinha salvo a vida de Arcimboldo. No entanto, sob aquele sol árido do Douro ninguém estava em perigo de perder a vida: «Ó tia - dizia alguém -, o Arcimboldo por pouco afogou.» Vicissitudes.

Alguém me quer falar

Estou à procura de um filme para ver no meu VCR – pelo menos para recriar um sábado à tarde - quando me deparei com o título na etiqueta de uma cassete: «Demónios». Fiquei um pouco estupefacto; que raio poderia ser aquilo? Liguei a tomada do VCR, coloquei a cassete na porta, colocando a mim mesmo esta questão: Demónios? A fita principiou a rolar, fez-se estática, o ecrã ficou negro, e quando não foi a minha surpresa, vi uma gravação de um episódio qualquer de umas criaturas em desenho animado. «Que é isto?» O ecrã mostrava um amontoado de cor saturada e seres extraplanetários. As vozes soavam como dentro de uma caverna; e no percurso do vídeo surgiam uns efeitos concêntricos terríveis, de lutas entre titãs. Fiquei perturbado. Questionei-me se não fora eu quem gravara aquele mundo inóspito de criaturas e combustão de cores. «Não pode, eu não era tão endiabrado... Quem poderia ter gravado uma coisa assim? Louvado seja Deus, quem coloca uma etiqueta com o dizer Demónios? Ainda é mais perturbador que aquelas criaturas fantásticas. Alguém me emprestou a cassete, tenho a certeza, mas não sei quem. «Que mente tacanha? Alguém me quer falar»


Happy

Pelos vistos estavam à mesa quando decidiram apagar a luz, entre eles um médico grego - médico grego, esse, que rumou ao médio oriente. Pare...